Notificações do Facebook pixeladas.

5 dias longe do Facebook: o que a rede social faz para trazê-lo de volta?

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3/1/18, 12h01 5 min 38 comentários

No primeiro dia do recesso que tive no jornal, abri o bloqueador de conteúdo que uso1 e coloquei esta regra:

https?://+([^:/]+\.)?facebook\.com[:/]

Traduzindo, ela bloqueia o acesso a qualquer site que tenha “facebook.com” na URL. Como o aplicativo sincroniza as regras entre todos os meus dispositivos, na prática o que fiz foi me trancar para fora do Facebook por cinco dias.

Queria conhecer os efeitos da restrição ao site. Relatos não faltam, principalmente dos benefícios derivados dessa atitude drásticas — e que são corroborados por pesquisas que apontam uma melhora no bem-estar geral de quem sai da rede social.

Em igual medida, também me interessava saber quais gatilhos um sumiço dispararia no Facebook. Imaginava que eles não deixariam barato um abandono total e repentino. Na realidade, já esperava por isso após ler o relato de Brad Frost, um programador web, sobre a insistência da rede social em trazê-lo de volta depois que ele decidiu reduzir um tanto o uso dela.

“Tenho notado uma sensação de que a plataforma está cada vez mais voraz ao ponto de quebrar a quarta parede comigo e tornar a experiência menos agradável”, escreveu Frost antes de apresentar um punhado de notificações esdrúxulas do tipo “fulano publicou pela primeira vez após um tempo” ou “página x publicou uma enquete” que passou a receber.

A conclusão do programador foi de que “não é mais possível ser um usuário casual do Facebook”, porque a rede insiste tanto para que as pessoas fiquem mais tempo lá dentro que o comprometimento é necessariamente alto. Os truques para manter o engajamento estão “mais agressivos e explícitos”, o que, na visão dele, deteriora o real valor que a plataforma oferece, que é o contato com pessoas queridas.

Comigo, o Facebook também reagiu. Em cinco dias do lado de fora, recebi três e-mails contendo relatórios do que eu estava perdendo. “Rodrigo, você tem 23 novas notificações, 1 convite para evento, 2 mensagens, 3 cutucadas, 5 convites…” era o título deles, com variações nos números. Parece bastante coisa! E tem até cutucadas, coisa que nem sabia que ainda existe!!

E-mail com o que estava perdendo do Facebook após dias longe dele.
E-mail do Facebook.

No retorno, deparei-me com um total de 28 atualizações pendentes, o que indica que algumas daquelas “coisas que aconteceram desde a última vez que você entrou” eram, na realidade, bem antigas (a última cutucada foi há um ano; veja as suas aqui). Das novas mesmo, o balanço foi o seguinte:

  • 1 convite de amizade de alguém que não conheço;
  • 4 conversas, sendo dois robôs (daqui e da Nova Economia), um desejo de feliz ano novo e uma conversa sobre o que fazer na virada, migrada para lá em decorrência das instabilidades do WhatsApp no dia 31;
  • 23 notificações, sendo mais da metade (13) de páginas que gerencio lá. De resto, um comentário em uma nota, um link compartilhado na minha linha do tempo e curtidas e posts em grupos.

De 28 notificações, apenas uma era temporal e me acarretou algum problema tê-la perdido. Essa perspectiva ressalta a ânsia do Facebook em manter um número vermelho ali em cima, mesmo que poucas vezes ele traga algo relevante ou mesmo digno da minha atenção imediata.

Não recebi mensagens de texto (SMS) do Facebook me chamando de volta, medida aparentemente mais extrema. Talvez se tivesse ficado, sei lá, 10 dias longe?

No momento em que o Facebook se esforça tanto para que o usuário não deixe de lado o serviço, acho que fica evidente a intenção. Não é manter contato com pessoas queridas, o que os críticos reconhecem como valioso e, pela escala da rede, algo quase único, rivalizado talvez apenas por outros apps do próprio Facebook — Instagram e WhatsApp. Em vez disso, há um trabalho incessante de mantê-lo conectado, engajado, usando o Facebook pelo maior tempo possível e, no processo, gerando mais dados para serem usados no algoritmo e no direcionamento de anúncios.

