Google Duplex conversando com pessoal ao telefone.

O Google quer tornar a humanidade obsoleta — e está conseguindo

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9/5/18, 12h13 8 min 37 comentários

Desde 2016, o Google é uma empresa que se pauta por inteligência artificial (IA). Na visão deles — e de boa parte da indústria —, IA é a pedra fundamental em cima da qual se constrói a próxima onda de tecnologia de consumo. Não por acaso, o Google está muito bem posicionado para essa nova corrida e, recorrentemente, demonstra essa vantagem com produtos inéditos, incríveis e que desafiam a nossa credulidade.

No primeiro dia do Google I/O, o evento anual que a empresa promove para falar a desenvolvedores e apresentar suas novidades ao mercado, uma tecnologia chamou a atenção. Chama-se Google Duplex. Trata-se de uma inteligência artificial personificada em voz sintetizada, indistinguível da humana, que liga para estabelecimentos comerciais a fim de resolver problemas mundanos.

Na demonstração, vimos a voz agendar um corte de cabelo falando com um ser humano do salão, sem que a pessoa na outra ponta desconfiasse que estava falando com um robô, e outra reservando uma mesa em um restaurante. Aqui tem uma explicação técnica e, abaixo, as conversas (em inglês):

Parece uma tecnologia tentadora. Além da ojeriza que desenvolvemos em relação às ligações, reconheçamos que alguns estabelecimentos comerciais pioram deliberadamente essa forma de contato com seus clientes. Colocar uma inteligência artificial esperta para cancelar uma conta junto à operadora de telefonia móvel parece uma vingança irresistível às horas e fios de cabelo perdidos com atendentes precarizados seguindo roteiros confusos a fim de nos fazer desistir do cancelamento. Ou, então, colocá-la para falar com outros robôs menos sofisticados, como aqueles de bancos que pedem para você falar o que deseja apenas para, em seguida, informar que não entendeu a requisição, pode repetir pausadamente?

Seria ingenuidade, porém, acreditar que pararíamos (ou pararemos, se depender do Google) aí. Existem situações ainda mais delicadas que são ou podem ser tratadas por telefone. Repreender ou corrigir alguém no trabalho, por exemplo. Ou terminar um relacionamento amoroso. Soam como situações extremas, o que é verdade, mas que permanecem no mesmo patamar das com que o Google Duplex promete lidar nesse momento. São problemas que podem ser sanados por ele.

“Progressos”

A curta história da tecnologia de consumo está repleta desses “progressos” inadvertidos. Tomemos a noção de privacidade: coisas que são lugar comum hoje seriam, há uma ou duas décadas, consideradas absurdas. O que Google e Facebook fazem (para ficar nas duas maiores) é distorcer as noções convencionadas no contrato social para criarem o novo normal. A gente dá pouca atenção ao poder de moldagem que as empresas de tecnologia têm porque, a princípio, tudo parece fascinante e/ou inofensivo. Super útil, a ponto de ignorarmos as implicações nefastas que decorrem da nova tecnologia.

Algoritmos estão próximos a nos entender melhor do que nós mesmos nos entendemos. A gente já concede isso em algumas situações tangenciais: seguimos, sem questionar muito, o caminho que o Waze nos dá porque ele entende a cidade; ansiamos pelas playlists personalizadas do Spotify porque ele sabe o que gostamos e do que vamos gostar; as sugestões da Netflix não costumam errar porque, para os seus algoritmos, é fácil decodificar as características de uma produção audiovisual que nos agrada. Em que ponto parar? No que depender do Google, esse ponto não existe.

Vai além: seu seguro pode ficar mais barato se você tiver o perfil e os hábitos corretos. Seu crédito na praça também depende de uma conta feita por algoritmos capazes de prever, melhor do que qualquer promessa que você fizer, até pela sua mãe mortinha, que você irá pagar esse empréstimo. Em 2013, o Facebook já conseguia prever, com grande precisão, quando, com quem e por quanto tempo você namorará.

O mais ultrajante no Google Duplex é a audácia em simular o que nos torna humanos — as nossas imperfeições. A inteligência artificial hesita, faz pausas, diz “uhum”. Só faltou fazer o som de respiração ao telefone, mas não duvide que, caso a agenda do cabeleireiro esteja lotada, ela dê um suspiro de lamento.

