Feature phone da Nokia com o Google Assistente na tela.

Com investimento milionário, Google ganha espaço no KaiOS

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28/6/18, 11h42 3 min Comente

Inexistente no Brasil, o KaiOS ocupa um vácuo deixado pela Nokia e por praticamente todas as outras grandes fabricantes: os feature phones. Lembra o Nokia lanterninha? Aquele tipo de celular. Contrariando algumas previsões, as vendas desse tipo de dispositivo têm crescido nos últimos trimestres, puxadas por algumas evoluções pontuais como suporte a redes 4G e um sistema moderno — no caso, o próprio KaiOS. Há um contingente que não pode ou não se interessa por smartphones.

Nesta quinta-feira (28), a KaiOS Technologies anunciou uma rodada de investimentos Série A de US$ 22 milhões. Segundo Sebastien Codeville, CEO da KaiOS Technologies, o valor “ajudará a acelerar o desenvolvimento e a distribuição global de smart feature phones com KaiOS, permitindo-nos conectar a vasta população que ainda não acessa a internet, especialmente em mercados emergentes”.

É uma ótima notícia, com um detalhe importante: a rodada de investimentos foi liderada pelo Google.

As duas empresas dizem que trabalharão juntas para criar versões do Google Assistente, Google Maps, YouTube e da busca do Google para a plataforma do KaiOS, que é baseada em padrões web abertos, ou seja, HTML, CSS e JavaScript.

Mesmo tendo o sistema de smartphones dominante, o Android, o Google segue comprometido em estender suas soluções para o maior número de pessoas — todas elas, se possível. O último dado, divulgado em maio de 2017, apontava 2 bilhões de dispositivos com Android em uso no mundo. Em paralelo, o Google tem iniciativas para alcançar as pessoas que ainda estão desconectadas. O Android Go, que viabiliza smartphones abaixo de US$ 100 e que chegou ao Brasil recentemente, é a principal delas.

Os apps do Google são populares e inegavelmente úteis. A KaiOS Technologies ganha mais que dinheiro com esse apoio. Torna a sua plataforma mais robusta, com aplicativos de apelo.

Fica apenas a preocupação com o grau de intromissão dessa parceria. Há uma diferença crucial entre “oferecer aos usuários” do KaiOS as soluções do Google, como diz o comunicado, e colocá-las como padrão, o que acontece no Android fora da China.

O KaiOS é muito popular em países como a Índia, onde o sistema é mais usado que o iOS da Apple. A KaiOS Technologies diz que mais de 40 milhões de celulares com seu sistema já foram vendidos; a consultoria Counterpoint sugere que 23 milhões desses aparelhos foram produzidos no primeiro trimestre de 2018.

Criado em 2017 a partir dos resquícios do Firefox OS, abandonado pela Fundação Mozilla, o KaiOS conta com parceiros como a Qualcomm, Alcatel, HMD Global (da marca Nokia) e Jio. A empresa apresentou um crescimento forte em seu primeiro ano de vida e tem potencial para ganhar uma fatia do bolo da telefonia móvel, há anos compartilhado apenas entre Apple e Google. Seria uma pena se, por qualquer motivo, como US$ 22 milhões, o KaiOS acabasse sitiado pelo Google e se transformasse em apenas uma alternativa ainda mais simples do Android, com os mesmos apps e interesses desse.

Foto do topo: KaiOS Technologies/Divulgação.

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