Dois bonecos vintage dançando num fundo verde.

Tinderização do sentimento

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26/1/16, 9h59 10 min 7 comentários

Nota do editor: ano passado publicamos um texto em defesa do Tinder. Havia sinais, ou melhor, casais formados pelo app apontando para um uso melhor frente às incontáveis reclamações sobre a maneira negativa com que o app supostamente afeta os relacionamentos. Este outro, publicado na The New Inquiry e agora traduzido e republicado no Manual, serve de contraponto. Porque, apesar dos casos de sucesso, alguns destacados pelo próprio Tinder em seu site oficial, eles não são uma regra. Talvez sejam até exceções. Deixo a discussão em aberto.


Os mecanismos binários do Tinder podem ser um modelo para todo um modo de vida no qual tudo é uma opção e o processo se torna mais atraente que a escolha.

Viver com uma sensação de sobrecarga de escolhas significa fazer uma força emocional descomunal na tomada das decisões mais banais. O que assistir na Netflix essa noite? Posta no Facebook pedindo por recomendações. Pergunta aos seguidores do Twitter. Depois de refletir por uma hora, resolve confortavelmente assistir a Seinfeld, já visto e revisto um milhão de vezes. Enquanto isso, se pergunta se foi uma má escolha. Faz igual, de qualquer forma. Há algum conforto na mesmice.

Se o ato mundano de escolher um programa para assistir na TV é emocionalmente penoso, relacionamentos são um problema de um nível superior. Mas os millennials têm a solução: Tinderizar. Tinderizar tudo.

Numa sociedade cada vez mais interligada, onde as pessoas estão sempre prontas para se conectar, o ritmo da intimidade emocional precisa ser constantemente ajustado. Apps de encontros facilitam a conexão rápida e a constante comunicação, mas confiar em alguém ainda exige o tempo que sempre exigiu. Então o Tinder exige uma certa dose de dissociação emocional — distanciar-se das emoções ao tratar a conexão com os outros como um jogo. O único critério é escolher e escolher rápido, escolher quantos tantos se queira, escolher tantos que você acaba sequer fazendo alguma escolha. Essa simplicidade pode proporcionar um doce alívio.

Mas o Tinder é mais do que um aplicativo de encontros — é uma metáfora para acelerar e mecanizar a tomada de decisão, tornando-nos criaturas binárias, capazes de evitar questões e emoções subjacentes e, em vez disso, optar por qualquer coisa que pareça muito boa naquele momento. Esse mecanismo aperfeiçoa a opção similar “esse-ou-aquele” que outras plataformas de mídias sociais têm oferecido, as dicotomias do “sim/não”, “curtir/ignorar”, “retweetar/passar” que não deixam espaço para o “talvez”. De dentro do Tinder, classificamos uns aos outros como 1 ou 0, nivelando qualquer complexidade humana, tornando-nos eficientes robôs. Onde um melhor amigo poderia conversar contigo a respeito das verdadeiras motivações por trás das suas escolhas, o Tinder serve como um melhor amigo robótico que está lá para fazer as decisões complexas parecerem fáceis, tosadas do envolvimento emocional.

O Tinder oferece um modelo para agilizar virtualmente qualquer tipo de tomada de decisão, mas a agilidade extorque seu valor. Deslize para a direita e “match”, então “match” novamente e, então, você percebe que recebeu 15 “matches” em cinco minutos e poderia continuar nesse caminho indefinidamente. É demais.

No ponto de máximo estímulo social e tecno-sexual, uma retirada total — total desconexão em meio à conectividade padrão — começa a parecer o único jeito de realmente dizer não. Essa forma tímida de evasão não é sobre “bancar o difícil”, é sobre preservar a sanidade em face de tanta conectividade e energia emocional. Mas essa negativa se parece não apenas com um desligamento dos outros, mas também de si mesmo.

Tinderizar é a versão millennial de distanciar-se. A vulnerabilidade amedronta e é potencialmente perigosa. O imediatismo é confortável e seguro. Evitar confrontos, muitas vezes na forma de “ghosting”, se torna um substituto para o relaxamento. Se você não dá um retorno sobre um segundo encontro, uma ligação tarde da noite para uma transa rápida ainda pode ser uma possibilidade — outra forma tinderizada de intimidade. Deslize para a direita, match, encontro, sexo, des-match, re-match, repita.