Numa era com tanta desinformação e com tecnologias capazes de simular vozes conhecidas com computadores vendidos em supermercado, essa tecnologia é uma caixa de Pandora prestes a ser aberta. E é antiética, no sentido que engana a pessoa do outro lado da linha a pensar que está falando com outro ser humano, quando, na realidade, está falando com o nada.

Não é a primeira vez que o Google terceiriza para computadores atividades humanas. Na mesma apresentação no Google I/O, por exemplo, a empresa mostrou o “Smart Compose” do Gmail, uma inteligência artificial que escreve e-mails inteiros a partir de algumas palavras digitadas pelo usuário. É uma ampliação das Smart Replies, do próprio Gmail e do Allo, que oferece sugestões de respostas com base no que o interlocutor disse. O fim desse caminho é terceirizar toda a nossa comunicação.

GIF mostrando Smart Compose do Gmail em ação.
Smart Compose em ação. GIF: Google/Reprodução.

Imagine o WhatsApp mandando parabéns para todos os aniversariantes da sua agenda de contatos, automaticamente, todo dia. Que conveniente! Que artificial.

O futuro que nos aguarda

No livro Homo Deus, Yuval Noah Harari se debruça sobre o futuro da humanidade a médio prazo. Ele diz que é uma reflexão sobre os próximos 200 anos, mas talvez ele tenha subestimado o Google.

Vencidas as três piores mazelas da humanidade — a fome, a peste e a guerra, segundo Harari —, o que nos moverá? Como o avanço da tecnologia impactará a humanidade, no sentido mais profundo do termo? Em outras palavras, o que nos sobra quando inteligências artificiais como a do Google forem capazes de, além de agendar cortes de cabelo, reservar mesas em restaurantes e escrever e-mails, desempenharem todas as outras tarefas, chatas ou não, que hoje pessoas fazem, de fabricar parafusos a compor música clássica?

A certa altura, próximo do final do livro, Harari diz que uma solução pode ser nos saciarmos com realidade virtual e drogas alucinógenas. Embora esse pareça um cenário atraente para muita gente, a implicação de algo assim no sentido da existência seria brutal. Seria, para o autor, “um golpe mortal na crença liberal da sacralidade da vida humana e das experiências humanas”.

Antes disso, porém, quando os algoritmos se provarem marginalmente melhores que nós mesmos em decidir o que é melhor para nós em mais esferas da vida, eles virarão “hackers da humanidade”. Escreve ele:

“Quando isso acontecer, a crença no individualismo entrará em colapso e a autoridade vai se transferir de indivíduos humanos para algoritmos em rede. As pessoas não mais se verão como seres autônomos que levam suas vidas de acordo com o seu bem querer; na verdade, vão se acostumar a se verem como uma coleção de mecanismos bioquímicos que é constantemente monitorada e guiada por uma rede de algoritmos eletrônicos. Para que isso se concretize, não há necessidade de um algoritmo externo que me conheça perfeitamente e que nunca cometa nenhum erro; basta que esse algoritmo me conheça melhor do que eu me conheço e que cometa menos erros do que eu. Então fará sentido confiar a eles cada vez mais decisões e escolhas da vida.”

O livro de Harari me veio à mente enquanto assistia à inteligência artificial do Google enganar um ser humano pelo telefone. Veio novamente, semana passada, quando o Facebook mostrou pessoas com um capacete de realidade virtual de US$ 200 agitando as mãos no vazio para “jogar ping pong” ou assistir a uma TV gigante (virtual) em uma cobertura (virtual) com uma vista panorâmica do pôr do Sol (virtual).

Com uma frequência cada vez maior, me lembro de Homo Deus enquanto vejo os anúncios de novos produtos das maiores empresas do mundo ou Mark Zuckerberg dizendo que inteligência artificial resolverá os problemas (muito humanos!) do Facebook. Talvez o Google só esteja nos conduzindo ao inevitável, mas não deixa de ser assustador, e um pouco triste, testemunhar esse empobrecimento generalizado da existência travestido de tecnologia de ponta.

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  • Marciel Jara

    Uso computador e internet desde 1998 incrível como decaiu o meu fascínio por esse universo, cada dia busco me afastar mais dessa loucura.

    • Luis Alberto Silva

      É interessante pensar que temos hoje autonomia ne livre arbítrio, mas estamos sempre dizendo que nosso destino já está escrito, sinto que prefiro minhas decisões sendo tomadas por um algoritmo que me dá a melhor rota para o serviço ou uma playlist que me chame a atenção, do que por uma entidade onisciente e onipresente.

