Meerkat e YouNow: tendência de vídeos ao vivo transmitidos via Internet

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23/3/15, 12h40 4 min 10 comentários

Quem está no Twitter ou acompanhou a cobertura da última edição do SXSW, em Austin, EUA, já deve ter pelo menos lido algo sobre o Meerkat. O app-sensação do evento permite a qualquer um fazer uma transmissão por vídeo, em tempo real, a partir do smartphone.

Em paralelo, o YouNow ganhou os holofotes já consagrado com um modelo de negócios baseado em doações e presentes dos “fãs” para os famosos anônimos que transmitem suas rotinas pelo serviço. Não há famosos de fora lá, do tipo que aparece na TV ou toca nas rádios, apenas gente comum que, ao abrir suas vidas para outras pessoas sem destaque na mídia, descobriram-se estrelas do streaming ao vivo.

YouNow e Meerkat fortalecem uma tendência em 2015, a do vídeo em tempo real em qualquer lugar e a qualquer momento. A tecnologia está finalmente pronta para isso: temos smartphones com boas câmeras e conexões móveis rápidas mais acessíveis, via 4G LTE. Talvez falte conteúdo, mas o sucesso dessas investidas meio que ignoram esse buraco, o que me intriga bastante.

Há muita gente no mundo e uma parte significativa dela, ou mínima para tornar essas coisas viáveis, está interessada em ver outras pessoas dormindo, ou mexendo no celular, ou fazendo absolutamente nada ou, ainda, falando amenidades de suas próprias vidas, como o monólogo sobre virgindade da moça abaixo.

Streaming de vídeo ao vivo no YouNow.

Depois dela, caí na transmissão de duas irmãs feita, aparentemente, de dentro de um banheiro, ou vestiário. Perguntei por que elas estavam falando com estranhos. “Porque estamos entediadas,” responderam. Entre muitos silêncios, elas pediam para quem os espectadores virassem “fãs”, respondiam algumas perguntas, faziam caretas… Uma hora pedi a elas para pronunciarem meu sobrenome e ri das tentativas frustradas das duas. Daí uma delas se levantou e começou a dançar Macarena, a outra incentivando “vamos lá, temos que chegar a 30 espectadores”, tudo ficou meio estranho e fechei a aba.

Nessa minha curta incursão pelo YouNow deparei-me só com vídeos pautados pelas perguntas bobas dos “fãs” à direita. Os shows são como se Seinfeld levasse a sério sua premissa de falar sobre nada, mas sem roteiro, nem piadas no meio. Apesar disso, ri da ~interação com as duas irmãs. Por mais bobo que pareça (e é), deu para ter um gostinho do porquê das pessoas se interessarem nisso. Parece ser algo relacionado à atenção dispensada por quem está no vídeo, à interação que rola… não sei ao certo.

Famosos quem?

Algum motivo existe, e eles levam à criação de bases consideráveis de “fãs.” Os “hubs” que se formam em torno de serviços e pessoas estão em todos os lugares, são de todos os tamanhos, existem numa profusão proporcional às dimensões intangíveis da Internet.

Quando o Twitter surgiu, por exemplo, era uma panelinha; hoje, uma olhada nos trending topics revela perfis famosíssimos dos quais nunca ouvi falar. No YouTube há incontáveis vloggers com legiões de fãs. Mesmo redes menores, como o Vine, têm suas estrelas internas, que brilham muito dentro daquele ecossistema — inclusive aqui, no Brasil. São os “famosos quem?” Se antes o potencial para artes cênicas ficava restrito ao canto no chuveiro, ou às performances em família, hoje qualquer um que tenha o dom pode se lançar numa plataforma de alcance global e custo zero.

O que nos traz de volta aos vídeos ao vivo. Antes de Meerkat e YouNow, houve tentativas de emplacar vídeo em tempo real. Justin.TV, Chatroulette… Foram sensação quando lançados, mas depois, seja pelo excesso de pênis na tela ou qualquer outro motivo, caíram no esquecimento. O que há de diferente agora, fora a tecnologia mais avançada e barata?

Eu tenho uma teoria que complementa o avanço técnico. Acho que antigamente o “povo da Internet,” quem estava online nos primórdios, era meio avesso a vídeo, mais tímido, e entrava nessas coisas apenas pela curiosidade, ou seja, era um movimento efêmero. Hoje a diversidade de quem está online é tão grande quanto a da humanidade, ou seja, a porção humana dos fatores de viabilidade também está presente, tal qual a tecnológica que possibilita esses novos apps/serviços.

