Iguais, mas ao mesmo tempo diferentes.

Os vários Pixi 3: mesmo nome, smartphones diferentes

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16/3/16, 15h55 9 min 6 comentários

Observe bem os dois smartphones da foto acima. Eles são da mesma empresa, têm design idêntico, adotam até o mesmo nome. Mas eles são diferentes. Ambos são do segmento low-end, ou seja, smartphones baratos, com desempenho no limite do tolerável e outras características minimamente funcionais. Mas, um, o da direita, é melhor que o outro. Como e, mais importante, por que isso acontece?

Por que isso acontece?

Eu não sei dizer com certeza por que as fabricantes batizam com o mesmo nome produtos distintos, mas tenho algumas suspeitas. Duas, para ser exato.

Primeiro, por marketing. Grudar um nome na cabeça do consumidor é mais fácil do que dois. Em diferentes níveis esse fenômeno se manifesta. Num mais brando, o fato de que (quase) todo smartphone da Samsung tenha “Galaxy” no nome.

O outro é por logística — custo operacional e de componentes. Criar um produto derivado de outro já em produção é mais barato do que um do zero. Componentes, linhas de produção e muito trabalho em software é reaproveitado, resultando em novos produtos que, por motivos diversos, podem se sair melhor, comercialmente, do aqueles de que se originaram.

Há, ainda, aspectos subjetivos, mais fáceis de entender, mas não por isso menos importantes. Um muito claro observado no Brasil é a oferta de variantes de smartphones dual SIM, ou seja, com espaço para dois chips. Nos Estados Unidos, por exemplo, isso não existe. O mercado lá não tem interesse nesse tipo de solução que, por aqui, emergiu graças à dinâmica das operadoras móveis — “efeito clube”, com preços diferenciados para quem se comunica com outros clientes de uma mesma.

Tudo isso se desdobra em dois tipos de alterações internas: as pequenas e pouco alardeadas, e as grandes, destacadas e que, na prática, afetam a experiência do usuário.

Pequenas diferenças

Galaxy S7 e S7 edge desmontados.
Foto: Samsung.

Às vezes essas variações são tão mínimas e discretas que passam batidas. Exemplo recente: o Galaxy S6. Sua ótima câmera podia vir tanto com um sensor da própria Samsung quanto com um da Sony, e não havia qualquer referência na documentação ou na caixa informando qual tinha sido usado. Na prática, as diferenças, quando observadas, eram mínimas.

A Samsung também usa desse expediente em outros pontos, como no SoC, o chip que contém processador, GPU e outros componentes vitais, em seus smartphones topos de linha. Há o SoC Exynos, de fabricação própria, e o Snapdragon, da rival Qualcomm, equipando aparelhos que, apesar dessa diferença, são vendidos sob o mesmo nome. Foi assim com os Galaxy Note 3, S4, S5 e S71. A escolha depende de cada mercado. No Brasil e nos EUA quase sempre recebemos a variação com o chip da Qualcomm.

Nesses casos e em outros, como o SoC A9 do iPhone 6s, que pode ser tanto fabricado pela Samsung quanto pela TSMC, o que ajuda a manter a discrição dessas diferenças é, justamente, o pouco que muda entre um modelo e outro de um mesmo produto que usam componentes de mais de um fornecedor. Há leves variações, mas elas não passam disso; são tão sutis que a experiência de uso é, no geral e para a maioria, uniforme, consistente.

O fim, nesse caso, justifica o meio: as diferenças existem para driblar limitações de linhas de montagem/fornecedores ou como adequações para mercados específicos. Não há nada que as desabone ou as distanciem aos olhos do consumidor, ou seja, com chip fabricado pela Samsung ou pela TSMC, um iPhone 6s ainda será um iPhone 6s em todos os sentidos, ponto.

Grandes diferenças

Ambos Pixi 3, mas com tantas diferenças...
Os dois Pixi 3 são bem diferentes ao remover a tampa.

O mesmo não pode ser dito quando a troca de componentes afeta características do dispositivo. O Pixi 3 (ainda voltaremos a ele) é um grande exemplo: são quatro (!) tamanhos de tela distintos, cada uma podendo ter até três (!!) variações nas configurações internas. Dizer “comprei um Pixi 3” é, num nível menor, quase o mesmo que “comprei um Galaxy” — não explica muita coisa.

Casos assim são mais raros porque o potencial de confusão junto ao consumidor é muito grande. Mesmo a Motorola, que nos últimos anos se destacou no Brasil pela sua linha coesa e enxuta, já incorreu nesse pecado.

O segundo Moto E vinha em duas configurações, uma com conectividade 3G e outra, 4G. Mas as diferenças não paravam aí. O modelo 4G contava com um SoC mais avançado, o Snapdragon 410, contra o Snapdragon 200 do 3G. Nisso, processador e GPU eram melhores no 4G, abrindo um buraco relevante em desempenho entre os dois modelos. Com o Moto G de 3ª geração a Motorola repetiu essa estratégia controversa: alguns modelos vinham com 1 GB de RAM, outros, com 2 GB. Quanto mais RAM, melhor o Android se comporta.

Do ponto de vista do consumidor, é uma abordagem ruim. Diferenciar componentes em smartphones que carregam o mesmo nome cria uma aura de incerteza em torno dele. A segurança que se tinha antes em dizer “compre o Moto G, é bom”, vira uma frase mais longa e a recomendação, antes direta, se torna condicionada: “compre o Moto G, é bom, mas só se for a versão com 2 GB de RAM”. Para muita gente, “2 GB de RAM” é μιλούν ελληνικά2. E ainda apareceu uma variação Turbo, melhor em tudo, mas que, pelo menos, ganhou um sobrenome para distingui-la dos modelos não-Turbo. Complicado, né?