      Assim como hoje teremos os mesmos pesos e mesmas escolhas seguir ou não as predefinições dos algoritmos, o fato desta preocupação mostra que a humanidade ainda se sente presa a algo que a controle, temos que ser livres primeiro em nós mesmos depois é só aproveitar o que de benefibene teremos.

      Imagina poder brincar com sua filha enquanto a máquina cancela o sinal da sua tv… É compra os ingressos para o cinema na seção que você quer e no horário que você pediu. Deixando assim mais tempo para viver com seus entes.

  • Renan Cunha

    sobre o proximo (ou atual) objetivo da humanidade, nick bostrom tem uma resposta https://nickbostrom.com/utopia.html

  • Paulo Meneghelli Júnior

    Primeiro, não se trata da Google, e sim de uma tendência mundial. Com Google ou sem Google, chegaríamos lá; Segundo, até hoje todos temos sido acomodados, pensando que tudo está bem enquanto a questão não atinge a nos pessoalmente. É aquela historia, nunca me mexi e, agora que estou para perder meu emprego, começo a pensar em todo mundo. Afinal os outros têm que se mexer (má notícia, o emprego foi para o quiabo, aceite); Terceiro, merecemos mesmo tanto destaque quanto seres humanos? Afinal, acabamos com as guerras, com o preconceito, com a miséria? Todos têm educação? Cuidamos do ecossistema? Enfim, o que será que o mundo realmente perde se nós nao detivermos mais o controle? A verdade é que continuamos sustentando velhas estruturas de poder, continuamos nos acomodando e, agora que surge um tipo de inteligência que se destaca cada vez mais, mais mesmo do que nós (que, pelos nossos resultados reais no mundo, não parece difícil), começamos a arrancar os cabelos.

    • Quem você acha que cria essas tendências? Dica: uma empresa com (literalmente) bilhões de clientes/usuários está entre os principais influenciadores.

      Eu não entendi esse lance do nosso papel no mundo. É válido questionar o impacto negativo que temos no ecossistema, mas onde uma inteligência artificial entra aí? Porque, no pior dos cenários do que debato no artigo, o ser humano continuará em posição de dominação, só terá a sua existência reduzida a aferições de uma IA. (Ou você acha que o Google ou qualquer inteligência artificial vai nos destruir para que, sei lá, os leões dominem o planeta?)

      • Paulo Meneghelli Júnior

        A questão é: que mérito nós temos? Como base nos nossos resultados, não no nosso orgulho, no que somos melhores que, por exemplo, os dinossauros? Na inteligência? Temos usado ela para o bem? Com todos os milênios que temos estado por aqui, provamos nossa primazia?

        • Cara, me desculpe, mas essa não é a questão. Os questionamentos que você está fazendo não têm nada a ver com o dilema abordado no texto.

          • Paulo Meneghelli Júnior

            O dilema, segundo entendi, é a transferência do controle do mundo para as máquinas. O que não compreendo é porque isso é inaceitável. O termo “homo Deus” me parece bem correto. Sem querer ser religioso, na referência do Gênesis, o ser humano foi criado para cuidar do jardim, dar nomes, etc. Ele só não podia viver do fruto que lhe permitiria discernir entre o bem e o mal. Pois então, criamos a máquina à nossa imagem e semelhança. Agora ela tem o controle do nosso jardim. O discernimento entre o bem e o mal, a capacidade de dizer que isso é bom ou isso é ruim, está a um passo de distância. E acredite, vai acontecer. A questão é como reagir diante desse fato. Vamos criar uma guerra, ao estilo de exterminador do futuro, ou vamos integrar essa nova consciência que estamos criando?

          • O dilema é a perda da nossa autonomia para máquinas.

          • Paulo Meneghelli Júnior

            Vai acontecer. Tudo o que coloquei antes foi no intuito de demonstrar que o ser humano nunca foi autônomo. O homem sempre foi lobo do homem. Mas tínhamos a noção que possuíamos as máquinas. Enfim, acredito que a mudança é inevitável.

          • Você é quem está dizendo que vai acontecer. Espero que as pessoas, no mínimo, resistam a essa mudança.