O que fiz fica entre usar a rede social como ela é projetada para ser usada e excluir (ou desativar) o perfil. Essa última opção é complicada (e tem seus problemas particulares, como a chantagem emocional dos “amigos que sentirão sua falta”). Além das páginas que gerencio, algumas funções do Facebook são realmente úteis e sem paralelo em outros espaços. Os eventos locais, por exemplo, concentram a agenda cultural das cidades.

Em junho de 2017, Mark Zuckerberg anunciou que a nova missão da empresa é “dar às pessoas o poder de criar comunidades e aproximar o mundo”. É impossível dizer se conseguirá. Por outro lado, o novo texto, complementado por mudanças profundas sofridas pelo Facebook nos últimos anos, mostra que para pessoas comuns ficou mais fácil abandonar o Facebook sem muito prejuízo nem o “FOMO”, aquele medo de estar perdendo algo importante.


  1. 1Blocker. Existem aplicativos específicos para bloquear/gerenciar sites que distraem, como o SelfControl (macOS), FocalFilter (navegadores) e RescueTime (Android, Linux, macOS e Windows).

Imagem do topo: Stack Overflow/Reprodução.

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  • Fala sério. O Facebook chega a ser sufocante. Obrigado pela pesquisa e relatos, contribuem para mostrar a verdade sobre essa rede social onde somos meramente produtos.

  • leoleonardo85

    Eu passei o mês de Outubro/2016 todo fora do Facebook (desativei a conta), voltei por conta somente de um grupo de amigos que tem um canal (Nautilus) e me chamaram para um grupo lá.

    O que percebi nesse 1 mês fora?
    No começo ainda ficava pensando em entrar no Facebook, só pra ver o que tinha de novo na Timeline, depois de um tempo vi que a vontade de entrar lá era cada vez menor.

    Quando voltei, tinha 63 notificações, nenhuma realmente importante.
    Mas ao reinstalar o app no Smartphone percebi que a minha vontade de ficar rolando a timeline era quase inexistente.

    E analisando um tempo depois, vi como esse tempo fora do Facebook me fez bem, o uso da rede agora é muito menor, no Desktop eu uso a extensão “Kill News Feed”, então eu entro no Facebook, vejo notificações (que agora sempre são poucas), vou nos grupos que me interessam e ponto, saiu e vou fazer outra coisa.

    A timeline principal já não me chama mais tenta atenção como antes, e pra mim isso é bom.

    • Gertrudes, a Lhama Morta

      Mesmo que eu “tente” ficar preso ao feed, não consigo. De cada 10 posts, 5 são de “fulano comentou em tal foto”, 3 são patrocinados, e os outros 2 geralmente são posts antigos de páginas que não ligo muito. Ou seja, nem pra “saber o que meus amigos estão fazendo” ele tem servido.

      • leoleonardo85

        Outra coisa que eu fiz quando voltei, foi deixar de curtir várias páginas de conteúdo, ficou ruim por umas 2 semanas, mas depois melhorou bastante, agora mostra muito mais o que os amigos andam postando.

        Uma outra coisa é quando uma conversa em um post pra você já acabou, vai nas opções e coloca pra não receber mais notificações daquela conversa.

  • Gertrudes, a Lhama Morta

    Seguidamente recebo notificações de “Fulano comentou na própria foto”, em geral de pessoas com quem nunca mantive contato pela plataforma, e não interagi de maneira alguma com tal foto. Abro o face umas 3x por semana, no máximo.

    É bem evidente o “desespero” em querer fazer a gente usar mais a rede, e eu sinceramente já teria excluído a conta, não fossem pouquíssimas ocasiões quando alguém me contata por lá.

    Minha solução foi desativar completamente qualquer tipo de notificação pelo App, e-mail ou SMS. Até agora tem funcionado… mas não duvido que logo comece a desrespeitar as configurações e mandar SMS mesmo assim.

