Moça na rua com headphones.

O som da concentração: Músicas e barulhos podem torná-lo mais produtivo?

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29/4/14, 8h50 7 min 19 comentários

Em fábricas e escritórios não é exatamente raro nos depararmos com trabalhadores que, além do uniforme e acessórios necessários para o desempenho de suas funções, contam com um adereço extra: fones de ouvido. A música, companheira de festas, romances, do dia a dia, também se faz presente no ambiente de trabalho. Mas até que ponto ela é útil, e quando começa a atrapalhar?

Na Quartz, Adam Pasick escreveu um texto intitulado “O guia completo para ouvir música no trabalho”. Amparado por estudos científicos, em especial este de 1972, as conclusões a que ele chegou variam de acordo com a função desempenhada. Músicas agitadas, por exemplo, podem dar um impulso em produtividade àqueles que cumprem jornadas mais mecânicas, realizando tarefas repetitivas que, embora demandem foco, não pedem muito da nossa capacidade cognitiva.

Já em atividades contrárias, ou seja, aquelas que exigem mais cérebro do que músculos, músicas agitadas ou com letras atrapalham. Ao ouvir uma música, qualquer que seja, ela demanda parte da cota finita de atenção de que nosso cérebro dispõe:

“Não se engane: ouvir música significa que você está em modo multitarefa. Quaisquer recursos cognitivos usados pelo seu cérebro — para entender uma letra, processar emoções desencadeadas por uma música ou lembrar onde você estava quando a ouviu pela primeira vez — ficarão indisponíveis para ajudá-lo no trabalho.”

A melhor música para trabalhos cognitivos

Últimos álbuns que ouvi, via Last.fm.
Colagem via Last.fm Collage Generator.

Para alguns, como eu, o ideal é deixar todo o cérebro a postos para o que estiver fazendo. Dou o meu melhor no silêncio, e isso vale para além das músicas — os sons ambiente também devem ser preferencialmente mínimos. O mesmo se aplica a leituras, e quanto mais complexo o assunto, mais o silêncio é bem-vindo.

Infelizmente, nem sempre o silêncio proporciona a animação para uma tarefa que exija muito da minha capacidade cognitiva. É aí que entram as sugestões da Quartz: atentando a alguns detalhes, é possível obter os benefícios musicais dos trabalhadores “braçais” em atividades mais… digamos… paradas.

Na hora de montar sua playlist para essa finalidade, as principais dicas são:

  • Ouça apenas músicas instrumentais. O cérebro tem áreas dedicadas para várias funções e, na hora de escrever ou pensar em palavras (ler, inclusive), o ideal é concentrar todos os recursos que temos para esse fim na atividade em curso. Músicas com letras, nesse contexto, apenas atrapalham. Exceção à regra: letras em idiomas que você não conhece são permitidas.
  • Prefira músicas que tenham um ritmo bem marcado e constante. Nosso cérebro está sempre tentando adivinhar o que vem a seguir. Ao ouvir uma música muito elaborada, com mudanças brutas, picos intervalados e arranjos diversos, parte da nossa concentração, ainda que inconscientemente, se dedica à tentativa de “decifrá-la”.

Os melhores gêneros, segundo aquele post, são jazz, música clássica, e minimalista. Trilhas sonoras de filmes e jogos também são, em geral, recomendadas. Ao final, há uma playlist com indicações do autor. Se quiser arriscar, ela está no Rdio e Spotify.

Sai a música, entram os barulhos. Mudam os resultados?

GIF de um ventilador de teto.
GIF: Ventilador Online.

Minha qualidade de vida melhorou significativamente quando descobri o ruído branco. No contexto em que o abordo aqui, refiro-me a barulhos do ambiente capazes de anular outros indesejados.

