Ma oê! O SBT lançou um app de streaming para brigar com o Spotify

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29/6/18, 12h33 7 min Comente

Há um novo app de streaming de músicas no mercado e de uma empresa insuspeita. O SBT Hits traz uma proposta curiosa: playlists criadas pelas estrelas da rede de TV. Vai dizer que você nunca teve curiosidade em saber o que Carlos Alberto de Nóbrega ou Larissa Manoela ouvem nos momentos de lazer?

Eu também não, mas é o que temos. O SBT Hits é basicamente isso: um app especializado em playlists, o que significa que você não consegue acessar o acervo de um artista ou banda específico, nem criar as suas próprias playlists fora a de músicas favoritas. Nesse sentido, ele é parecido com a versão gratuita do Spotify.

(No decorrer desta análise, contarei com a ajuda dos usuários do SBT Hits que deixaram comentários nas lojas de apps.)

Não dá para buscar artistas.
Imagem: Google Play/Reprodução.
Inclusive Evanescence.
Imagem: Google Play/Reprodução.

Além das playlists de “momentos” — para malhar, estudar, limpar a casa etc. —, o SBT Hits oferece playlists supostamente criadas pelos grandes nomes da emissora, que acabam sendo o grande chamariz do app. Ratinho, Patricia Abravanel, Eliana, tem bastante gente ali. Até personagens, como o Paulinho Gogó de Maurício Manfrini, marcam presença. (A descrição da playlist dele, “quem não tem dinheiro, dá play aqui e se diverte”, não dialoga com o modelo de negócio do app.)

Celso Portiolli não conseguiu pensar em mais do que cinco músicas para a sua playlist. A da Eliana chama a atenção por não ter sequer uma música cantada em português. Aliás, todas elas indicam o gênero predominante no topo da tela, o que ajuda a saber o gosto de alguns nomes especialmente enigmáticos (não conheço Valentina Francavilla).

Também há playlists divididas por gêneros e as “especiais”, difíceis de definir, mas que traz títulos como Top Latinas, Só Hits e As Melhores para os Coroas (??).

Algumas telas do SBT Hits.
Clique para ampliar. Imagem: SBT Hits/Reprodução.

Infelizmente, faltou cuidado e atenção com a parte musical da história do SBT. Canções que são as primeiras que veem a mente quando a palavra “música” e a abreviação “SBT” são citadas não estão presentes no SBT Hits.

Trilhas sonoras das novelas da Televisa? Nada. Nos comentários do app no Google Play, um usuário questiona, indignado: “Como assim não tem Thalia???” O SBT responde que está preparando uma playlist “com essa rainha latina ;)”. Já deveria estar lá.

Cadê a Thalia??
Imagem: Google Play/Reprodução.
Comentarista deseja músicas das novelas mexicanas.
Imagem: Google Play/Reprocução.

E ainda temos as novelas com personagens cantores que faziam shows, que têm músicas próprias, que deveriam estar em um app de streaming de músicas da emissora, como Chiquititas e Rebelde. Nenhum sinal delas, porém. Pablo, cadê a música!? Me ajude a te ajudar, SBT!

Pesquisas no SBT Hits por Rebelde ou Chiquititas sem retorno.
Imagem: SBT Hits/Reprodução.

A propósito, a pesquisa só busca por nomes de playlists, o que a torna um tanto dispensável.

A ausência-mor é Silvio Santos, a cara e a alma do SBT. Não tem playlist dele nem seus bordões. Tudo bem que o app é de músicas, mas imagina só que louco uma área com bordões do Silvio. “Ma-oê!!”, “vai pra lá, vai pra lá”, “quem quer dinheiro!???” Só de ler isso já abri um sorrisão aqui! Custava nada colocar umas playlists de bordões famosos. Com tanto app de frases por aí, deve ser fácil para o próprio SBT lançar um oficial™️. Imagine uma playlist de bordões do Chaves? Ou dos incontáveis d’A Praça é Nossa? Maior oportunidade perdida.

Problemas técnicos

O SBT Hits foi feito em parceria com a Movile, dona do Superplayer. A “inspiração” é bem evidente. O app é gratuito, mas só funciona legal pagando R$ 8,90 por mês — falta ao do SBT, porém, o plano super premium do Superplayer, de R$ 16,90/mês. Pagando, o usuário do SBT Hits pode baixar até três playlists para ouvir sem conexão à internet, pular faixas quantas vezes quiser e se livrar das propagandas.

O mais estranho é que, pelo menos no iOS, onde o app foi testado, não é dada a opção de assinar. A ajuda do aplicativo esclarece que a assinatura só pode ser feita no computador ou no app para Android. É provável que o SBT e/ou a Movile queiram, com essa restrição, evitar a mordida de 30% que a Apple dá em assinaturas feitas em apps baixados da App Store, mas é algo que deprecia bastante a experiência de uso.

Para piorar, não tive os prometidos sete dias de degustação e, no modo gratuito, só consigo ouvir trechos de 30 segundos de cada música, sem propagandas. Não sei dizer se esse comportamento é fruto de um bug ou limitação do app.

Tela com oferta do SBT Hits.
É tudo meio confuso: assine para ter 20 dias de graça. Imagem: SBT Hits/Reprodução.

Outra esquisitice é o app pedir acesso à minha localização. Diz que é para oferecer playlists personalizadas de acordo com onde eu estiver, mas nenhuma delas parece carregar o regionalismo como fator determinante. O Diego com cara de coala concorda:

Diego reclama que não tem músicas gaúchas.
Imagem: Google Play/Reprodução.

E, mesmo que fizesse alguma diferença, soa como um critério ruim para determinar o gosto de alguém. Será que não é esse o motivo de o app pedir a minha localização? Vamos ver o que diz os termos de uso:

Ao acessar a Plataforma, você também concede o direito ao SBT HITS de lhe fornecer publicidade e permitir que seus parceiros comerciais façam o mesmo.

Era esperado. E, não sei se por preciosismo técnico ou se como parte de um plano terrível do SBT para dominar todos os smartphones do Brasil, os termos de uso informam que “você concede, automaticamente, ao SBT HITS o direito de uso do processador do seu dispositivo, da largura de banda (e ao consumo desta banda) e do hardware de armazenamento do seu dispositivo”. Medo.

O SBT Hits é um app simples, mas funcional, que usa o vínculo mais fácil possível das estrelas do SBT com música. Poderia ser, sei lá, um “Gazeta do Povo HITS”, com as playlists dos jornalistas e blogueiros da redação, que, na prática, o resultado seria o mesmo. Ou poderiam ser playlists criadas no Spotify pelos famosos e compartilhadas por lá mesmo. No estado atual, o único diferencial é o apelo de nomes e rostos da emissora — se é que foram os próprios que escolheram as músicas — e as vantagens são a receita das assinaturas e os dados que o SBT e a Movile conseguem capturar. Para as empresas. Para o usuário, é difícil justificar esse gasto com opções similares gratuitas e as muito superiores custando pouca coisa a mais.

Apesar disso, as lojas de apps estão com muitos comentários elogiosos e notas altas ao SBT Hits. Na ponta do lápis, o app cobra de acordo com o que entrega — menos, porém é mais barato que outros apps do tipo. E tem a playlist da Larissa Manoela, que é bem legal.

Foto do topo: YouTube/Reprodução.

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