Multirracial, Universidade da Cidade do Cabo discute os prós e contras da política de cotas para negros e mestiços | Per-Anders Pettersson / The New York Times
Multirracial, Universidade da Cidade do Cabo discute os prós e contras da política de cotas para negros e mestiços| Foto: Per-Anders Pettersson / The New York Times

Beneficiados

Estudantes pobres são os maiores defensores de política afirmativa

Os defensores mais eloquentes das preferências raciais são estudantes de origem bastante desprovida. Sem a ação afirmativa, Lwando Mpotulo, 23 anos, jamais teria sido admitido para estudar Medicina aqui. A mãe dele morreu quando Mpotulo tinha 15 anos e seu pai era desempregado durante grande parte de sua infância. Ele frequentou a escola em Khayelitsha, um distrito negro com meio milhão de habitantes, 24 km e a um mundo de distância do centro abastado da Cidade do Cabo. Mpotulo morava ali numa casa minúscula e precária, que muitas vezes não tinha energia elétrica.

Suas notas no exame nacional do ensino médio – C em Ciência, Biologia e Inglês, B em Matemática e A em Xhosa, sua língua materna – foram muito mais baixas do que os A que os alunos brancos devem obter, mas um feito extraordinário num distrito onde muitos poucos se qualificam para a admissão à universidade.

Mpotulo estava na Cidade do Cabo quando recebeu a notícia de sua admissão e correu, radiante, até o campus da Faculdade de Medicina. Mas seus primeiros dois anos foram de insucesso humilhante. "Me senti muito menor", disse, com tristeza.

Mpotulo nunca tinha tido um professor branco antes. Até mesmo seu professor de Inglês do ensino médio muitas vezes falava Xhosa nas aulas. No entanto, a universidade lhe ofereceu instrução extensiva e especializada, adaptada para estudantes com dificuldades, além de sessões semanais de aconselhamento psicológico. Ele também buscou forças em si próprio. O jovem desenhou uma árvore genealógica de parentes que dependem dele.

"É por eles que me preocupo", disse Mpotulo, bastante sério. "Tenho que ter sucesso de alguma forma. Se eu desistir, literalmente não haverá nenhuma pessoa empregada na família".

Mpotulo agora está confiante de que se formará em Medicina, embora isso deva levar oito anos, em vez dos seis. Ele cogita uma carreira em saúde pública. O jovem acredita que a morte da mãe aos 30 e poucos anos, por derrame, poderia ter sido evitada se ela tivesse recebido ajuda médica decente.

"Entendo a situação de um aluno branco que não pode estudar aqui por causa da ação afirmativa", ele disse, "mas acho que é um mal extremamente necessário".

Cidade do Cabo - A Universidade da Cidade do Cabo já foi um refúgio de privilégio dos brancos nas ladeiras ma­­jestosas do Devil’s Peak. No auge do apartheid, ela admitia poucos estudantes negros ou mestiços. Eles eram barrados dos dormitórios universitários, até mesmo proibidos de participar de autópsias em corpos brancos na faculdade de Medicina.

A melhor universidade da África do Sul agora é brilhantemente multirracial. Mas também está envolvida num debate sobre o alcance das ações afirmativas para curar as feridas de uma história de opressão, gerando con­­flitos similares nos Estados Unidos, onde meia dúzia de estados baniu o uso de preferências raciais na admissão a universidades públicas.

"Estamos aqui porque somos negros ou porque somos inteligentes?", perguntou Sam Mgo­­bozi, 19 anos, estudante negro de classe média que frequentou uma escola de primeira linha em Dur­ban e considera as ações afirmativas uma ofensa, apesar de ad­­mitir que candidatos ne­­gros po­­bres ainda possam precisar delas.

Apartheid

A Universidade da Cidade do Ca­­bo deveria ter resolvido esse de­­bate no ano passado, quando seus professores – sete de dez são ho­­mens brancos – apoiaram uma diretriz que concedeu preferências de admissão com base em categorias raciais do apartheid para estudantes negros, mestiços e indianos.

O desconforto com a abordagem atual causou, no último ano, uma forte troca de farpas em pá­­ginas editoriais de jornais e plataformas formais de debates. De­­zesseis anos após a ascensão política da maioria negra, o dilema da universidade ecoa por toda a sociedade, que está em conflito, sem saber como alcançar uma re­­paração racial, seja em diretorias empresariais ou em salas de aula.