Na física, engenharia e matemática o termo tem significado diverso, mais complexo, como muitos comentaristas apontam nesta matéria da Scientific American. O uso dele, aqui, diverge do científico, mas para fins didáticos se aplica. Pense, pois, no barulho da TV fora do ar, ou no que o ventilador faz quando ler “ruído branco” nesta matéria.

Por ter o sono leve, barulhos externos, como vizinhos conversando, música no bar da esquina e outros atrapalham meu sono. Ao ligar o ventilador contra a parede, o barulho das pás se sobrepõe aos demais e sua constância rapidamente é assimilada pelos meus ouvidos. Resultado: uma noite bem dormida.

O mesmo benefício se aplica ao trabalho? Aqui o terreno se torna mais acidentado. Existem estudos que suportam os dois lados, mas analisando-os melhor, como fez o pessoal deste tópico no StackExchange, as conclusões mais uma vez variam. Resumindo:

“O ruído branco melhora o desempenho na medida em que mascara ruídos que geram agitação ou que tiram o foco da tarefa em curso sem causar agitação por si mesmo. Falando de forma prática, se você estiver em um ambiente silencioso, o ruído branco provavelmente não terá um efeito positivo na sua concentração. Se estiver em um lugar mais ou menos ruidoso, ele provavelmente terá um efeito positivo. Entretanto, em um ambiente muito barulhento ele não terá efeito algum ou, se sim, um negativo.”

(A resposta mais votada do tópico mencionado acima traz diversas referências científicas embasando a conclusão do autor.)

Novamente me usando de exemplo, comigo o ruído branco para produção nunca funcionou bem. O silêncio é preferível e, quando tenho tarefas menos cognitivas, como lançar gastos no controle financeiro ou lavar a louça, geralmente coloco uma música qualquer para tocar.

Fachada de uma Starbucks em Londres.
Foto: Style Raw/Flickr.

O que eu testei e, em certa medida, gostei, foi de “simuladores” de sons ambiente. O Coffitivity é um app/site que reproduz o burburinho típico de locais como cafeterias e bibliotecas de universidade. Os criadores defendem a ideia com um estudo científico recente que diz provar que esses ruídos, dentro de níveis aceitáveis, dão um impulso na concentração. A parte do “dentro de níveis aceitáveis” tem um papel importante aí — em torno de 70 decibéis.

Ok, já sabemos que barulheira não ajuda, mas por que o outro extremo, o silêncio, é ruim? Em entrevista ao New York Times, o professor assistente Ravi Mehta, da Universidade de Illinois, que liderou o estudo que embasa o Coffitivity, explica que o silêncio absoluto leva a níveis altos de concentração, e que isso atrapalha o pensamento abstrato:

“É por isso que quando você está muito focado em um problema e não consegue resolvê-lo, deixa-o de lado por algum tempo e, quando volta, encontra a solução. [O ruído moderado] ajuda a pensar fora da caixa.”

Ele também faz uma ressalva: o barulhinho de fundo ajuda principalmente em tarefas criativas. Outras que demandam concentração absoluta, como a revisão de textos ou trabalhos envolvendo números, são melhores executadas no silêncio.

O que for melhor para você

São muitas variáveis a serem consideradas na hora de escolher a companhia auditiva para o trabalho: o tipo de função desempenhada, algumas predisposições pessoais, o humor do momento. Talvez fosse o caso de experimentar e ver o que te faz melhor, mas é difícil mensurar os resultados objetivamente. Neste paper de 1989, por exemplo, foi constatado que às vezes a gente se engana e aprecia a música no trabalho mesmo quando ela diminui a produtividade.

Uma mistura, em consonância com a variação de humor e natureza do trabalho, aponta para uma boa saída. Identificar os momentos onde um tipo de música ou barulho afeta positivamente nosso ânimo é o tipo de conhecimento que, mesmo sem perceber, pode acabar nos ajudando a trabalhar melhor. O problema é que, mesmo querendo, é bem difícil perceber quando e que tipo de som nos é benéfico. Argumentos pró e contra todo tipo de música existem aos montes (vários aí em cima, inclusive).