E, pensando bem, vídeos do cotidiano transmitidos ao vivo parecem ser a evolução dos vlogs publicados no YouTube — mais imediatos, mais intimistas. É um movimento quase análogo ao que ocorreu dos blogs para o Twitter e Facebook.

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  • Juan Lourenço

    É uma facilitaçao do que outras ferramentas já faziam, como hangouts públicos, e olha, tem chance de ir longe mesmo viu, o que não falta é gente querendo aparecer (já que na cabeça da geração mais nova, ser famoso é o maior sinônimo de prosperidade, a qualquer custo, angariar fãs, likes, assinantes, o que for).

  • Witaro

    Acho que ainda buscamos saciar nossa vontade pela “grande-Verdade-metafísica” que também serve de consolação cotidiana. Com o tempo ela vem se diluindo junto ao nosso desencantamento geral, ainda que nossa psiquê se encante com mistérios… O que sobrou? Para onde escoou o mistério do mundo? A resposta talvez esteja nos quartos, nos cantos, no ralo, no escurinho, dentro da mochila… A intimidade do outro! Ou seja, naquilo que o outro faz em particular estaria uma “verdade” que preciso ter acesso… Será que encontrarei a paz com a validação de minhas dúvidas existenciais me identificando com aquele segredinho ou hábito sujo? Ou a chance de projetar meus demônios e gozar julgamentos? Queremos folga do peso que é ser responsável por si mesmo e do vazio existencial que nos faz famintos de sentidos…

    • Vagner “Ligeiro” Abreu

      E nisso fica a questão: qual seria a relevância destes mistérios escondidos em vídeos de jovens querendo (e gerando) audiência?

      É possível que as vezes nos surpreendemos, e durante um vídeo no cantinho escuro, alguém se revele com ideias que nos avassalarão. Talvez esperamos de um jovem assim que venha a sabedoria que esperamos também.

      Ou fiquemos frustrados, e aí como colocado, julgamos o que vemos e nos sentimos aliviados de não ser “Nós” que se expôs e se humilhou apenas por querer um pouco de atenção e tato social, esta que tem se tornado algo meio escasso fora das conexões da internet.

  • Rodrigo Garcia

    Fiquei pensando aqui na possibilidade de transmissão de jogos(futebol por exemplo que não tem transmissão da tv só rádio) que uma pessoa com um celular conectado ao um wifi pode transmitir o jogo(claro que não seria nada de outro mundo). ou mesmo de uma pessoa que está longe e tem uma festa e com celular fica assistindo.

    • Isso já é bem comum em sites como Justin.TV e similares. Galera transmite esportes, TV aberta, canais fechados, eventos… Apps como Meerkat facilitam ainda mais esse caso de uso, mas acho que não será o forte. Primeiro porque os donos do app estão de olho nesse comportamento (e em conteúdo adulto), e segundo porque o apelo é menor que a do conteúdo original — afinal, essa programação de TV você já tem… na TV.

      • Eloy Machado

        Não necessariamente, Rodrigo. Essa tecnologia abre espaço pra alguém no campo do Fim-de-mundo Futebol clube transmita o jogo pra galera do bairro ou algo assim. Algo pequeno demais para estar na TV.

  • Vader

    4cam.

  • Rafael Machado de Souza

    Quinze minutos de fama / Depois descanse em paz

  • Luis Henrique

    Confesso que gostava do ChatRoulette, mas a inundação de pênis e robôs de propaganda me incomodava. Cheguei a conversar com pessoas interessantes, usando meu inglês bem fajuto da época.

  • João Gabriel Burmann

    Esse texto no Medium, escrito por um ex assessor do Obama, tenta discutir alguns possíveis impactos do Meerkat nas eleições estadunidenses, que ocorrerão ano que vem: https://medium.com/backchannel/how-meerkat-is-going-to-change-the-2016-election-for-every-campaign-reporter-and-voter-1daa8954e543

    Eu achei os pontos levantados por ele muito pertinentes. Ainda que se possa discutir o porque de tanta banalidade nessas novas redes sociais, acredito que o seu destaque seja em colocar em dúvida algumas práticas de jornalismo e de produção de conteúdo, realizado pelos grandes canais de comunicação.