Letreiro da Nokia em estande no Mobile World Congress 2017.

Com Android e foco no consumidor, smartphones Nokia voltam a chamar a atenção

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26/2/18, 15h33 6 min Comente

A história da Nokia nos smartphones compreendeu três atos. Começou muito bem, com ela fazendo a transição a partir dos feature phones e liderando o mercado incipiente durante os anos 2000. A partir de 2007, duas empresas improváveis, Apple e Google, despontaram do nada e viraram o segmento do avesso, o que deixou os antigos líderes perdidos e, por fim, ultrapassados. O melancólico desfecho da tragédia finlandesa teve início em 2013, quando sua divisão de telefonia móvel foi vendida à Microsoft e os smartphones, rebatizados de “Lumia”. Dois anos mais tarde, a produção de celulares dentro da Microsoft morreu, junto com o próprio Windows Phone.

De maneira similar à que Hollywood encontrou para ampliar franquias cinematográficas originalmente pensadas para três filmes, a história da Nokia nos smartphones ganhou um inesperado novo capítulo no final de 2016. Fundada por ex-funcionários da Nokia, a HMD Global adquiriu os direitos da centenária marca para smartphones e feature phones, firmou uma parceria com a fabricante chinesa Foxconn e fez o que praticamente todo mundo esperava desde o final da década passada: colocar Android dentro de um smartphone Nokia.

A estratégia, simples e direta, está dando certo. Em 2017, a HMD Global vendeu 9 milhões de smartphones Nokia, segundo a consultoria IHS. Detalhe: em praticamente dois trimestres, já que as vendas começaram no final do segundo. Anualizado, esse número indica que a HMD Global/Nokia vendeu mais que outras marcas tradicionais, como Asus, HTC, Lenovo e Sony.

Mesmo nos feature phones, celulares mais simples sem a farta oferta de aplicativos do Android e iOS, a HMD Global conseguiu fazer barulho. De acordo com outra consultoria, a Counterpoint, somente no quarto trimestre de 2017 a empresa vendeu 20,7 milhões desses aparelhos. O grande destaque? A releitura do Nokia 3310, o com fama de indestrutível. Ela roubou a cena no Mobile World Congress (MWC) do ano passado, ganhou versão 4G e se tornou objeto de desejo mesmo de quem já tem smartphone e nenhuma justificativa racional para ter um segundo celular, e um tão simples.

A grande sacada da HMD Global foi dar ao público o que o público quer. Seus smartphones rodam um Android limpo e elegante, sem as modificações questionáveis que outros players fazem. Mais que isso, a HMD Global parece disposta a ter uma característica muito interessante do iPhone e sem paralelo no universo Android: atualizações de software garantidas e entregues rapidamente.

Foto de divulgação do Nokia 8 Sirocco, primeiro topo de linha da HMD Global.
Foto: HMD Global/Divulgação.

Prova disso é a linha 2018 dos smartphones Nokia. Ela está completamente alinhada às iniciativas do Google para amenizar a fragmentação da base Android. No MWC deste ano, foram anunciados quatro modelos:

  • Nokia 6 (2018), Nokia 7 Plus e Nokia 8 Sirocco. Os três são membros e estrelas do programa Android One, uma colaboração entre Google e fabricantes que deixa a cargo da dona do Android aspectos fundamentais da experiência do usuário: interface, recursos dependentes de inteligência artificial, camadas de segurança e todo o processo de atualização. O Nokia 8 Sirocco (acima) é o primeiro topo de linha legítimo da HMD, com preço sugerido de € 749.
  • Nokia 1. O modelo de entrada, com preço sugerido de US$ 85, vem com o Android Go, a configuração do Android para dispositivos mais simples destinados a mercados emergentes. Bônus: ele resgata o sistema de capinhas traseiras coloridas e substituíveis, um dos poucos acertos da era Windows Phone da velha Nokia.

O trabalho da HMD Global faz uma mescla equilibrada entre modernidade — como a adoção dos programas Android One e Go e componentes de prateleira atualizados — e velhos sucessos da Nokia. As lentes Zeiss, que ajudavam a destacar as câmeras dos smartphones Nokia pré-iPhone, como o Nokia N95, estão de volta. A robustez e durabilidade dos aparelhos, uma fama tão enraizada que por vezes transcende a realidade, também.

Nesse sentido, porém, nada supera as releituras dos feature phones bem sucedidos de duas décadas atrás. Aconteceu com o Nokia 3310 em 2017, está acontecendo de novo, em 2018, com o Nokia 8110, aparelho que, em sua primeira encarnação, virou objeto de desejo após aparecer no filme Matrix, dos (então) irmãos Wachowski.

O novo Nokia 8110 tem uma péssima câmera de 2 megapixels, roda o KaiOS, uma variação do abandonado Firefox OS com suporte limitado a uns poucos apps feitos em HTML5, e tem um teclado numérico físico que, dizem os que já experimentaram, é apertado e um pesadelo em usabilidade perto das telas sensíveis a toques. Nada disso importa muito perto da publicidade que o fator nostalgia está gerando. De maneira mais tímida, a HMD Global tem sérias chances de, pelo segundo ano consecutivo, roubar a cena no maior evento de tecnologia móvel do planeta com uma tecnologia de 20 anos atrás.

Fotos de divulgação dos dois Nokia 8110.
À esquerda, o Nokia 8110 de 1999; à direita, o recém-anunciado no Mobile World Congress.

Ao testemunhar esse retorno triunfal da marca Nokia em smartphones, é impossível não pensar no que teria acontecido se Stephen Elop não tivesse assumido o comando da Nokia, se aquele infeliz manifesto da plataforma em chamas não tivesse sido escrito e, em última instância, se a velha Nokia não tivesse sido tão fiel ao casamento arranjado com o Windows Phone a ponto de nem cogitar uma escapadinha com o Android. Hoje, talvez, a Nokia fosse protagonista do segmento ao lado da Apple e da Samsung — ou mesmo ocupasse o lugar da Samsung.

Não temos máquina do tempo nem acesso a universos alternativos para saber o que teria acontecido, então o que nos resta é olhar para frente. Com o mercado de smartphones em retração, Apple e Samsung consolidadas no topo e as chinesas cheias de dinheiro e ávidas por ganhar mercados além do doméstico, é muito difícil que a HMD Global consiga recuperar a hegemonia da velha Nokia. Mas esse retorno triunfal da Nokia em smartphones mostra que a marca ainda tem tamanha força que não é preciso muito para ganhar — ou recuperar — os velhos fãs.

Em janeiro de 2017, quando a HMD lançou o Nokia 6 na China, seu primeiro smartphone, escrevi aqui:

A marca é um diferencial válido. Fazendo tudo corretamente, ela pode ser o fio condutor para que o negócio floresça. É muito mais fácil partir de uma base, qualquer que seja, do que do zero. Se essa base tiver um legado positivo, facilita muito aquele trabalho de convencimento, o argumento de venda. E não é maluquice, mesmo tanto tempo depois do auge da Nokia, acreditar que esse nome por si só ainda consiga converter vendas. Maluquice seria pensar que não.

Dito e feito.

Foto do topo: Kārlis Dambrāns/Flickr.

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