          • Paulo Meneghelli Júnior

            O detalhe é que estamos criando máquinas para tomarem decisões com nossos valores. Nós as tememos porque não acreditamos na justiça destes valores. Imaginamos um futuro com elas agindo como nós agimos. Não dá para parar uma bola de neve, mas se passarmos valores melhores, temos uma chance.

          • Maicon Bruisma

            Eu espero que não. Já vi a face ruim do ser humano, da sua essência, e se uma máquina fosse dominar tudo, tirar nosso controle, nos guiar via roteiros, não acho um problema. Metade do mundo já acredita nisso, chamam de “destino”, e por isso fazem tanta merda.
            Quem resistir, acreditar que nós somos supremos e impedir uma real revolução social, será lindamente exterminado, se isso acontecer com metade da população também não é inviável.
            Ja percebeu o quanto estamos gastando para sair do planeta, o quanto damos ênfase na frase “deixar todos os ovos em uma única cesta é burrice” ?
            Cara, estamos destruindo o planeta, exterminando espécies à rodo, somos nada mais que gafanhotos, e o que os humanos fazem com gafanhotos que vão de plantação em plantação destruindo tudo?
            Não merecemos estar aqui, conheço gente boa mas não são maioria, infelizmente.

  • Uma coisa que eu fiquei pensando bastante sobre essa experiência do Google é que eles precisam de uma base bem grande pra poder treinar e aperfeiçoar essa IA, né?

    Vamos imaginar quantas horas de ligações para pequenas empresas ele está fazendo e quantos minutos de trabalho dos empregados dessas empresas em treinamento gratuito pra IA do Google? Não sei se as empresas toparam em participar desse tipo de experimento, mas é claramente uma empresa usando força de trabalho de milhares de outras gratuitamente pra melhorar um serviço seu, só de uma forma bonita e bem disfarçada.

    Não sei o quão anti ético isso seria, mas acho bem bizarro.

    • Felipe Teodoro

      No começo eles provavelmente colocaram funcionários do outro lado da linha simulando um atendente, pq no começo o Google Duplex devia cometer um monte de erros, só agora que devem estar ligando para estabelecimentos reais.

    • Carlos Gabriel Arpini

      Mesmo lógica do reCaptcha, que nos usa para validar o que a IA leu e melhorar sua “inteligência”. Trabalhamos de graça a todo momento quando usamos nossos celulares e afins…
      No modelo atual, as IA precisam de imensos conjuntos de dados para que a partir de algoritmos possam definir o que fazer, baseado nessa massa de dados pré-carregada. Aposto que se alguém fizer algo fora da caixa, como começar a latir ao telefone a IA pira e não sabe o que fazer. E a mesma lógica do reconhecimento de fotos: se é uma foto bizarra ou com algo fora do padrão “normal”, nenhum algoritmo hoje entende a mesma.

  • Paulo Pilotti Duarte

    Não entendi o que o Google falou sobre o “autocompletar” dos emails no Gmail, mas, não vejo nada de IA ali. É apenas uma grande aplicação de linguística de corpus (provavelmente baseada nos seus outros emails) e aprendizado de máquina (será que isso pode ser IA?) relativamente simples.

    Dele deve se basear em “vector words” ou mesmo em n-gramas baseadas no index do seu próprio corpus oriundo do Gmail (é fácil prever, se baseando em padrões verbais e nominais, o que você irá escrever depois de um certo substantivo ou verbo, principalmente se esse corpus estiver relativamente bem etiquetado morfossintaticamente) que podem te dar uma previsão relativamente certa do que vem a seguir.

    Se o Google tiver lançado um paper sobre essa parte talvez isso fique mais claro, mas a principio não é nada muito diferente do que se tem hoje na busca do Google (a diferença é o tamanho do corpus).

    • Vinícius G

      “aprendizado de máquina (será que isso pode ser IA?)”

      Sim, não sei se você lê muita matéria de tecnologia mas não é de agora que é convencionado chamar aprendizado de máquina de IA. Em sites muito especializados existe uma distinção, mas pro público geral ela é bem menos relevante e toma tempo esmiuçar as diferenças.

    • Maicon Bruisma

      AI é formada de 3 esferas: machine learning, deep learning e neural networks.

  • Anderson C. Santos

    Perda de autonomia – essa eh uma questao filosofica interessante: o que eh autonomia (ou livre arbitrio) ?

    Numa definicao simplista eh a “Liberdade de escolher”.