  • Frederico

    É cada vez mais difícil usar o facebook de modo proveitoso. Se não fosse o grupo da faculdade e de algumas discussões profissionais, já teria encerrado a minha conta. O poder da plataforma é muito grande nesse aspecto, não há alternativas melhores tão fáceis.

  • Deletei meu Facebook há 6 meses, e nunca estive melhor! Óbvio que no começo você sente falta e fica excluído de grupos, eventos e etc. Porém, notei que este site era algo que estava consumindo meu tempo livre.

    Hoje não sinto mais falta, e quando sinto vontade de “procrastinar”, leio notícias e artigos mais relevantes e de conteúdo, ao invés de ficar perdendo tempo vendo o que os outros estão fazendo da vida.

    Ainda tenho Instagram, só não deleto pois senão ficarei excluído socialmente de modo definitivo, mas vontade não falta. :)

  • tuneman

    Aí eu falo que “estou velho demais pra isso”.
    Já não tenho instagram e snapchat (não faço ideia de como funcionam).
    Facebook só uso pelo navegador e só uso por causa do Messenger.
    Até Whatsapp é irritante. Tive que bloquear as notificações, pois o app não permite mais desativa-las.

    • Tet

      Instagram eu fiz recentemente, ainda não entendi muito bem qualé do app. Acho o feed dele BEM pior que o Facebook e o Twitter (sigo ~30 pessoas).

      Snapchat eu realmente não entendi a motivação pra usar que não sejam os filtros (que são feios e cafonas), ou porn. Já sei onde procuro o meu, e não é num celular de 5 polegadas que eu vejo sacanagem, rs.

      Uma coisa que não sei se as pessoas contam é a de aumentar atividades em outras redes sociais. Hoje em dia, eu uso principalmente o Reddit e dou uma checada no Twitter. Facebook pois é bom para manter contato com o pessoal da escola/facul, mas só isso.

      Uma coisa que não sei se é por eu ser meio introvertido, mas não entendo conversas 1-1 no WhatsApp. Não tem aviso de quando a pessoa está on-line ou algo assim. Me sinto extremamente desconfortável de começar uma conversa por causa disso. Isso é bem diferente da época do MSN, que eu via alguém on-line e já mandava um oi, um papo, uns links.

  • Paulo Pilotti Duarte

    Essa discussão é bem antiga, desde a remota época do Orkut se tem isso (naquela época era a questão da tríade de legal/sexy/confiável que permeava as discussões) porque, basicamente, é o nosso problema moderno (como já foi o rádio, a TV, o jornal, onde as crianças “perdiam a vida”).

    Eu acho que tem comportamentos mais ou menos afeitos ao vicio de compartilhar tudo e o segredo é saber dosar, como em tudo na vida, o que se faz por ali. Problema que hoje em dia é “cool” sair de lá (pertencimento, esse maldito) e isso pode nublar a percepção das redes sociais.

    Eu gostaria mesmo de saber se tem artigo científico (com estudo, controle, hipótese) sobre o tema, porque num primeiro momento tudo o que eu vejo são evidência anedóticas sobre a questão (dizer que a vida melhorou pós-Facebook recai na mesma armadilha que você (tenho quase certeza que foi por aqui que eu li) falou quando as pessoas achavam seus Macs lentos mas na verdade era um “erro de percepção”) e matérias de jornalistas sem muito cuidado cientifico na questão – são relatos válidos mas que não se debruçam além da percepção deles próprios sobre o problema (sem falar que os links postados são de americanos, e por lá o Facebook, Google e Amazon estão muito mais incrustados na vida das pessoas do que por aqui).

    É um dúvida sincera, se alguém tiver/souber de artigos mais cuidadosos sobre a questão, eu agradeço, porque o único que eu achei no Scielo trata da imagem das adolescentes: https://goo.gl/eipLmz

    No mais, fala muito do Facebook como ferramenta de educação, medicina e outras ciências (o que não me interessa, ao menos no momento): https://goo.gl/8j1BNy

    • Meio off-topic: me senti até meio chateado de não ter sentido minha vida mudar após começar a fazer exercícios, exceto por menos dores no corpo em geral e roupas cabendo melhor em mim.