Como você usa a música, ou não, para fazer seu trabalho melhor?

Foto do topo: kev-shine/Flickr.

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  • Ouço muita música no trabalho. Atuo como desenvolvedor de software e o estilo que mais me identifico é o Trance. O ritmo calmo e suave, seguido por batidas rítmicas é perfeito para relaxar e agitar quando necessário.

    Para que curte Trance, recomendo o programa A State of Trance do DJ Armin van Buuren. Disponível via Spotify ou SoundCloud.

    PS: O link publicado para a playlist do Spotify não abre aqui. =/

  • A Musica ajuda bastante na concentração quando estou codificando, principalmente porque acho que tenho um DDA leve.

    Como falado no artigo, músicas instrumentais são ideais (apesar de ter vários colegas que programam ouvindo Metal). Gosto muito das trilhas feitas pelo Hans Zimmer (Inception, The Dark Knight, Rush). Tenho uma playlist no Rdio com discos selecionados http://rd.io/x/QUbjMDMHz1Y/

  • Vagner “Ligeiro” Abreu

    Sou também de escutar música eletrônica (citaram aí o State Of Trance, que curto, mas não escuto tanto), mas voltado para o house music. :)

    Mas do jeito que estou hoje, tou é precisando botar uma “Cavalgada das Valquirias” e um teclado no formato de pistola…

  • Luciano Silveira

    Vale a pena ler sobre o “Hemi-Sync”. As músicas feitas com esse “conceito” são excepcionais para elevar o estado de concentração.

  • Higor

    Eu escutava bastante música no trabalho. Ele me ajudava bem, pois era muito gente falando e as vezes, inconscientemente, eu me via prestando atenção na conversa e o trabalho parado

  • Eu ouço música em 80% do meu tempo no escritório, mais pois trabalho com mais 13 pessoas dentro da mesma sala, ou seja, é impossível ter silêncio absoluto. Mas quando tenho tarefas que exigem muito, como escrever um longo texto ou fazer um relatório, só utilizo instrumental. E música nacional, nem pensar. Embola toda a minha mente. ;)

  • Assolini

    Eu ouço muita coisa, desde podcasts, radio ao vivo, música eletrônica (especialmente trance), música clássica – tudo depende da tarefa.

    Um experimento legal é o Get Work Done Music, pra quem gosta de música eletrônica, você escolhe o playlist de acordo com a velocidade/tarefa a ser realizada: http://www.getworkdonemusic.com

    • Luis Eduardo

      Vlw!!!

  • Tem muitas variáveis ai.

    Gosto de trabalhar com Norah Jones e Diana Krall no começo da manhã e (final de noite mas pra coisas não relacionadas ao trabalho ). Após o almoço prefiro músicas mais agitadas… Elas me cortam o sono e isso ajuda.

    E tem momentos que preciso de silêncio.

    Barulhos: tem uma linha tênue. Sou chato com alguns barulhos…surto com ruídos repetitivos… Mas aceito outros. Já fiz o budget inteiro sentado no Starbucks e o tempo passou muito rápido.

    No fundo, é um assunto polêmico… Parece que nunca existe conclusão…

  • Luis Cesar

    Quando solteiro, sempre dormir bem sem o ventilador quando não era necessário (diga-se inverno). Mas depois que casei, acabei cedendo à mania da minha esposa de dormir com o ventilador ligado em qualquer situação. Hoje a ausência dele me incomoda, mesmo se o ambiente de sono for bem silencioso. Ele anula sim, os ruídos indesejáveis. Mas quando o próprio (ventilador) começa a fazer rangidos inexplicáveis, diferentes dos produzidos pelo seu funcionamento normal durante à noite, por mínimos que sejam, eu acordo…e puto.