    Mas voce tem liberdade verdadeira se nao conhece o resultado de suas escolhas ?

    Por exemplo: voce tem dois copos na sua frente e deve tomar o conteudo de um. A olho nu, sao iguais: agua cristalina. Um tem veneno e outro nao. Como escolher ? Se nao tenho informacoes suficientes para fundamentar minha escolha, ela eh realmente livre ? Escolheria livremente o veneno se tivesse acesso a todas as informacoes ?

    Uma escolha implica em um conjunto se informacoes e capacidade de analisar as mesmas.

    Outro exemplo: uma crianca de 10 anos de idade esta fazendo birra e nao quer ir a escola. Ela tem direito a esta escolha ? O fato eh que ela nao tem informacoes (que os conhecimentos adquiridos sao necessarios) nem a maturidade de analisa-las (que a ausencia da escola ira trazer no futuro) (por favor, sem flames sobre qualidade do ensino, nao eh esse o ponto aqui).

    Entao estamos questionando se eh positivo ou nao uma IA, que nos conhece bem o bastante, decidir por nos.

    Se tal qual a crianca, voce nao tem conhecimento e maturidade sobre determinado assunto, se voce escolher algo, estara realmente escolhendo ou apenas dando vazao a um impulso aleatorio – pouco melhor que jogar uma moeda ?

    Sim, eu quero manter minha autonomia – nem que seja somente na aparencia.

    Mas em diversos aspectos – uma IA que ajudasse nos investimentos publicos, p.ex. – nao sei se a perda seria tao grande assim (ta seria, mas voces entederam o ponto).

    • Poxa, mas aí você está misturando duas esferas que não se misturam, pelo menos não nesse contexto. Uma inteligência artificial que analise históricos de doenças ou que ajude a entender a dinâmica das cidades? Legal, pode ser útil. Uma que evite que eu tome veneno? Ótimo! Uma criança, como você mesmo disse, não tem discernimento para tomar decisões, por isso ela não responde por seus atos e pode ser “mandada”.

      A minha crítica é à IA que domina mesmo as decisões mais mundanas da vida de uma pessoa, que fere a autonomia em camadas menos fundamentais, situações onde a vida não está em risco ou que digam respeito à maioria; nesse último caso, com a ressalva dos vícios que toda IA ainda tem, derivados dos nossos próprios. Se eu terceirizo as respostas de e-mails e ligações a uma IA, perco um pouquinho daquilo que me faz humano — a subjetividade, a privacidade, a noção de indivíduo.

      O livro do Harari faz esse questionamento do livre arbítrio. Ele faz a provocação dizendo que, num nível bioquímico, não existe livre arbítrio, mas sim a decisão dos nossos próprios “algoritmos internos” (não com essas palavras, mas algo assim; faz quase um ano que li o livro).

      • Anderson C. Santos

        Sim, concordo contigo. Mas no final das contas, os agentes de IA avancando so sobrara a “aparencia da autonomia”. Isso me incomoda tambem. Mas o que questiono eh que talvez hoje ja seja assim: apenas uma aparencia de autonomia.

    • Ralf Montel Garcia

      Uma das coisas que nos leva pra frente além das perguntas, são nossos erros, descobrirmos oq é errado e nos aperfeiçoarmos para fazermos o certo e da melhor maneira possível.
      Quando a pessoa por exemplo é criada com pais super protetores, eles tomam todas as decisões, a criança só vai acompanhando e no final das contas não aprende por que simplesmente não precisou aprender.
      Como foi citado em outro comentário, muitas coisas não fazemos mais por não precisarmos, graças a tecnologia. Antigamente as pessoas decoravam horas de discurso pq não tinham anotações. Hoje em dia não precisamos lembrar nem de 8 números, é só salvar o contato e pronto. A tecnologia é boa? É, o perigo na minha opinião é quando chegar em um ponto que a humanidade praticamente não vai tá evoluindo, só as IAs.

