Prints da MeWe e da Vero em smartphones.

MeWe e Vero, as (não tão) novas redes sociais anti-Facebook

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28/2/18, 12h15 7 min Comente

O Facebook é a maior rede social do mundo. Nunca tanta gente esteve conectada, debatendo pontos importantes, fechando negócios, rindo de memes e arruinando democracias. Esse sucesso se deve, em parte, a práticas questionáveis no que toca à privacidade, algoritmos opacos e mudanças frequentes nas regras do jogo. Não à toa, muita gente está insatisfeita com o Facebook.

Essa insatisfação não é nova, tampouco as possíveis alternativas. Teve a primeira, o Diaspora; mais recentemente, vimos o surgimento da Ello (lembra?). Agora, outras duas redes sociais começaram a chamar a atenção. Os entusiastas delas dizem que cada uma é a alternativa real e total ao Facebook, do funcionamento do feed ao modelo de negócio. Será?

Vero e MeWe têm diferenças marcantes, mas se assemelham bastante no discurso. Elas querem ser o anti-Facebook, o lugar aonde as pessoas vão para ter uma experiência melhor, ou diferente, da que a rede de Mark Zuckerberg entrega. E estão ganhando muitos usuários, rapidamente.

Gráfico de pesquisa do Google Trends.
Buscas por “mewe” e “vero” feitas no Google, por brasileiros, nos últimos 90 dias. Imagem: Google/Reprodução.

“Milhares de brasileiros entraram na MeWe recentemente e eu sei o motivo”, disse, em entrevista por e-mail, Mark Weinstein, fundador e CEO da MeWe. Segundo ele, é porque os brasileiros são grandes usuários de redes sociais e “estão furiosos [com o Facebook] e preparados para um recomeço na MeWe, porque somos uma empresa honrada”.

A MeWe funciona no modelo freemium, ou seja, é gratuita, mas cobra alguns recursos extras, como mais espaço para armazenar arquivos, criptografia de ponta a ponta e emojis especiais, e de empresas, através do MeWePRO.

Segundo Weinstein, o modelo de negócio da rede “é como o capitalismo foi projetado para funcionar — tratar seus membros como as pessoas mais importantes, dar a eles um ótimo serviço, escutá-las e oferecer coisas extras que tornem a experiência deles ainda melhor”. E, claro, ele cutuca o Facebook dizendo que seus usuários são os clientes, e não produtos a serem vendidos.

A privacidade é um elemento forte na MeWe, algo que atraiu a atenção de Tim Berners-Lee, o britânico que criou a Web no início dos anos 1990. Eles têm até uma “declaração dos direitos de privacidade”, que, além de garantir que os dados são do usuário, vai além e promete que jamais veiculará anúncios segmentados (“para nós, isso é assustador”) nem posts fora da ordem cronológica. E um vídeo, com um gesto de tapar os olhos que não deve ficar muito legal nas selfies que compartilhamos em redes sociais:

Privacidade como prioridade

Essas duas características, privacidade e feed em ordem cronológica, também dão o tom da Vero, a outra rede social que, nos últimos dias, tomou outras redes sociais como alternativa ao Facebook.

A Vero parece estar na dianteira dessa corrida de redes alternativas. Nos Estados Unidos, o aplicativo se tornou o mais baixado no ranking dos gratuitos da App Store, da Apple; no Google Trends, que analisa a popularidade de termos na busca do Google, ainda está em ascensão nas pesquisas feitas no Brasil; e nas outras redes, sobram reclamações de instabilidades e problemas para se cadastrar.

Já a MeWe teve um pico no Brasil há alguns dias e, depois dele, estabilizou para baixo. Esse pico foi curioso, pois parece ter sido motivado por um grupo de conservadores radicais:

Weinstein pareceu surpreso com a ideia de que a MeWe seria uma “rede social conservadora”. Ele garantiu que não é o caso, que a MeWe não tem partidarismo. Aproveitou, ainda, para atacar Mark Zuckerberg, dizendo que o Facebook “censura pessoas baseado em filosofia política, ou na opinião de alguns executivos do Facebook sobre o que é certo ou errado”. Na MeWe, prosseguiu, “os termos de serviço [dizem que] queremos pessoas do bem, de todos os lugares, entrando na MeWe sem que tenham que se preocupar em serem censuradas por suas opiniões”. Parece algo que já ouvimos antes.

A MeWe tem um design mais genérico, a julgar pelas imagens de divulgação. Na Vero, o visual parece mais caprichado e diferente de outras redes sociais. Um negócio legal nela é que cada usuário pode criar três “personas”: uma para amigos próximos, outra para amigos e uma terceira para conhecidos, com posts e até avatares específicos para cada um.

A Vero também tem uma declaração de privacidade, ou um “manifesto”, e lá consta, explicitamente, a ideia de que “nossos usuários são nossos clientes, não o produto que vendemos a anunciantes”. Digamos que é o feijão com arroz das redes que não querem ser o Facebook.

No caso da Vero, o modelo de negócio é baseado em assinaturas. Após o primeiro ano de uso gratuito, a rede cobrará uma pequena taxa anual dos usuários. A princípio, o primeiro milhão deles garantiriam uma cortesia vitalícia; agora, a capa do site diz que o benefício foi estendido “até segunda ordem”. Como isso funcionará se todos tiverem cortesia, é um mistério.

Esse modelo, de assinatura anual, é o mesmo que o WhatsApp adotava antes de ser adquirido pelo Facebook. Não funcionou lá, aparentemente.

As outras frentes de faturamento da Vero são doações e comissões de vendedores que fizerem negócio pela plataforma, que oferece um botão “Comprar Agora”.

Uma diferença marcante da Vero é que ela só funciona em smartphones, sem versão web/para computadores. A MeWe, além dos apps para Android e iOS, tem uma versão web.

Novas velhas redes

Ambas as redes não são exatamente novas. A MeWe foi lançada em 2016, no festival SXSW, em Austin, nos Estados Unidos, após um período de testes de três anos e meio (!) com 10 mil beta testers.

A Vero foi lançada em 2015 por Ayman Hariri, que também é CEO da startup. Ele é filho do ex-primeiro ministro do Líbano Rafik Hariri, assassinado em 2005, na capital do Líbano, Beirute, em um atentado suicida com um homem-bomba. Contra Ayman, constam acusações de não ter honrado dívidas trabalhistas de milhares de funcionários da Oger, sua antiga empresa de construção civil na Arábia Saudita.

ninguém sabe de onde ou como essas redes ressurgiram tanto tempo depois de lançadas e viralizaram, embora o destino delas, a menos que algo inédito aconteça, seja mais fácil de adivinhar — um possível ostracismo.

Weinstein foi enfático ao ser questionado sobre como a MeWe se distanciará do que aconteceu com outras alternativas ao Facebook, como o Diaspora (“muita confusão interna e o suicídio de um dos fundadores”) e a Ello (“em muitos sentidos, [foi] uma fraude”). Ele diz que a MeWe foi criada com uma “abordagem Apple”, que, para ele, significa lançar um produto apenas quando ele está perfeito e pronto para o mercado.

As promessas de ambas, MeWe e Vero, são exatamente o que um pequeno grupo bastante ruidoso sente falta e reclama das redes sociais do Facebook. Estão ali o respeito à privacidade, os feeds em ordem cronológica, o modelo de negócio baseado em pagamentos dos próprios usuários. A questão é saber se esses anseios são compartilhados por uma parcela significativa dos mais de dois bilhões de usuários que o Facebook tem, pelo menos o suficiente para sustentarem esses negócios.

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