Light Phone 2 segurado na mão.

O Light Phone 2 é legal, mas você não precisa dele para fazer as pazes com o smartphone

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5/3/18, 14h57 5 min Comente

Uma das críticas mais frequentes às empresas de aplicativos e Apple e Google, donos dos dois principais sistemas operacionais de smartphones, é o design viciante dos seus produtos. Tudo, dos mecanismos de funcionamento às cores usadas, são calibrados para gerar o maior nível possível de engajamento — em outas palavras, para que não abandonemos jamais nossas telinhas. Uma startup do Brooklyn, em Nova York, há anos oferece uma alternativa radical a essa abordagem dominante na tecnologia móvel.

Em 2015, o Light Phone foi anunciado em um site de financiamento coletivo. Joe Hollier e Kaiwei Tang, os criadores do projeto, pediram US$ 200 mil para materializar o aparelho; receberam mais que o dobro, ou US$ 415 mil.

O Light Phone original não tinha sequer tela, apenas um teclado numérico iluminado. Ele pesava apenas 38,5 g e era bastante discreto. Com o tamanho aproximado de um cartão de crédito, era deliberadamente projetado para “ser usado o mínimo possível”. Ele funcionava com um chip pré-pago e podia receber ligações redirecionadas de outro smartphone, guardava até dez números na memória e mostrava as horas. E só. A bateria durava 20 dias.

Agora, a dupla da Light voltaram a uma plataforma de financiamento coletivo para lançar o Light Phone 2, uma versão revisitada, com algumas funções extras, mas que preserva a simplicidade do projeto original —  enquanto esse só fazia “uma coisa” (ligações), a nova versão faz “algumas coisas”.

De partida, o Light Phone 2 será capaz de fazer ligações, trocar mensagens SMS, armazenar contatos, programar alarmes e terá uma função de resposta automática para quando o usuário não estiver disponível. Caso “seja possível e faça sentido”, ele também ganhará direções por GPS, acesso a serviços de carona tipo Uber, um player de música, previsão do tempo, comandos de voz, calculadora e dicionário.

O que ele não terá? Nominalmente, os criadores do Light Phone listam notícias, anúncios, e-mail e redes sociais. A lista, porém, é bem maior e inclui jogos, câmera e boa parte dos apps que servem de base para outros smartphones populares.

O Light Phone 2 roda uma versão alterada do Android, que os desenvolvedores batizaram de LightOS. Ele é monocromático e totalmente baseado em texto. Pelos vídeos e imagens promocionais, parece algo bem resolvido e que casa com o visual minimalista do dispositivo. E isso não significa que seja algo defasado; o Light Phone 2 conversa com redes 4G, traz um conector USB-C e uma tela de e-ink, similar à usada no Kindle, da Amazon.

Light Phone 2 recebendo uma ligação.
Light Phone 2 recebendo uma ligação. Foto: Light/Divulgação.

As demais configurações incluem 1 GB de RAM, 8 GB de memória interna, sensor de proximidade, alto-falante, motor de vibração e acabamento em alumínio anodizado. Ele pesará 80 g e a sua bateria, de 500 mAh, garantirá até cinco dias longe da tomada, em stand by.

Um Light Phone seu

Quem comprar o Light Phone 2 na pré-venda, pagará o valor promocional de US$ 250. Quando chegar ao mercado, seu preço sugerido será de US$ 400.

O sucesso da campanha, que, faltando 21 dias para ser encerrada, já arrecadou 277% do valor pedido — US$ 692 mil —, sinaliza um forte interesse de parte dos consumidores por mais simplicidade.

A boa notícia é que, para desfrutar desse mítico smartphone que exige menos da gente, não é preciso desembolsar centenas de dólares em um novo aparelho nem esperar ele ser lançado — as primeiras unidades serão entregues em abril de 2019. É possível transformar qualquer smartphone em um “light phone”.

O cineasta Matt D’Avella, em seu canal no YouTube, dá um bom ponto de partida para essa “conversão” (vídeo em inglês):

O segredo está em encontrar nossos pontos fracos na relação com o smartphone e combatê-los.

Um bastante óbvio são os apps de redes sociais. Muito legais, eles criam fossos de procrastinação quando usados indiscriminadamente. D’Avella esconde o Instagram em uma pasta de difícil acesso. Outra saída é apagar o app e acessar a rede apenas pelo navegador, em um computador convencional. O mesmo vale para Facebook, Twitter, Pinterest e todos os demais apps com feeds com rolagem infinita.

As notificações são outro vilão. No New York Times, John Herrman as compara com ervas daninhas: sempre crescendo, sempre exigindo a nossa atenção para serem aparadas, ou removidas. Na maioria dos casos, os desenvolvedores abusam desse recurso, usando-o para chamar a nossa atenção a informações que não são nem urgentes, nem tão importantes que não possam esperar que cheguemos a elas ativamente. Assim, reduzir o volume de notificações é um bom caminho para perder menos tempo distraído por elas.

Gráfico comparando o Light Phone 2 ao original e a smartphones.
Foto: Light/Divulgação.

No gráfico em que contrapõe o Light Phone a smartphones comuns, os criadores do projeto dizem que esses “fazem muitas coisas”. Reduzir esse volume é uma boa, especialmente se você dispõe de outros equipamentos. Caso tenha um tablet, por exemplo, pode remover apps de leitura, como o do Kindle, sem muito prejuízo. O mesmo vale para joguinhos. Apps usados esporadicamente ou em um período limitado podem ser apagados passada a necessidade sem qualquer prejuízo.

O objetivo geral, ou o que baliza quem está disposto a encarar o smartphone de uma maneira mais assertiva, é usá-lo com propósito. Limitar as possibilidades que o sistema dele tem de chamar a nossa atenção ao essencial, pegá-lo no bolso ou na bolsa quando ele for necessário, e não para passar o tempo.

Caso prefira dar uma chance ao Light Phone, a campanha vai até dia 26 de março e eles entregam no mundo inteiro.

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