Selfies editadas no Facetune.

A hiper-realidade das selfies editadas com o Facetune

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8/6/16, 16h58 8 min 17 comentários

Abrir o Instagram é dar um pause na vida e se jogar em pequenos mundos perfeitos com gente bonita em lugares paradisíacos “curtindo a vida” e recebendo presentes de #marcas. Parece um negócio fácil e rentável, tanto que virou meta de vida. A criança dos anos 2010 não quer ser jogadora de futebol, astronauta ou bailarina, ela quer ser youtuber ou blogueira de moda/fitness/[categoria da vez] ou, para colocar todos no mesmo grupo, “influenciadora”. Com esse fim em vista, se espelha nas ações que deram certo para quem se estabeleceu.

Há inúmeros sinais dessa influência que, com frequência, passam despercebidos sob o manto de uma pretensa normalidade. Caso em tela: selfies.

Em pouco mais de três anos as câmeras frontais em smartphones deixaram de ser restritas aos modelos mais caros. Hoje, elas estão em todos. A qualidade ainda varia, mas sua presença é esperada1. Além da presença, algumas fabricantes tentam capitalizar em cima de recursos de software exclusivos para essa câmera. Flash frontal, lentes do tipo grande angular, sensores com muitos megapixels.

A fim de se diferenciarem e para agradar mais os aficionados por selfies, as fabricantes começaram a investir em bizarras otimizações via software. A Microsoft já fez isso, mas o fenômeno é mais palpável em fabricantes asiáticas, como Asus, Samsung e Xiaomi, que oferecem entre modos tradicionais de câmera como panorama e timelapse um extra, o “modo embelezador”. São configurações que atenuam imperfeições faciais, exibindo essas correções na tela em tempo real. Fiz alguns testes quando usei o Lumia 730 e o Zenfone 2 (nesse caso, um teste extremo):

Efeitos embelezadores da câmera do Zenfone 2.
À esquerda, com todos os efeitos embelezadores desativos. À direita, com todos eles no máximo.

A Samsung, na apresentação da linha Galaxy A no Brasil, fez isto:

Demonstração do modo embelezamento do Galaxy A, da Samsung.
Foto: Emily Canto Nunes.

Alguns smartphones topo de linha escapam dessa de embutir o “embelezamento” via software talvez pela qualidade acima da média das suas câmeras ou apenas por não quererem se envolver — incluir a função de clareamento da pele num modo chamado “embelezador”, por exemplo, é no mínimo controverso. Onde isso não existe nativamente, porém, os apps de pós-edição entram em cena. Fiquei surpreso, dia desses, quando descobri a existência e o poder deles.

Pequenos Photoshops

É um conceito genial: em vez do Photoshop com todos os contratempos que ele impõe tais como custo, complexidade e disponibilidade limitada, coloca-se uma parte infinitesimal das ferramentas do software de edição da Adobe numa interface fácil de usar e distribui-se esse pacote reduzido na forma de apps baratos ou gratuitos para smartphones visando atender a um fim bem específico: melhorar a aparência dos rostos das pessoas em selfies.

Abrindo um parêntese, esses apps são uma ótima representação de como os dispositivos móveis quebram o legado do PC — em outras palavras, como a Era Pós-PC acomoda as aplicações mais complexas, antes exclusivas do computador tradicional, em soluções mais simples e baratas. Não é um Excel Mobile que pode minar o uso do Excel de verdade, mas sim aplicações diferentes de planilhas eletrônicas que cheguem aos mesmos resultados com mais facilidade. O trabalho de um executivo não é criar e alimentar planilhas no Excel, é obter, organizar e extrair sentido de dados que o ajudem a tomar decisões. Essa lógica, como estamos vendo, vale também para o Photoshop.

Voltando ao Photoshop de selfies, os apps em questão são coisas como o Facetune e o Airbrush. É tudo simples e poderoso, qualquer um consegue melhorar uma selfie apertando uns botões e passando o dedo nas imperfeições do próprio rosto, eliminando-as. Os resultados são notáveis e o controle, muito maior que os modos “embelezamento” embutidos no app da câmera:

Baixei o Airbrush para ver como funciona. É incrível. Manchas da pele, dentes amarelados, olhos sem brilho, testas oleosas, rostos finos, queixos fora de lugar, narizes enormes, cabelos sem volume, tudo isso pode ser consertado por um app gratuito. O rival, Facetune, é mais popular. Dizem que é mais poderoso também e (literalmente) cobra por isso, mas pouco, só US$ 4.