      • Paulo Pilotti Duarte

        Hahahahahaha

        Poizé, dizem que tem toda a questão da endorfina, mas, não sei se isso funciona com todo mundo. Eu nunca me senti melhor com exercício físico. Tem mais impacto na minha vida diária uma alimentação com menos açúcar e menos gordura.

        Emagrecer ajuda na autoestima e no sono, dizem.

      • Will S.

        Você pensava que teria que tipos de mudanças?

        • Não esperava nada demais, apenas comecei porque estava sedentário e já não tinha mais desculpas para tal…tinha acabado meu mestrado e o emprego estava em um ritmo normal.

          É que vejo várias pessoas comentando que ficaram mais produtivas/dispostas, dormem melhor, ficam menos doentes, etc. Se melhorou, não foi nada assim absurdo que mudou minha vida e eu tenha ficado super animado.

      • binho_0

        depende da intensidade desses seus exercícios. vc faz corridas, por exemplo, de 10 Km com qual frequência?

        • É basicamente exercício de calistenia, faz entre 3 e 4 vezes por semana, treino de cerca de 40 minutos…é o que o aplicativo Results basicamente manda eu fazer haha

          • binho_0

            então cuida do joelho e corre.

          • E o que isso mudaria?

          • binho_0

            tudo!

      • Frederico

        Algumas mudanças levam mais tempo também
        O que noto mais rapidamente comigo é melhora no sono e depois de +- 1 mês, melhora de humor

    • binho_0

      Depois q passei e me preocupar com questões ligadas a privacidade online eu simplesmente tenho aversão a coisas relacionadas a redes sociais, porque essas grandes redes, não são nada disso que elas pintam ser. Uso face exclusivamente por questão profissional. Do contrário, estaria 100% fora.

      Eu acho q vc se deparará com mais estudos daqui um tempo, qdo muitos cientistas se beneficiarem dos arranjos que estão sendo feitos com data science a partir das pesquisas do desenvolvimento dessa própria ciência no campo das humanas. Teve uma edição da revista FAPESP apenas sobre este assunto.

      O que vem me preocupado é que muita gente séria está considerando o facebook e as redes sociais como a nova praça pública. Acho muito precipitada essa consideração, mesmo com muita coisa indicando esse novo cenário. Vi uma série de palestras ano passado e era praticamente unanime que agora a situação é esta e ponto. Daí penso na quantidade enorme de gente q está fora dessa praça pública e do quão esquisita é comparar uma praça pública (nos moldes ocidentais pelo menos) com um espaço privado com caixas de comentários e emojis. Há muito entusiasmo nessa avaliação e eu compreendo perfeitamente, porque ela é estonteante, especialmente para pessoas progressivamente mais velhas que não convivem com as redes há mais tempo.

      Enfim, eu acho q há muita gente estudando o assunto e logo alguém esbarra nessa questão mais psicológica da coisa, se é isso mesmo q vc está dizendo q tem interesse.

      • Paulo Pilotti Duarte

        Vou comentar os seus 3 posts num só =D

        É isso, eu entendo os relatos mas eles são … apenas relatos. Tem seu ponto forte e a sua relevância, mas, isso soa ainda como placebo, culto a carga etc.

        A revista FAPESP eu tinha lido e ela trata de data science, até onde eu li/me lembro, e não necessariamente sobre o aspecto mais humano da coisa, levando a discussão sobre as nossas bases de dados e como extrair informações massivas disso de modo a nortear uma decisão de política pública. Li por cima o artigo quando saiu e me foquei mais na parte do corpus de LP, por motivos óbvios.

