Comportamento com URLs do Chrome Canary 36.

O Google quer transformar a URL em um botão — e isso não é ruim

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7/5/14, 9h50 6 min 4 comentários

Uma das bases da web é a URL, ou URI, aquele endereço precedido por um http://www. que identifica páginas e permite a mágica do hiperlink. Nesses 25 anos já declararam a morte da web, vimos alguns navegadores dominarem as estatísticas de uso ao redor do mundo e a interface deles mudar radicalmente, da prosaica do Mosaic à minimalista do Chrome, hoje ditadora de regras. Ainda em estágio de experimentação, a provável próxima mexida do Google na forma como navegamos tem inflamado alguns ânimos mais puristas: querem simplificar a URL.

A proposta surgiu no canal Canary do Chrome, uma versão anterior à Alpha, geralmente cheia de bugs e desaconselhada a qualquer um que não tenha interesse em caçar problemas e relatá-los ao Google. Nela, é possível ocultar a URL. Como? Digite chrome://flags/#origin-chip-in-omnibox na barra de endereços e habilite a opção “Ativar o chip de origem na omnibox”.

“Ocultar” talvez seja um termo errado; o que essa opção faz é transformar o domínio em um botão e sumir com o que vem depois do TLD.

O caminho até o fim da URL

Screenshot do Safari Mobile com um post do Manual do Usuário aberto.
Safari no iOS 7.

Entre o público técnico a novidade caiu como uma bomba. Um dos desenvolvedores do Google que trabalham nela, Paul Irish, escreveu em um tópico do Hacker News que é contra a mudança. “Minha opinião pessoal é de que essa é uma mudança muito ruim e que vai contra os ideais do Chrome”. Em blogs, fóruns e no Twitter, vimos reações similares.

Acabar com a URL é, de certa forma, acabar com a web. Seria loucura até mesmo propor algo assim, por isso é importante esclarecer que o novo comportamento experimental do Chrome não visa exatamente exterminar os endereços dos sites, mas sim ocultar o que sobra para além do domínio. Esse continua sendo exibido e, com um clique, revela a URL completa — vide a montagem que abre este post.

De certa forma, é mais uma etapa do processo de humanização da URL, processo esse que já vem ocorrendo há alguns anos. Primeiro, os principais navegadores ocultaram o protocolo: você não vê mais http://, salvo quando é uma página criptografada. Depois, o Opera passou a remover parâmetros; em vez de exibir manualdousuario.net/?s=celular em uma busca aqui, por exemplo, ele só vai até a barra. Entre idas e vindas, esse comportamento voltou agora como padrão no recém-lançado Opera 21. No iOS 7, o Safari Mobile passou a exibir apenas o domínio no campo de endereços após carregar a página. O próximo passo, pois, é levar esse comportamento para os desktops, eliminando parâmetros e reforçando o que importa ao usuário: o domínio.

Como meros mortais (não) lidam com a URL

Imagem clássica de menino surfando na Internet.
Imagem: DA INTERWEBZ.

Você deve ter entendido bem o início deste post, mas mostre-o a alguém menos ligado a tecnologia, que não acompanha o Manual do Usuário ou outro site do gênero. Pergunte se termos como URL, TLD, domínio e aquele endereço esquisito significam alguma coisa. É bem provável que não.

Desde que Chrome e Firefox mudaram as barras de endereço para que elas atuassem também como campo de busca, um comportamento que antes era motivo de risadas se estabeleceu: as pessoas usam o Google como intermediário para os sites que visitam regularmente.

Parece insanidade escrever “facebook” e clicar no primeiro resultado do Google. Racionalmente é difícil justificar, mas muita gente faz isso na prática. Quando não, digitam “face” e o autocompletar do navegador preenche o resto. É meio que consenso que pulamos de página em página e que cada uma tem um endereço único, mas mesmo quando são semânticos, como os do Manual do Usuário, é raro prestar atenção ao que elas dizem. Botões sociais e navegadores móveis diminuíram a necessidade de copiar e colar a URL na hora de compartilhá-la com os outros. De qualquer forma, para desenvolvedores, gente que produz conteúdo, todos aqueles a quem o acesso à URL é imprescindível, ela continua lá.

A proposta do Google meio que adapta a realidade ao navegador. Ela não altera o funcionamento da barra de endereços; ela continua igual à atual. O que muda é a apresentação. Afinal, o conceito de URLs, um dos mais antigos ainda vigentes na tecnologia de consumo, nunca foi muito amigável a despeito da sua importância vital, como colocou Allen Pike:

“Eu sei que as URLs são feias, difíceis de lembrar e um pesadelo para segurança.”

É óbvio que o Google quer, com isso, também incentivar ainda mais o uso do seu buscador, mas além de adequar seu software ao comportamento da maioria, há outros ganhos para os usuários na abordagem proposta. Ataques do tipo phishing que replicam páginas com URLs diferentes, por exemplo, sofreriam uma baixa considerável – menos gente inseriria dados em uma cópia do Itaú se, em vez de itau.com.br, aparecesse um endereço russo no botão de domínio do futuro Chrome.

Não se sabe ainda se essa mudança chegará ao canal estável do Chrome. Desde que foi lançado, o navegador do Google se destacou pelas mudanças drásticas e foi graças a elas que se estabeleceu, tirou a hegemonia do Internet Explorer e relegou o Firefox ao terceiro lugar na guerra dos navegadores.

Se acontecer de mudar, porém, não vejo motivos para desespero, protestos ou coisas do tipo. A tecnologia de consumo avança a passos largos e, normalmente, quem se apega muito a convenções fica para trás. Quem imaginaria, há dez anos, que a Microsoft seria coadjuvante no segmento de sistemas operacionais, que a Symantec desistiria dos antivírus e que o celular seria a plataforma número um de acesso à Internet entre os mais jovens? Tudo isso era passível de internação no manicômio. Mas aconteceu, e se tais guinadas nos ensinaram alguma coisa é de que dá para esperar qualquer coisa desse universo.

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  • uli

    O yandex browser manda lembranças.

  • Helio Almeida

    Não entendi o exemplo do Itaú, poderia explicar melhor?

    • Alguns vândalos digitais clonam páginas de instituições bancárias e as hospedam em outro site. Ao entrar, o usuário se depara com tudo do jeito que está acostumado e um “itau.com.br” em qualquer lugar na URL — por exemplo, http://www.sitemalicioso.com/itau.com.br/. É aí que o golpe se materializa: em vez de se autenticar no banco, essa página clonada envia os dados bancários para quem a programou.

      Nessa implementação do Chrome, o golpe seria minimizado porque, ao entrar, o usuário veria sitemalicioso.com.br no botão da URL, e não itau.com.br, como seria o correto.

  • A ideia é no mínimo interessante.

    Não sinto muita falta da URL, e a opção de deixar ainda mais claro o domínio onde estou e aumentar a minha sensação de segurança com certeza vale a pena.

    Pela proposta apresentada não entendo o porquê do grande mimimi do pessoal. Como você mesmo comentou, Ghedin, poucos dão real atenção ao que nos é apresentado nessa famosa barra.