Em ambos, Airbrush e Facetune, não há atrito já que eles são estupidamente fáceis de se usar — uma criança que joga Talking Tom e assiste a vídeos infantis no YouTube conseguiria bons resultados. De posse desses apps, o que distancia uma foto normal com as falhas que são comuns à (e que nos fazem parte da) humanidade de uma “bonita” é a disposição em mexer nos ajustes disponíveis. A posterior publicação em redes sociais e a chuva de likes acompanham e reforçam esse comportamento.

Autenticidade editada e desvirtuada

É quase desnecessário dizer que isso tudo é extremamente artificial, mas é especialmente importante o reforço devido ao meio e a quem usa esses apps. Influenciadores que ascendem das redes sociais são vistos como pessoas comuns que “deram certo”, quase uma resistência à mídia mainstream que ainda hoje estampa modelos photoshopadas em capas de revista e maquiam pesadamente qualquer um que apareça na TV. Ou seja, mudam-se o meio, os personagens e os artifícios, mas perde-se a chance de fazer diferente — a artificialidade acaba mantida.

Tutoriais de edição de selfies no YouTube.

Já abordei esse mito da autenticidade em redes sociais num texto sobre o Snapchat. Apesar de focada nele, a crítica se estende a todas as outras redes sociais de formas menos ou mais consistentes, com adaptações de acordo com cada uma. As selfies editadas pelo Facetune se incluem aí. Vindas de quem vem, elas talvez sejam até mais danosas do que a contestada, mas aparentemente inescapável idealização da beleza pela mídia tradicional.

Esses influenciadores, dizem os gurus das mídias sociais, assim são chamados porque são gente como a gente, pessoas que se expõem do jeito que são, ou dizem ser. “São influenciadores autênticos!” Só que não são, porque essa autenticidade, se aplicada como prática, não como um fim (“olha só, eu não uso Facetune!!”), não traria o retorno que aqueles que recorrem a eles espera. E, mesmo que quisessem, o buraco é mais embaixo: o meio (a rede social) não permite distanciar-se muito da norma, não permite ser autêntico.

Posto em um questionamento, é o Instagram que está cheio de instagrammers photoshopadas (com Photoshop ou Facetune, tanto faz) como se fosse um acidente de percurso, ou as instagrammers photoshopadas que procuram e veem o Instagram como o lugar ideal para capitalizar em cima das suas selfies super produzidas?

Partindo disso, perdemos o lastro da realidade. Se “pessoas comuns” que se destacam em redes sociais e viram influenciadores se apresentam artificialmente e mesmo assim continuam como paradigmas da naturalidade, não sobra espaço para o que é natural. Cria-se uma situação parecida, talvez um exemplo até, do que o filósofo francês Jean Baudrillard chama de “hiper-realidade”, ou seja, a simulação de algo que nunca existiu. A pornografia, por exemplo, é uma hiper-realidade: ela mostra um sexo que não existe e, para muita gente, define um paradigma do que o sexo deve ser de fato; o ato em si, o sexo de verdade, se torna estranho nesse contexto. Reality shows, idem — aquelas pessoas não são comuns e não estão agindo como se não fossem observadas embora muitos telespectadores acreditem nessa premissa, de que elas representem a “realidade”. A hiper-realidade é percebida quando um fenômeno se descola da sua origem no real e passa a ser visto ele próprio como real. Na terminologia de Baudrillard, torna-se um simulacro.

Anúncio do Facetune no Instagram.Um anúncio do Facetune no Instagram (ao lado) diz: “Você já se perguntou porque (sic) os selfies dos seus amigos parecem tão bons?” Talvez um questionamento mais adequado seja se você já se perguntou por que as selfies dos seus amigos são tão… diferentes?

A hiper-realidade, se assim pudermos chamar, que o Facetune proporciona pode gerar angústia e uma urgência desnecessária por adequação, configurando um ciclo infinito que pode ser qualquer coisa, menos autêntico. O pior é que se compra essa bobagem, todos compramos. E é curioso como, apesar das distinções entre o belo e o real, o artificial e o natural, esses apps se mantêm absolutamente fiéis ao seu objetivo — que não é embelezar pessoas, mas sim maquiar a realidade.

  1. O último grande smartphone sem uma de que me recordo foi o primeiro Moto E.
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  • Excelente texto, Ghedin. Aprofundado o bastante para fugir do lugar comum mas sem se perder na linguagem rebuscada do academicismo.

    Fiquei com a impressão de ler um trecho de TCC de uma graduação que ainda não existe.

    Recomenda alguma leitura posterior?

