Pessoa desenhando em um Galaxy Note 9 com a S Pen.

O detalhe que a Samsung não conseguiu copiar da Apple

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10/8/18, 15h54 5 min Comente

Afirmar que a Samsung copia a Apple, hoje, exige algum esforço de quem a profere para não enrubescer. É verdade que, nesta quinta-feira (9), os sul-coreanos replicaram até o mistério (nada de data de lançamento ou preço) ao anunciarem o Galaxy Home, sua versão do HomePod da Apple com inteligência artificial da casa (a Bixby, caso lhe escape o nome), mas há tempos a empresa se destaca por designs originais e iniciativas que pouco têm a ver com o modo Apple de se criar e vender gadgets.

A estratégia de inundar os segmentos de entrada e intermediário com a linha Galaxy J e a linguagem de design introduzida no Galaxy S6 e aperfeiçoada desde então são grandes exemplos dessa distinção. O fato de que a Samsung é uma das poucas que não adotou o entalhe no topo da tela à imagem e semelhança do iPhone X, a prova definitiva de que ela se destaca do bolo dos celulares Android. Foi-se o tempo em que o Galaxy S era tão cópia do iPhone que suscitava ações na Justiça. Aliás, bastante tempo: esse caso ocorreu em 2011, com o primeiro aparelho da família.

Em 2018, a Samsung decidiu voltar a copiar algo da Apple, mas algo menos tangível e, mesmo assim, super importante para os balanços financeiros trimestrais da Apple: a sua estratégia para smartphones. O Galaxy S9, de março, e o Galaxy Note 9, anunciado esta semana, são iterações, leves melhorias dos seus antecessores, Galaxy S8 e Galaxy Note 8. Esses dois, lançados em 2017, chamaram a atenção com suas “telas infinitas” e, por esse e outros méritos, caíram no gosto popular. Os novos chamam a atenção por serem virtualmente idênticos aos antecessores.

É a estratégia “tick-tock” da Apple na prática. Que é antiga, vem desde o iPhone 3GS, de 2009. Funciona assim: a Apple mantém o design do iPhone do ano anterior e implementa melhorias esperadas (câmeras melhores, processadores mais rápidos) e algum recurso inovador no novo, como o Touch ID do iPhone 5s ou o 3D Touch do 6s. É algo que funciona tão bem na Apple que nem quando ela esticou a vida útil de um design por quatro anos — iPhone 6, 6s, 7 e iPhone 8 — houve rejeição dos consumidores.

Conector de fones de ouvido ausente no iPhone 8.
iPhone 6s e iPhone 8: visualmente quase idênticos. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo.

A tentativa da Samsung não teve o mesmo efeito. Talvez a execução tenha deixado a desejar? O Galaxy S9 trouxe, além das melhorias esperadas, um lente com abertura variável de utilidade duvidosa e os constrangedores AR Emojis (a minha análise). Vendeu mal e prejudicou a receita e lucro da divisão de dispositivos móveis da Samsung. Da mesma forma, apenas melhorar as partes internas, colocar Bluetooth na caneta interativa S Pen e pintá-la de amarelo não deve atrair uma multidão às lojas para comprar o Galaxy Note 9.

Não me entenda mal: tanto Galaxy S9 quanto Galaxy Note 9 são ótimos aparelhos, talvez os melhores com Android à venda no Brasil. (O Note 9 não tem data para chegar nem preço definido no país.) O problema é que o software, ou o ecossistema em que os smartphones da Samsung estão inseridos, é commodity. A Samsung tenta criar um exclusivo dentro e apesar do Android, e até faz apps legais e serviços úteis, mas a concorrência com o Google é feroz. E os apps do Google, que a maioria dos usuários acaba usando, estão nos smartphones da Motorola, da LG, da Positivo, da Sony…

A Apple, por outro lado, detém a exclusividade do iOS e tem muitos atrativos para manter seus clientes ali dentro, fiéis. Quando um iPhone é aposentado, o consumidor não tem outra empresa a recorrer. A única escolha que ele tem é entre um iPhone mais barato e um mais caro — e em qualquer desses cenários a Apple ganha. Uns podem chamar de síndrome de Estocolmo, mas é algo que funciona.

Existe a possibilidade de que esse mais do mesmo com as linhas Galaxy S e Note de 2018 seja algo pontual, um respiro para o ano que vem. Nesse caso, a Samsung teria pisado no freio da inovação porque prepara algo realmente grande para 2019. Há rumores nesse sentido, de que um smartphone dobrável será lançado ano que vem, com o Galaxy S10. Coincidência ou não, o iPhone X (lê-se “dez”) marcou a revitalização mais profunda do icônico smartphone. Graças a ele, a Apple conseguiu subir o preço médio da linha e manter as vendas e a receita em alta mesmo com o restante do mercado estagnado.

Atualização (18h50): A versão inicial do texto informava que a linha Galaxy S completará dez anos em 2019. Na verdade, ela fará nove anos. O primeiro Galaxy S foi lançado em 4 de junho de 2010.

Foto do topo: Samsung/Divulgação.

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