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A nova fronteira do movimento libertário: colonizar os oceanos

Em busca de uma sociedade mais livre e sem a interferência do Estado, instituto norte-americano quer criar países sobre plataformas flutuantes

  • Breno Baldrati
Exemplo de protótipo criados para o Seasteading Institute |
Exemplo de protótipo criados para o Seasteading Institute
 
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A nova fronteira do movimento libertário: colonizar os oceanos

Cansado de viver num país onde um procurador quer suspender a venda de brinquedos em redes de fast-food? Onde não cabe ao dono do estabelecimento decidir se permite ou não o fumo no recinto? Onde o voto é obrigatório? Acha que os avanços da liberdade individual são tímidos e demorados? Quem sabe seja a hora de conhecer a empreitada liderada por Patri Friedman, fundador do Seasteading Institute, na Califórnia, e entusiasta de uma ideia que parece ter saído dos livros de ficção científica: criar milhares de países-flutuantes, livres para estabelecer suas próprias formas de governo.

Neto do Prêmio Nobel de Economia Milton Friedman, um dos maiores pensadores do movimento libertário americano, Patri, de 32 anos, está levando os ensinamentos de seu avô a um novo estágio. Ele diz acreditar que é preciso criar um mercado competitivo para governos. E a melhor forma de fazer isso, argumenta, é pela colonização permanente dos oceanos.

“Eu penso o governo como uma indústria que fornece serviços para cidadãos e empresas. Uma indústria pouco competitiva, porque é muito difícil começar um novo país. Como todos os territórios já estão ocupados, você precisaria vencer uma guerra, ou uma eleição, ou fazer uma revolução para começar um novo governo”, disse ele em entrevista à Gazeta do Povo, por telefone. Como as três últimas opções parecem ser pouco realistas para um grupo relativamente restrito de libertários, o melhor caminho, e inclusive mais barato, diz Friedman, é o desenvolvimento de tecnologias que permitam a criação de cidades-estados na única área que resta livre de governos: os oceanos.

Para explicar melhor como novas e melhores formas de governo poderiam emergir no alto-mar, ele faz uma analogia com multinacionais. Empresas constroem novas fábricas e escritórios em diferentes países, dependendo dos incentivos que recebem – impostos baixos, por exemplo. Mas enquanto há uma competição por empresas, o mesmo não ocorre por cidadãos. “Acho que isso se deve à falta de mobilidade das pessoas. Para uma empresa é relativamente fácil, hoje, se mudar para outro país. Mas para pessoas é muito mais difícil. Alguns países não te deixam entrar, outros não te deixam sair. Fora o custo financeiro e emocional, que também é alto.”

Com o projeto de criar plataformas flutuantes, em que as cidades poderiam ser construídas de forma modular e, dependendo da vontade do cliente, prédios inteiros deslocados para outros lugares, “você poderia mudar de país sem mudar de casa”. Essa mobilidade sem precedentes forçaria uma competição também sem precedentes entre governos, diz Patri. “A gente pensa um novo país também como modelo de negócios. Se você começa um país e faz bom trabalho em atrair empresas e cidadãos, servindo às necessidades de ambos a um custo baixo, então esse país vai fazer dinheiro. Você forçaria governos a testar novas instituições e a criar melhores lugares para se viver.”

História

Em 2001, Patri conheceu o engenheiro Wayne Gramlich, um libertário fã de ficção científica e ex-funcionário da Sun Microsystem. Pouco tempo antes disso, Gramlich havia se apaixonado pelo projeto Oceania, um plano para a criação de um novo país numa ilha artificial no Caribe. “Oceania tinha um monte de fotos legais, um conceito de arte, mas era isso”, disse ele à revista Wired. O engenheiro passou a estudar meios de aprimorar a ideia, também de forma mais barata – o Oceania naufragou por falta de investimento. Ele formulou uma solução com garrafas pets de dois litros que seriam usadas para sustentar uma plataforma flutuante e postou o projeto na internet.

Foi pela web que Patri tomou conhecimento das ideias de Gramlinch. Os dois descobriram que moravam perto um do outro e passaram a se encontrar. No ano passado, o ambicioso plano de viver livre no meio do oceano começou a se tornar realidade. Eles criaram o Seasteading Institute (a ideia das garrafas foi posteriormente descartada, porque Gramlich teria subestimado o poder das ondas em mar aberto). O instituto recebeu um financiamento de US$ 500 mil do milionário Peter Thiel, cofundador do PayPal, empresa de transações financeiras online vendida para a Ebay em 2002 (Thiel teria recebido US$ 55 milhões na venda).

Futuro

O primeiro teste prático do Seasteading ocorrerá em outubro, na baía de São Francisco. O instituto planeja testar pequenas plataformas flutuantes. Independentemente de como o projeto evoluir, Patri diz que com certeza ele vai começar pequeno. Antes que comunidades inteiras passem a viver nos oceanos, primeiro serão criadas pequenas plataformas, tamanho família, que serão “ancoradas” próximas da costa.

Patri é o primeiro a admitir que a ideia toda soa como uma maluquice. Os desafios são enormes, da segurança contra ataques de piratas e de outros países à própria logística de viver sobre a água. No momento, uma das maiores preocupações de Patri é de criar um modelo de negócio sustentável. “Não acredito num modelo de negócios que dependa do infringimento da soberania de outros países, porque eles podem ir lá e acabar com tudo. A ideia, no início, é não irritar outros países.”

Ele vê duas vantagens comparativas para o Seasteading. Um é o fato de eles estarem no oceano. A aquacultura, cultivo de organismos áquaticos, por exemplo, pode ser um bom negócio. O outro é o fato de terem pouca regulamentação de mercado. “Quase qualquer negócio pode se beneficiar em um ambiente pouco regulamentado. É por isso que empresas abrem negócios em lugares como Hong Kong. A pergunta é: quais negócios podem se beneficiar o suficiente da pouca regulamentação para pagar o custo extra de viver no oceano? O meu favorito no momento é o turismo médico. Há um enorme mercado mundial de pessoas viajando para outros países, como Tailândia, Índia e Panamá, para receber procedimentos médicos mais baratos. Já sabemos que as pessoas estão dispostas a viajar e confiar em médicos de outros países para receber tratamento médicos. Então isso é algo que a gente poderia fazer. Você entraria num navio em San Diego, por exemplo, viajaria cerca de 12 milhas em águas internacionais, faria o procedimento médico e voltaria.”

Mesmo que a utopia não passe disso, ninguém pode negar que Patri Friedman está tentando construir um mundo mais livre. Seu avô ficaria orgulhoso.

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Interatividade

A colonização dos oceanos pode criar formas mais atraentes de governo?

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