Como qualquer exposição ao Tinder ensina, nada importa a não ser que você queira que importe. Essa é frase a ser lembrada quando as coisas ficam esquisitas, e para repetir ao seu amigo enquanto vocês usam juntos o Tinder, conhecendo os matches um do outro, lendo as conversas um do outro e compartilhando antes de responder, e conversando, sempre conversando por mensagens.

Ausentar-se da intimidade em potencial é sair-se como “descontração”1, um estado cultivado na era da Tinderização generalizada. “A paixão é polarizadora; entusiasmar-se ou animar-se é decididamente obsessivo”, escreve Alana Massey no Medium. O conceito de Descontração racionaliza o egocentrismo como um subproduto aceitável de se ter muitas escolhas. Permanecer descontraído é deixar pra lá e não responder mensagens por dias por estar recebendo muitas delas. Existem relacionamentos demais para se gerenciar e não sobra energia para cuidar da relação consigo mesmo. Como Massey escreve, “‘Descontração em excesso’ é ‘cada um por si’ levado às últimas consequências, dando valor igual às opiniões e interesses de todo mundo, desde que eles sejam autenticamente os nossos.”

A Tinderização facilita a descontração. Mas ela consegue isso através do esgotamento tanto quanto da saturação. Muitas escolhas resultam em pouca energia.

Os expoentes por excelência dessa descontração via Tinder são o Softboy e o Fuckboy. Em Você já encontrou o Softboy?, Alan Hanson explica esses tipos: “O Fuckboy fica perplexo que você esteja com raiva quando ele esquece de te mandar uma mensagem por três dias, e então manda um ‘quais são seus planos pra hoje?’ em cima da hora. O Softboy sabe que esse comportamento é cruel e egoísta, embora seu desejo de transar seja mais forte. Ele se envergonha. Ele faz a mesma coisa de novo.” Chame a atenção de um Softboy por não responder suas mensagens e ele oferecerá uma explicação sobre as coisas pelas quais ele está passando, que ele se importa muito com você, mas você “o está estressando”. Chame a atenção de um Fuckboy e ele te dirá para “relaxar” ou “se acalmar”. Mas ambos estão te dizendo a mesma coisa.

Isso não significa dizer que a descontração está limitada a tais homens; pessoas de qualquer gênero podem agir assim. O único requerimento é que não se reconheça a atitude como tal. Ser descontraído é ignorar sem intenção, não por uma escolha, mas porque não se tem energia emocional para responder a todos. Quanto mais se usa o Tinder, mais aparentemente descontraído alguém se torna. Mas, na verdade, estamos apenas sobrecarregados por rostos por trás de telas, com a objetificação em série e a evasão passiva. Longe das telas, a descontração se parece menos com descontração e mais com um triste desejo de que as pessoas fossem mais robóticas, sem necessidades ou sentimentos, hermeticamente autorrealizadas e autorrealizáveis.

A descontração não está, de forma alguma, limitada ao Tinder. A Tinderização de Tudo ocorre quando adotamos as estratégias de lidar do Tinder e as usamos com qualquer um ou qualquer coisa que apareça em nossas redes. Ao maximizar a conectividade e a exposição à rede, garantimo-nos que temos opções demais para fazer qualquer coisa diferente de sim/não, esquerda/direita, like/pular, retweetar/ignorar, 001010011010111 e continuar rolando a tela. Apenas um curtir, ou um retweet, ou um match nos dá a pausa para aproveitar as pontadas de prazer, que vão embora assim que você para de atualizar as notificações.

A Tinderização de Tudo nos atrai para uma Descontração Épica, o ponto do ignorar constante. O imediatismo de cada dose de dopamina substitui a busca por conexões mais complicadas e envolvimento. Um match no Tinder começa a ser sentido tal qual uma curtida no Facebook, ou o retuíte no Twitter, ou o som de uma mensagem de alguém legal com quem se quer falar — ou mesmo de alguém com quem não se queira falar, mas que esteja lhe dando atenção. Neste ponto, a Tinderização completa aconteceu e absolutamente nada parece significativo — nem mesmo a dopamina. Nos sentimos drenados.