  • Fernanda Santos

    Rodrigo, eu estou me distanciando do uso excessivo da tecnologia. Quanto mais nos acomodarmos com automações ocorre um menor uso do cérebro e menor questionamento. As bolhas de informação, as diretrizes subliminares de comportamentos me assustam demais. Estou lendo o livro do Peter C. Gøtzsche sobre a industria farmaceutica e fico chocada como posso ter ficado cega por tanto tempo. Mas acho que essa criação do novo normal vem das grandes industrias e tudo é movido pelo dinheiro, temos robos médicos na chinae muita inteligencia artificial nas pesquisas medicas. Obrigada pelo seu Blog sempre nos alertando sobre o futuro e riscos da tecnologia

  • renato mello

    Essa questão levantada é muito interessante. Mas o que compreendo é que a IA nada mais é que uma sequência de comandos predeterminados. Pelo que vi na demonstração do vídeo se eu digito “taco” o sistema vai sugerir guacamole. Até aí nada de mais. A questão mais profunda é o quanto cada um de nós vai se deixar influenciar por essa tecnologia nascente. Assustadora e dasafiadora: qual escolher? Eu uso muito o Waze e nem sempre aceito a sugestão do aplicativo porque já conheço o trânsito para minha residência. Na segunda-feira cheguei três minutos antes que se tivesse seguido as determinações. A Netflix e o Deezer quase sempre estão errando o meu gosto. Nestes dois último caso ela não pode prever que um dia eu estou querendo ouvir só MPB e no outro quero POP nacional dos anos 90. Toda a inteligência artificial trabalha com a previsibilidade, mas seres humanos não são tão previsíveis assim e isso é o que nos distingue das máquinas. A questão levantada abaixo sobre livre-arbítrio é muito interessante. Eu prefiro ter a IA a meu favor para me ajudar a escolher o copo com água sem veneno.

    • Noah Cezario

      vc descreveu bem minha experiencia com esses serviços, nada do google, spotify, netflix acerta meus gostos e olha que uso com frequencia!

  • sonia regina Oliveira

    Certíssimo! Com certeza a tecnologia ira atingir proporções gigantescas na humanidade. É isso é triste. As consequencia seguirao…

  • Noah Cezario

    Ghedin, nem vou me alongar, mas tudo que vc descreve, algumas coisas que já existem hoje, vide a china lá com seu sistema, é abordado num anime incrivel chamado Psycho Pass. Onde um sistema decide tudo por vc (trabalho, parceiro etc), vale muito a pena, dá uma chance pelo menos pro primeiro episodio

    http://www.animeplus.org/psycho-pass (só tem pirata no BR)

    • Fernando Brandão

      Tem no crunchyroll?

      • Noah Cezario

        So na gringa :T

  • Harlley Sathler

    Quando isso acontecer, a crença no individualismo entrará em colapso e a autoridade vai se transferir de indivíduos humanos para algoritmos em rede. As pessoas não mais se verão como seres autônomos que levam suas vidas de acordo com o seu bem querer; na verdade, vão se acostumar a se verem como uma coleção de mecanismos bioquímicos que é constantemente monitorada e guiada por uma rede de algoritmos eletrônicos.”

    SkyNet ou Matrix?!

    • Maicon Bruisma

      Provavelmente será melhor que a sociedade atual.

  • Mauro GMancio

    Ok, mas cade a cura de uma simples calvície? IA ainda esta engatinhando…

  • binho_0

    Há algum tempo, bastante tempo, tinha escrito em algum comentário exatamente o q o Harari preconiza: realidade virtual + drogas (mas ninguém me levou a sério…). Ele copiou de mim, lendo meus comentários, mas tudo bem, não tem galho. Só q o cara é muito pessimista, credo… Até parece q algo assim vai acontecer, imagina, as pessoas deixando de viver as maravilhas da vida real por um holodeck particular? Seria como um jovem e ir numa rave e, pasmem, usar drogas pra curtir a música eletrônica…

    E escrevi em outro comentário, q o Harari provavelmente vai copiar tb, se é q já não copiou, q a conversa natural com uma AI seria o fim da solidão. Taxas de suicídio vão cair torrencialmente, soluções inteligentes (pra coisa boa e pra coisa ruim) vão surgir aos borbotões e seremos uma sociedade em q a ideia do amigo imaginário vai ser real/virtual. Tudo aponta para um futuro genial – se vc tiver uma continha no Google e entregar toda a sua vida pra eles, claro.

    • Esse outro comentário aí a Sherry Turkle já tinha feito no Alone Together, de 2012! (Embora ela não seja tão otimista quanto você.)

  • Cristhian Licheski Cruz

    Preocupe-me muito com essa questão da IA. Porém, não acho que essa nova tecnologia seja o problema, meu maior medo é o suposto objetivo dos criadores da mesma.