        A analogia de praça é ruim, mas o fato de nem todo mundo ter acesso é algo que na praça ocorria também. As pessoas são muradas e o acesso é limitado, a assimetria é muito grande mesmo em questões como essa. Uma praça (mantando a analogia) é apenas um espaço de uso comum daqueles que tem acesso à ela. Assim como o Facebook. Uma praça de interior é completamente diferente de uma praça de cidade e, por sua vez, uma praça numa zona cara é completamente diferente de uma praça da periferia. Nesse ponto é bastante capaz do Facebook ser até mais democrático do que a praça ;) (tirando essa moda de grupos fechados apenas para quem contribui no Patreon, mas acho que esse modelo de negócios já está cansado e com os dis contatos).

        A questão da privacidade é um problema, mas o Google sabe muito mais de mim do que o Facebook, principalmente comigo tendo um Android o dia todo no bolso. Acho que a questão já está sendo discutida e é perigosa, mas, não vejo ninguém querendo abrir mão de facilidades em detrimento de privacidade. E, novamente, nos EUA isso é muito mais invasivo do que aqui.

        Sobre os livros, não conheço nenhum, vou ver se consigo pelo menos uma resenha. Sobre artigos/livros gringos, acho que isso é meio que inútil pro nosso estágio de envolvimento com redes sociais. Nosso mercado não é tão dinâmico ainda (nosso nível de automatização em redes sociais ainda é pequeno, o que o Google, Amazon e Facebook fazem nos EUA é absurdo, a automação deles em relação a internet + serviços sociais/compras é muito grande e as empresas sabem quase tudo de cada pessoa conectada) e nossa relevância mundial ainda não me parece valer a pena pra essas empresas terem esse nível de envolvimento diário nas nossas vidas. As informações que elas tem são mais “ativas” (nos inserimos lá) do que passivas (rastreamento, automação de compras, etc).

        • O grande problema de o Facebook ser a praça é que cada um de nós vê um cenário diferente e interage com pessoas específicas. É como se estivéssemos na praça, mas com headsets de realidade virtual que nos isolam de vozes dissonantes e paisagens desagradáveis. O Facebook destrói ativamente a nossa realidade compartilhada — tem um texto muito bom no BuzzFeed sobre isso: https://www.buzzfeed.com/charliewarzel/2017-year-the-internet-destroyed-shared-reality

          E, veja, não acho que o Brasil esteja tão distante da realidade norte-americana no que diz respeito à falta de privacidade. O ponto mais forte que nos falta é o monopólio da Amazon, porque as outras coisas são facilmente replicáveis aqui — e o são. Como são sistemas escaláveis e replicáveis, o trabalho de estender esses sistemas é mínimo ou mesmo nulo. Sistemas de scoring e data brokers existem no Brasil, logo não há por que acreditar que as redes sociais atuem de maneira diferente aqui.

          Abrir mão das facilidades é difícil e, pior, caro. Mas é possível e o primeiro passo é demostrar essa viabilidade.

          • Paulo Pilotti Duarte

            O nível de envolvimento do Google na vida das pessoas nos EUA é muito maior. Aqui, no máximo, quando eu entro num shopping ele me diz que é um bom lugar pra tirar uma foto e mandar pro maps, por exemplo.

            Tem um Anticast que fala sobre isso, inclusive do envolvimento diário do Google na vida pessoal de cada um. É meio assustador que isso ocorra por lá.

            Sem falar nas tecnologias de pagamento, nos EUA ocorrem quase que exclusivamente com cartões de crédito (o que permite o cruzamento de dados com os Apple Pay, Google Pay e as operadores de cartão e a criação de um perfil de consumo e sócio-econômico), algo que não é nem de longe replicável no Brasil (a maior parte não tem esse acesso a crédito que a gente vê em blogs de TI, isso é uma parcela mínima da população e vai continuar sendo enquanto a política de crédito e juros do Brasil for a atual).

            Não ignoro a falta de privacidade que já temos no Brasil e nem o nível de envolvimento dessas empresas, mas, eu não vejo nem o alcance e nem o interesse em termos um modelo parecido com o americano por aqui.