A epítome da Descontração é ignorar a todos, menos a si mesmo. Tinderizar Tudo totaliza o processo. A Tinderização toma a forma de decisões delegadas à comunidade, tal qual o app Jyst tenta ajudá-lo a fazer, ou as decisões da vida real, como o artista Marc Horowitz apresentou no projeto O Conselho dos Estranhos, no qual ele obedeceu a uma comunidade anônima online. Similarmente, o app Free torna o processo de encontrar com os amigos ainda mais passivo do que criar um evento no Facebook. Ele permite aos usuários dispensar os eventos antes mesmo deles acontecerem.

O app Twindog, lançado em dezembro de 2015, oferece aos donos de cachorros um jeito de encontrar outros donos de cachorros usando o mecanismo do Tinder. Sem mais socialização nas praças, basta deslizar para o lado para encontrar um cachorro alma gêmea! Esqueça quaisquer instintos caninos que determinam se um cachorro vai gostar de outro quando o dono está usando o app. Instintos podem ser suprimidos.

A Tinderização pode superar relacionamentos românticos, e, se você fica preso nessa lógica, é possível se pegar vivendo em uma existência sim/não, descontrair/ignorar, 0110101011. Você se pegará por horas na Amazon ou no Yelp, procurando pelo aspirador de pó perfeito ou pelo melhor restaurante japonês na região, sem vontade de escolher, porque mais à frente poderá haver uma opção melhor no fluxo das informações.

Só se pode sair da Tinderização ao incluir seu melhor amigo, sua comunidade ou um grupo de amigos mais confiáveis no processo. Ao te chamar para discutir as complexidades emocionais das conversas que se está tendo e os sentimentos que emanam da tela do smartphone, esses salva-vidas te forçam a reconhecer que as complexidades são bem-vindas — necessárias no processo de conhecer bem uma pessoa. Estar livre da complexidade é não ter limites emocionais, é dispensar qualquer um a qualquer momento. Melhores amigos te salvam das suas bobagens. Eles são seu coração e eles transcendem qualquer eficiência que o Robô-Amigo da Tinderização tenta te oferecer em sua fantasia binária.

O Tinder não precisa levar à Tinderização. O Tinder pode servir como uma forma de verificar uma conexão em vez de criá-la do nada. Dar “match” com alguém de quem já se sabe alguma coisa, sobre quem já se tenha algum contexto, pode confirmar e enriquecer a sobreposição de círculos sociais e criar novas complicações. Neste caso, o Tinder está apenas facilitando o seu primeiro encontro. Você tem um tipo diferente de responsabilidade emocional. Esse tipo de coincidência tem mais a ver com a Ternurização de Algo do que com a Tinderização de Tudo. Uma faísca transformada em uma bela e lenta chama.


Publicado originalmente na The New Inquiry em 14 de janeiro de 2016.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Revisão por Guilherme Teixeira.

  1. Nota do tradutor: Do Inglês “chill”. Comportamento calmo e relaxado, sem compromissos ou obrigações. Recentemente ganhou outra conotação na expressão “Netflix and chill”, uma espécie de eufemismo para sexo casual.
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  • Cai mais uma vez naquela necessidade, hoje urgente, de filtrarmos mais a informação que recebemos. Acho que a falta de uma certa responsabilidade e de interesse em querer um contexto mais sólido por detrás do uso dessas ferramentas de interação, mesmo que para nós mesmos, acarreta nessa robotização do ser e do sentir. Não somente nós na sociedade, mas também na nossa vida privada e individual.

  • Juscelino Kubitschek

    Meu resumo sobre o texto: saudosismo.

    1) Entendo gostar de como as coisas eram ou não gostar de como as coisas estão mudando, eu mesmo sou absurdamente saudosista em várias coisas, mas é preciso aceitar que, se fez sucesso e continua firme e forte depois do hype, é por que é bom para a maioria. E se é bom para a maioria, a minoria escreve textos saudosistas.

    2) Exigir uma interação mais profunda em um aplicativo onde você escolhe alguém pelo rosto é querer ler a receita depois que você pede o prato;

    3) O problema jamais está na ferramenta, mas nos seus usuários. O Tinder (e afins) funcionam conforme as pessoas querem usar. Seja bem vindo ao ser humano em seu estado evolucionário atual.