O professor Neville Alexander, sociólogo marxista que foi classificado como mestiço durante o apartheid, despertou o debate no campus alegando que a ação afirmativa trai os ideais do não racismo pelo qual tantos lutaram e morreram durante a luta conta o apartheid. Alexander, que passou uma década preso em Rob­­ben Island com Nelson Mandela, insiste que a Universidade da Ci­­dade do Cabo, que é pública, deve resistir à pressão do governo de usar indicadores raciais para de­­terminar o desempenho da instituição.

"Durante o apartheid o governo fez o mesmo, e o mandamos para o inferno", disse ele, num debate realizado no campus nu­­ma sala em que as pessoas ficavam de pé.

O defensor da ação afirmativa no campus é Max Price, o vice-chanceler, que foi detido como ativista estudantil anti-Apartheid em meados da década de 1970. Price, que cresceu como uma criança com privilégios brancos, sustenta que preferências baseadas nas classificações raciais do apartheid oferecem uma forma de ajudar os que foram prejudicados pelo sistema a obter oportunidades educacionais fundamentais.

A universidade tem uma diretriz largamente divulgada de admissão de negros com pontuação em exames significativamen­­te mais baixa que a dos brancos, mas os brancos ainda são maioria, numa proporção de quase dois para um – 45% contra 25% – entre os 20.500 estudantes sul-africanos da universidade.

Maioria negra

Na África do Sul, 79% da po­­pulação é negra e apenas 9% é branca. Mesmo com extensivos programas de instrução compensatória no campus para ajudar alunos em desvantagem, apenas pouco mais da metade dos estudantes negros se formaram em cinco anos nos últimos tempos, enquanto quatro de cada cinco alunos brancos completaram sua formação nesse tempo, de acordo com estatísticas da universidade.

"Estamos recebendo os me­­lho­­res e eles estão tendo dificuldades", disse um suplente do vice-chanceler, Crain Soudien.

A situação é ainda mais desanimadora na educação superior em todo o país. Em Engenharia, Direito, Ciências e Adminis­­tração, cerca de um terço ou me­­nos dos estudantes negros conseguem obter um diploma em cinco anos, como mostram pesquisas. Os esforços do país para produzir profissionais negros continuam debilitados por escolas públicas deficientes em áreas rurais pobres e distritos negros que o governo pós-Apartheid foi incapaz de recuperar.

A classe social é outro fator complicador. Há amplas disparidades de renda entre os sul-africanos brancos e negros, mas também entre os próprios negros. O mercado de trabalho recompensa os formados nas melhores universidades – negros ou brancos – e pune os que não tiveram uma boa educação, que são majoritariamente negros.

Classe média

Estudantes e professores perguntam se os filhos de negros das emergentes classes média e média alta devem continuar a receber os mesmos benefícios de admissão do que os alunos ne­­gros pobres. A universidade está desenvolvendo formas não ra­­ciais de medir a situação de desvantagem – por exemplo, se os pais de um candidato frequentaram universidade, ou a qualidade da escola onde o aluno estudou. No entanto, no momento a universidade só tem equipe suficiente para basear suas decisões de admissão para a maior parte dos alunos em sua pontuação num exame nacional por disciplina para alunos do último ano do ensino médio e suas classificações raciais do apartheid.

Mesmo se forem desenvolvidos indicadores confiáveis para a desvantagem socioeconômica, sustenta Price, a raça ainda deve ser considerada. Ele calculou que cerca de metade dos candidatos negros mais privilegiados não entrariam na universidade sem as preferências raciais. Numa situação dessa, ele disse, os brancos eram os primeiros da turma, enquanto muitos negros em desvantagem tinham dificuldades, reforçando os estereótipos.

Mesmo nas famílias negras mais prósperas, continuou Price, os pais muitas vezes frequentaram escolas piores e seus filhos não tiveram desempenho tão bom no exame nacional do ensino médio quanto os alunos brancos cujas famílias têm educação universitária há várias gerações.

Entretanto, o professor Andre Du Toit, que ensina há anos a História do Pensamento Político da África do Sul, discorda. Ele afirma que a questão central sobre o que ele chamou de "versão elitista de ação afirmativa baseada em raça da universidade" é se isso reproduzirá uma sociedade elitista.

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