          • binho_0

            Dá uma olhada nisso aqui depois, Paulo.

            https://marketing.serasaexperian.com.br/targeting/mosaic/

            Eu acho q a turma já tá bom um belo perfil da sociedade brasileira nos termos de consumo. Há uma baita segmentação aí e não é aquela coisa tosca de palpite, sabe? Me parece que esses perfis não foram traçados sem uma brutal análise de dados e que, com certeza, envolveram também a vida online das pessoas quando isto era possível.

          • Paulo Pilotti Duarte

            Tem que cadastrar email pra baixar o PDF … =/

            Mas pelo que eu vi é segmentação de mercado não? Não é algo individualizado como teríamos com um acesso massivo a cartão de crédito e um uso rotineiro como os EUA tem.

            Procurei os dados de acesso a cartão de crédito no Brasil e não achei (ainda, chuto que deve ter em algum lugar).

            Eu gostaria de ver o acesso a cartão de crédito nos EUA e adoção de algum aplicativo de carteira pagamento e depois comparar com o acesso a cartão de crédito no Brasil (adoção aqui ainda é bastante baixa nos aplicativos).

            Digo isso porque o Uber aceitar dinheiro no Brasil é um indicador de como temos pouco acesso a cartão de crédito (eu mesmo não tenho, nunca passei nos indicadores das empresas) que é foco principal do cruzamento de dados que eu falei ali em cima.

            Imagina a informação pessoal que se tem quando se cruza os dados do cartão + locais onde você esteve + comprar feitas dentro e fora do aplicativo de pagamento + compras online com esse mesmo cartão.

            Acho que isso é quase impossível de se ter no Brasil, senão num recorte bastante abastado da população, por conta do acesso. Acho até que nos EUA o recorte vai ser mais direcionado para o topo, mas, mesmo assim muito mais abrangente do que aqui.

    • binho_0
    • binho_0

      e tem dois livros que não são diretamente sobre o assunto, mas talvez possam te interessar:

      a vida no orkut, de evaldo souza couto e telma brito rocha
      do sexual ao virtual, de fernanda bruno

      e livros gringos? talvez alguém já tenha escrito algo. eles são rápidos no gatilho.

      • Tem os da Sherry Turkle, que são meio apocalípticos, mas trazem bons insights. Nos primórdios do Manual, publiquei isto: http://www.gazetadopovo.com.br/manualdousuario/alone-together-redes-sociais-solidao/

        Andrew Keen e o Nicholas Carr (e o Jaron Lanier) também são bastante críticos.

        • binho_0

          Sou fã do Nicolas Carr e me tornei fã depois do Jaron Lanier. Esses dois são essenciais, eu acho. A Shrry Turkle ainda não consegui ler… talvez só alguma coisa na imprensa mesmo dela ou sobre ela (no Manual, por exemplo).

    • Joga um “facebook study” no seu buscador preferido e você encontrará um punhado de estudos nesse sentido. Aqui tem cinco deles: https://www.inc.com/alice-g-walton/5-ways-quitting-facebook-will-improve-your-mental-health.html

      O próprio Facebook diz que passar muito tempo consumindo mídias sociais passivamente faz mal, mas a solução é (finja surpresa) postar mais: https://newsroom.fb.com/news/2017/12/hard-questions-is-spending-time-on-social-media-bad-for-us/

      • Paulo Pilotti Duarte

        Dos 5, dois são bastante relevantes:

        i) Seeing Everyone Else’s Highlight Reels: How Facebook Usage is Linked to Depressive Symptoms

        Esse diz (no resumo) que as pessoas tem uma tendência maior a se sentirem depressivas quando se comparam com os seus pares no Facebook. É relevante dentro da realidade de qualquer pessoa, porém, não é feito acompanhamento pós-Facebook (tendências depressivas e de comportamento podem ser ativadas de diversas maneiras [esses gatilhos emocionais tem diversas origens], ou, me pergunto se a pessoa fica longe do Facebook mas acompanha um blog de TI vendo telefones super caros, ela pode desenvolver o mesmo problema?)

        ii) Envy on Facebook: A Hidden Threat to Users’ Life
        Satisfaction?