Os dois (de vários) Pixi 3

A Alcatel enviou ao Manual do Usuário dois smartphones Pixi 3, ambos rodando Android e com o mesmo tamanho de tela, de 4,5 polegadas. Não perca as contas: ainda existem Pixi 3 de 3,5, 4 e até 5 polegadas. E nem falaremos dos tablets Pixi 3, de 7, 8 e 10 polegadas. (Sério, é muito Pixi 3.) Calma, ainda tem mais. Quando foi anunciado, o grande diferencial do Pixi 3 é que ele poderia vir com um de três sistemas operacionais: Android, Firefox OS (RIP) ou Windows Phone. Ufa!

No Brasil apenas o sabor Android foi lançado.

Pixi 3 com Windows Phone, Android e Firefox OS.

Para não nos enrolarmos, foquemos nos dois Pixi 3 de 4,5 polegadas rodando Android que estiveram comigo. A primeira diferença entre eles é física: um é levemente mais grosso que o outro, 11,7 mm contra 9,95 mm. Esse mais grosso, não por acaso o pior dos dois, traz a peculiaridade de usar cartões miniSIM, uma raridade atualmente. O outro usa o padrão microSIM, mais popular entre smartphones intermediários e de baixo custo.

Um Pixi 3 é mais grosso que o outro.

A exemplo do Moto E de 2ª geração, os dois Pixi 3 também se distinguem, principalmente, pela conectividade — o grosso é apenas 3G; o outro, 4G. Aqui também isso se desdobra em diferenças de desempenho, sendo que o 4G, com um SoC mais rápido, composto por um processador quad-core Cortex-A7 de 1,1 GHz, além de ter 1 GB de RAM e 8 GB de memória interna, se sobressai facilmente. O modelo 3G conta com processador dual-core Cortex-A7 rodando a 1 GHz, apenas 512 MB de RAM e somente 4 GB de espaço interno. Em outras palavras, é dolorosamente lento.

Indo fundo na comparação, a parte menos lógica dela é que, além de tudo, eles não rodam a mesma versão do Android. O Pixi 3 4G está no Android 5.1; o 3G, no 4.4. Nisso, a personalização da Alcatel muda de um para outro. A versão com Android 4.4 tem mais coisas personalizadas como um teclado de terceiro (SwiftKey) e elementos do sistema, como a cortina de notificações e menus internos, com cores e grafismos próprios da Alcatel. O Pixi 3 com Android 5.1 é bem próximo da versão pura do Google, com apenas uns apps extras e alguns ícones alterados.

Tela de configurações dos dois Pixi 3 abertas.
À esquerda, Pixi 3 (4,5″, 3G) com Android 4.4; à direita, o modelo 4G com Android 5.1.

Números isolados podem não ser suficientes para determinar qual smartphone é o melhor, mas nesse caso eles não deixam muita margem para discussão. O desempenho do Pixi 3 na versão 4G é bastante superior. Ainda é um smartphone low-end, com todas as deficiências inerentes à categoria: tela abaixo da média, desempenho não muito bom, câmera insatisfatória. As câmeras dos dois, diz a Alcatel, são as mesmas; e parecem mesmo, com exceção da frontal — a do 4G é levemente melhor. Nenhuma tem foco variável, nem qualquer destaque positivo.

Os preços sugeridos são de R$ 479 (3G) e R$ 579 (4G). Caso se interesse, prepare-se para bater muita perna virtual, já que é bem difícil encontrá-los à venda. (Numa rápida pesquisa só encontrei o 4G por R$ 599 no Magazine Luiza.) São valores um pouco acima do que se esperaria de smartphones low-end, mas que se justificam pelo momento econômico e por um ou outro destaque, especialmente do modelo 4G, como o desempenho minimamente aceitável, a câmera frontal e a própria conectividade 4G, algo que ainda é incerto mesmo em concorrentes melhores e mais caros.

Mesmo quando publico guias e dou orientações mais específicas, a regra de pesquisar (bastante!) continua valendo. O diabo está nos detalhes e, às vezes, esses se escondem muito bem atrás de um mesmo nome.

  1. O Galaxy S6 foi uma exceção: todos os modelos vendidos usavam o Exynos 7420. O Snapdragon 810, da Qualcomm, apresentou problemas de superaquecimento nos testes preliminares da Samsung.
  2. “Falar em grego”, em grego, segundo o Google Tradutor.
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  • Maicon Bruisma

    Valor de Redmi 2, sem oferecer algo próximo. E se é possível sentir alguma lentidão no aparelho da Xiaomi, imagina esse Pixi 3 4G, já no mais não quero saber como é usar o modelo 3G. Ótimo texto.

    • Saulo Benigno

      Ótimo mesmo :)

  • Harlley Sathler

    E se é pra jogar mais um Pixi nessa farofa toda, não nos esqueçamos que a Palm usou esse nome para um aparelho de entrada!

  • Harlley Sathler

    E se é pra jogar mais um Pixi nessa farofa toda, não nos esqueçamos que a Palm usou esse nome para um aparelho de entrada!

    • Sim! A TCL, dona da Alcatel, comprou o espólio da Palm e por isso pode usar o nome:

      https://twitter.com/rafarigues/status/710182868027383813

      • Harlley Sathler

        Sim, sim! Eu lembro disso! Se não me engano vi essa notícia por aqui mesmo. Na época o pessoal da lista Palm-BR chegou a aventar a possibilidade de a Alcatel relançar alguma coisa com o WebOS, o que foi logo descartado já que o sistema agora pertence à LG.