  • André Catapan

    Meu trabalho envolve dedicação exclusiva de minhas habilidades cognitivas: preciso ler, traduzir, interpretar e escrever artigos científicos. Recentemente fiz uma experiência e percebi rapidamente que minha produtividade diminuía com música ambiente, enquanto que no total silêncio era uma maravilha.
    O problema ocorreu quando esse silêncio era quebrado por ruídos externos incontroláveis, como crianças gritando ou barulho de obras… aí não tem como, até ouvindo um Pig Metal sou mais produtivo.
    Muito bom essa artigo, parabéns!

  • Lucas Zanganelli

    Tenho um pouco de DDA então praticamente qualquer coisa me distra, mas nada me distrai mais que o silêncio então sempre tenho que estar escutando algo pra estudar, principalmente se estou em lugares com muita gente já que conversas me distraem.

  • Bruno

    Eventualmente escuto música no computador quanto estou na internet. Gosto do http://8tracks.com/. Tem app para iPhone e também para iPad. Às vezes quando estou fazendo algumas coisas aqui no apto, aproveito para escutar por este app. O legal é que conforme o estilo de música que se ouve já se conhece bandas novas também.

    Mas pra estudar ou trabalhar não gosto de barulho.

    E às vezes, quando tenho algumas tardes lives, gosto do http://www.rainymood.com/. Pego no sono rapidinho! Esse aí acho que tu conhece Rodrigo, não? Se não estou enganado, tu já tinha dado a dica deste site lá no WinAjuda… Procede? Também tem app para iPhone/iPad, mas nesse caso tem que comprar.

    Abraço.

    • Sim! O Rainy Mood é velho conhecido mesmo. Adoro ele para dormir, principalmente em viagens e quando tem mais gente dormindo (ou não) no mesmo ambiente — em hostel, é uma maravilha.

      Abraço!

  • Parabéns, Ghedin, fui completamente surpreendido com esse texto seu.

    Estava esperando uma coisa muito mais pessoal e você veio com ótimas pesquisas e argumentos interessantes sem deixar de lado suas experiencias.

    Você tem evoluindo muito em seus textos e rapidamente, esse projeto do Manual escrito está dando muito certo.

    Continue assim.

  • Luis Eduardo

    Só consigo estudar com Kitaro. Sei que é musica pra “bovino sair do estado de vigília”, mas ele “limpa” a estrada, me deixa livre pra transformar a informação em memória de longo prazo. Pra dormir, ruído cinza (ar condicionado só na ventilação, no inverno). Minha mulher chia. Com razão.

  • Pedro

    Ghedin, como você se concentra no que está fazendo?
    Como dá conta de ler tanta coisa e indicar e opinar com qualidade?
    É um app específico? Uma extensão do Chrome? Um filtro modificado geneticamente?

    E o mais importante. Quando sai o “Eu, Ghedin – Faça Você Mesmo” ?

    • Hahahaha! Ando um bocado cansado e acho que é reflexo dessa rotina, mas o que eu faço para pelo menos tentar acompanhar tudo é priorizar. Nos sites de notícia, por exemplo, leio tudo meio por cima e o que me chama a atenção ou é recomendado por gente em quem confio, guardo no Pocket e leio posteriormente. O Techmeme e uma lista de perfis de tecnologia no Twitter (aqui, caso queira) também ajudam a ter uma visão panorâmica do que importa no momento.

      Na hora de expressar alguma opinião, principalmente no Manual, procuro embasamento, pontos contrários, promovo uma guerra de argumentos na minha cabeça. Quase sempre essa guerra traz mais questionamentos do que respostas, mas é bom para organizar as ideias e escrever coisas ponderadas. Na hora de escrever, prefiro o silêncio absoluto e fecho todas as redes sociais, silencio o smartphone, desligo a TV… concentração total.

      Os apps que mais me ajudam a dar cabo disso tudo são o Pocket, Newsify (ou Press, se estiver no Android) e Simplenote.

      Quanto ao “Eu, Ghedin”, um dia, quem sabe…? :-)