    • Valeu, Vitor! O método (nada) científico do Manual é pautado por muita observação combinada com, quando possível, o respaldo de algum grande pensador. No caso, indico a leitura que embasou o argumento deste: Simulacros e Simulação, do Baudrillard. É um livro difícil, mas muito bom.

  • Genre, fiquei assustado com a alteração da imagem da menina. Todas as sardas sumiram, isso é meio assustador considerando a identidade visual.
    Me preocupa o fato desses jovens ainda estarem numa situação de construir essa baixa auto estima, não seria algo assim também?

    • É o velho problema do padrão de beleza, que vem de décadas, mas, antes, era culpa quase que exclusiva da mídia de massa. E, claro, isso tem um potencial enorme para afetar a auto-estima não só de jovens, mas de qualquer um que queira se sentir bem consigo mesmo e com sua imagem. Se já era ruim com a TV e as revistas ditando o que era bonito e feio, imagine com apps populares, redes sociais, os amigos e a própria câmera que, teoricamente, deveria ser um negócio neutro, reforçando esse discurso?

    • Amaranto Júnior

      Eu chamaria de desembelezamento.
      A foto original é infinitamente melhor.

      • tuneman

        pois é, ela estava tão gatinhas com as sardas.
        removendo elas ficou “normal” =/

        • D’ Carvalho

          homens adoram sardinhas

  • Amaranto Júnior

    Como sempre , texto excelente.
    Fotos manipuladas sempre existiram, mas não havia identidade da pessoa fotografada com o leitor (das revistas, no caso). Pegue qualquer revista. Os assinantes assinam pela revista, pouco importa quem nela saia.
    A internet criou essa disrupção, e não só em relação a isso, mas tbm tv, filmes, música etc. Eu escolho oq quero.
    Então, essas pessoas são verdadeiros ídolos de muitos q os seguem, servindo de espelho, oq acaba fomentando ainda mais oq sempre ocorreu em relação a busca do corpo perfeito, e os risco q isso traz.

  • eae, @ghedin:disqus, blz?

    bom, reforçando, o texto ficou ótimo, parabéns, padrão MdU de qualidade continua alto :)

    agora, sobre o app e seus poderes miraculosos e mirabolantes, das 2 uma:

    ou o app não é tão essas coisas assim, primeiro;

    segundo, Vasco, claro.

    e, por fim, ou vc é um estudo de caso já que o app deixou vc mais… hum, qual seria a palavra… desproporcionalmente belo que o original.

    :¬)

  • Mais um excelente texto, @ghedin:disqus . Me fez pensar muito em mais uma vez abandonar as redes sociais de fantasia, como o Facebook e Instagram, que nos vendem micro-momentos mágicos adoçados com filtros. Às vezes eu rolo a linha de tempo e fico imaginando como as pessoas podem ser tão felizes, como a vida delas é tão cheia e glamourosa. Sério, tirando as fotos de bobeiras, me sinto um pouco mal.
    Por isso, meu reduto tem sido cada vez mais o Twitter, site notadamente usado para despir-se da pseudo alto estima e tentar passar um lado não tão sofisticado assim (bem, pelo menos em tese). Não é a toa que é a única rede que não faço questão de colocar uma foto minha no perfil (apesar de ter algumas publicadas lá).

    • O Twitter tornou-se minha rede social preferida justamente por isso. Lá, a maioria pelo menos, não tem foco demasiado em passar uma imagem refinada de si mesmo.

      • Vagner Alexandre Abreu

        Vejo o contrário, o foco é justamente passar uma imagem de “descolado”. E isso em excesso.

    • Vagner Alexandre Abreu

      O Twitter me parece um ambiente recheado de ironia, preconceitos e contra-preconceitos expostos (pelo que vi).

      O problema, seja no Twitter, Facebook ou qualquer outro lugar é o que seguimos ou vemos.

      • “ambiente recheado de ironia, preconceitos e contra-preconceitos expostos ”
        A vida não é assim também?

        • Vagner Alexandre Abreu

          Depende de como as pessoas vivem suas vidas. Via de fato, estou procurando ser adepto da frase: “a ironia nos tiraniza”. Ou seja, procuro refutar o uso de ironia, sarcasmo e similares.

          Quanto a preconceitos, sei que é algo muito mais profundo.

          Em resumo, prefiro a vida mais “polida” em outras redes sociais, do que uma rede social mais “realista”. Prefiro buscar que a realidade seja mais suave do que agressiva.

  • R_Martell

    Texto muito bom.
    Essa parte de hiper-realidade me lembrou algumas critcas que o Gilles Lipovetsky faz a modernidade atual.

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