        Esse é mais interessante que o primeiro porque trata dos gatilhos dentro do Facebook (as pessoas percebem a rede como um instrumento de inveja na base de comparação das suas vidas). O que o estudo indica é que as pessoas enxergam o Facebook como ambiente de estresse. Seria interessante ter acompanhamento depois de sair da rede.

        ~~

        Porque o acompanhamento depois de sair da rede é bom e necessário? Porque isso vai mostrar que a rede era o único gatilho que essas pessoas tinham para esses sentimentos. Isso é muito importante de determinar porque impacta diretamente na vida de cada um e pode desencadear outros episódios.

        Aqui tem um estudo sobre isso: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27831756

        Mas note que a inveja no Facebook é acentuada naqueles que tem tendência a sentir inveja, ou seja, o Facebook é um gatilho que pode ser substituído. Ele ainda compara dois grupos – fora e dentro da rede – e compara os níveis de pessoas que se disseram sozinhas e tristes (a diferença é pequena ainda assim, mas significativa). E, principalmente, quem se sente melhor quando sai da rede é quem faz uso passivo (acompanha mas posta pouco), quem faz uso massivo (muitas postagens) e quem tem tendências anteriores a sentir inveja.

        Aqui tem outro estudo: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24606026

        Esse fala mais da questão de empatia e neuroticismo (emoções negativas) e indica que o Facebook pode ter papel negativo nessa questão (pessoa com uso pesado da rede tem mais tendência a sentirem emoções negativas).

        ~~

        A questão toda é: o problema é o Facebook ou as pessoas? Tirando o Facebook das pessoas a tendência é que elas se sintam melhores por um tempo e logo então descubram outro gatilho ou se sintam melhor de modo geral e estável? O Facebook é o meio que gera o fim (emoções negativas) ou ele é o fim apenas?

        Eu acho que ele é os dois, mas, muito mais apenas o fim. É onde repousamos as nossas emoções negativas, nossas comparações rasas de vidas que “deveríamos ter” (baseada numa série de aspectos culturais) e a nossa necessidade de constante comparação e competição. Porém, acho que se tirarmos o Facebook da vida, ainda que inicialmente tenha-se uma melhora, sem mudarmos hábitos de vida a tendência é que encontremos outro ponto de estresse que nos fará ter essas emoções negativas novamente.

        Acho que colocamos poder demais em tecnologia e tentamos explicar quase tudo, atualmente, nos baseando nela. As vezes o problema é só o ser humano mesmo.

  • Willian Ferreira

    Show de bola!
    Os comentários aqui da página complementam muito bem a matéria.
    Isso só evidencia o nível cultural daqueles que se deram ao trabalho de ler antes de comentar.
    Vou pegar essa barca também, um tempo fará bem.
    Valeu!

  • @ghedin:disqus eu adicionei um “m” na expressão regular que está no post para bloquear a página mobile também no iOS: https?://+([^:/m]+.)?facebook.com[:/]

  • doorspaulo

    Lendo a matéria, me dei conta que uso o Facebook de modo “errado”.
    Abro e vou direto para os grupos, mal vejo a timeline.
    Às vezes, marco a namorada ou algum amigo em um meme engraçado, e é isso.

  • Larissa Tavares

    Estou sem usar regularmente o Facebook desde o Natal e o que ainda me impede de me desvincular com mais afinco são os eventos, não conheço nenhuma outra ferramenta hoje tão boa para descobrir opções culturais que me agradem. Bem que eles podiam fazer um app só pra isso.

  • Lucas Ribeiro

    A grande vantagem do facebook, para mim, é conseguir logar em diversos sites por meio dele. Facilita a vida e muito.

  • Brant Pearson

    Hey Rodrigo, great article! I agree with you, Facebook intention is no longer to connect us, rather collect as much data as possible and sell it to their real customers: marketers and businesses running ads.

    What’s your thoughts on the future of social media, where do you see it going? Will people continue putting up with the status quo or is there change on the horizon?

    Keep up the good work.

    Cheers,

    Brant