RoG Phone, o smartphone gamer da Asus.

O único diferencial de smartphones gamers é uma estética duvidosa

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6/6/18, 15h29 4 min Comente

A Asus anunciou um smartphone gamer na Computex 2018, em Taiwan. O RoG Phone representa a miniaturização da abordagem já existente em computadores e notebooks gamers, ou seja, traz a mesma estética e a promessa de desempenho acima da média. Há espaço para algo assim no segmento de smartphones?

Não é a primeira vez que uma empresa aposta neste nicho. Em 2017, a Razer lançou seu (elogiado) smartphone com base no Robin, da startup Nextbit. A Xiaomi, chinesa que deve abrir capital até o fim do ano, mostrou o seu Black Shark em abril de 2018. Na plataforma de financiamento coletivo, a Red Magic de Hong Kong já arrecadou 240% a mais do mínimo para materializar seu aparelho homônimo.

Como todo smartphone Android, há mais similaridades do que diferenças entre os ditos gamers. Todos usam o chip mais poderoso da Qualcomm (Snapdragon 845, no momento), têm até 8 GB de RAM, memória de sobra, telas enormes e um Android recente.

Não por acaso, essas mesmas características também são quase todas comuns a smartphones sem uma grife gamer, os Galaxy S9 e demais topos de linha. Na prática, a mesmice significa que alguém com um RoG Phone não terá gráficos mais bonitos, gameplay mais rápido ou qualquer outra vantagem significativa em relação a, sei lá… um sóbrio e discreto Xperia XZ2, por exemplo.

Black Shark, o smartphone gamer da Xiaomi.
Black Shark, o smartphone gamer da Xiaomi. Foto: Xiaomi/Divulgação.

O RoG Phone vem com um Snapdragon 845 “tunado”. Em vez de rodar a 2,8 GHz, como todos os demais, ele vai a 2,95 GHz, um pequeno salto que na hora de rodar algum jogo não fará milagres, até porque não há jogo para Android capaz de cansar o chip da Qualcomm em sua velocidade padrão. De acordo com dados do Geekbench, o ganho na frequência tampouco deve ser capaz de colocar o chip acima do A11 Bionic da Apple que equipa os iPhone 8, 8 Plus e X — definitivamente smartphones “não gamers”, mas que rodam suave qualquer jogo disponível na plataforma.

Computadores se beneficiam do grau maior de diferenciação que a cadeia de componentes oferece. Há espaço para notebooks gamers porque os jogos exigem mais e o mercado está inundado de notebooks “não gamers” em sentido literal, ou seja, modelos que cumprem bem as rotinas do grande público e que são péssimos para jogos. Em smartphones, não há essa margem. Os componentes são os mesmos nos gamers e nos “não gamers”.

A única vantagem real e distinta deles, presente no RoG Phone e do Razer Phone, é a taxa de atualização da tela, de 90 Hz. Algo interessante, mas marginal. Fora isso, são smartphones convencionais com uma casca grossa de estética gamer.

Ah sim: isso também funciona como diferenciação, talvez a única real. Smartphones gamers têm designs agressivos cheios de linhas duras, temáticas e nomenclaturas que remetem à guerra e as espalhafatosas luzes RGB — todo o pacote kitsch típico do famigerado “gamer hardcore”. Eles também trazem acessórios, dos que aparentam alguma utilidade como controles acopláveis com botões físicos (algo que o iPhone e algumas linhas Android, como Moto Z e Galaxy S, também oferecem) a outras absolutamente sem sentido, como um ventilador (?) que o usuário pode grudar nas costas do RoG Phone para supostamente resfriá-lo.

Smartphone da Razer no detalhe.
Razer Phone. Foto: Razer/Divulgação.

De qualquer forma, faz sentido o investimento em agradar ao público gamer. Afinal, trata-se de uma indústria que deve gerar US$ 137,9 bilhões em 2018 sendo 51% desse consumo em dispositivos móveis, segundo dados da consultoria holandesa Newzoo. Sucessos estrondosos de videogames e computadores, como PUGB, Fortnite e Minecraft, migraram com sucesso para as telinhas dos smartphones. E títulos originais, como Angry Birds, Candy Crush e Clash of Titans, mostram há bastante tempo a enorme demanda para jogos casuais que geram dinheiro de verdade.

Se, no sentido comercial, criar um smartphone brucutu com cara de mau faz todo o sentido, do ponto de vista do consumidor o benefício não é tão óbvio ainda. Prova disso é que alguém que queira o melhor desempenho em jogos mobile estará melhor servido por um iPhone do que por qualquer desses gamers.

Foto do topo: Asus/Divulgação.

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