    • O texto não fala de saudosismo, tanto que termina sugerindo o uso do Tinder — de um jeito específico, mas favorável à tecnologia. Sucesso ou hype ou qualquer medida de popularidade não é parâmetro para qualidade. Refrigerante é mega-popular, mas é algo que só faz mal ao organismo, por exemplo.

      Encarar a ferramenta como algo neutro é um erro fundamental. Nunca é. Poderia citar os experimentos do Facebook com o feed de notícias para fechar num exemplo extremo, mas mesmo o Tinder, com sua dinâmica de cartões deslizáveis, mexe com o comportamento do usuário. Algoritmo não é neutro, design de interface, tampouco. É preciso superar essa ideia porque ela não beneficia ninguém exceto as empresas que criam esses softwares.

      A respeito disso, aliás, recomendo este ensaio: https://aeon.co/essays/if-the-internet-is-addictive-why-don-t-we-regulate-it

      • Juscelino Kubitschek

        Não, Ghedin:

        1) Sucesso é sempre parâmetro de aceitação. Qualidade é sempre subjetivo;

        2) Todo produto é isento de responsabilidade quando seu uso é facultativo. É querer culpar o carro quando alguém dirige bêbado. É querer culpar o BBB por ter audiência. É querer culpar o Tinder pelo comportamento das pessoas.

        3) A Internet é o melhor exemplo de que existe somente aquilo que as pessoas querem que exista. O que não tem demanda não tem oferta.

        • Concordamos no primeiro ponto — sucesso é diferente de qualidade. Quanto aos demais, não. Isentar um aplicativo, produto ou serviço de intenção apenas por ele ser não ser obrigatório é relevar e subestimar o poder que essas coisas podem exercer em nós. Ninguém tem o discernimento absoluto em todas as áreas da vida, logo, é preciso que haja algum controle e/ou vigilância no sentido de coibir abusos.

          De qualquer forma, é um assunto complexo mesmo, daí a ideia de trazer um ponto de vista oposto ao que já existia aqui no Manual.

          • CEGMont

            Concordo com as palavras do Ghedin…

  • CEGMont

    Gostei muito do último parágrafo, embora tenha achado o texto muito longo para o tema, mas isso é apenas minha impressão.

    Testei o Tinder por 2 meses, tal como já testei outros 12 apps de paquera. Todos eles foram pro saco. O Tinder tem um excelente diferencial: é adotado por pessoas com o mais variado perfil e por isso tem um publico mais diversificado e também maior.

    Minha opinião sobre a função do Tinder, que é a de aproximar pessoas, não muda em relação aos outros apps. O Tinder por sua vez faz uso dos recursos do telefone, com menos botão, facilita o “match”. Acho que o Ghedin disse algo nesse sentido no seu post sobre o app.

    Minha opinião sobre o uso do app e também sobre a tinderização do sentimento, eu acredito que o tanto esse como os demais apps somente acompanharam a “evolução” do modo como as pessoas vinham se relacionando, com um pé no mundo virtual e outro no real: não existe demora; é possível “se comunicar” com várias paqueras ao mesmo tempo sem julgamento em contrário; não é preciso falar muito sobre si para estar na ativa…. enfim… dentre outras “facilidades”.

    Eu gostei da critica feita ao modo como utiliza-se o Tinder, mas com as minhas ressalvas. Gostei do fato de que as autoras destacaram que os casos de “sucesso” não são a regra. Na verdade acho que foi o Ghedin que introduziu essa ideia e elas o desenvolveram no texto. Eu acredito que sucesso é um termo relativo aqui. Ponto.

    Enfim… Acho, que, se tudo que uma pessoa tem a oferecer, emocionalmente falando, pode ser tinderizado, então, que se faça. Penso que no futuro as pessoas já terão seus pares escolhidos antes mesmo de se tornarem adultas. Loucura. Mas é o que penso. O menos já é alguma coisa. E nos dias atuais, menos tem se provado ser mais. Viajei. Mas é bem isso.

    PS: Vale assistir ao primeiro episódio do documentário Chelsie Does, disponível no Netflix. Nesse, cujo temo é Casamento, Chelsie entrevista vários casais norteamericanos. Um deles afirma terem se conhecido no Tinder. E o casal diz algo como “nos conhecemos da maneiras mais clichê pros dias atuais: por meio de um aplicativo de paquera.” (não foram exatamente essas as palavras, mais foi algo assim.)