O ditador venezuelano, Nicolas Maduro, fala ao público ao lado do ex-jogador de futebol Diego Maradona, durante o comício de encerramento de sua campanha, em Caracas | JUAN BARRETOAFP
O ditador venezuelano, Nicolas Maduro, fala ao público ao lado do ex-jogador de futebol Diego Maradona, durante o comício de encerramento de sua campanha, em Caracas| Foto: JUAN BARRETOAFP

No último comício antes da eleição deste domingo (20), o ditador e candidato a reeleição Nicolás Maduro xingou os presidentes Juan Manuel Santos, da Colômbia, e Mauricio Macri, da Argentina. 

"Santos, vai pro cara*** não nos importa o que você pensa", disse o ditador, diante de uma multidão vestida de vermelho, no centro de Caracas.

Trata-se de uma resposta ao anúncio do colombiano de que não reconhecerá o resultado da votação. Outros países da região, como o Brasil, consideram o pleito ilegítimo por não assegurar a participação plena da oposição.

Santos não comentou o xingamento. Porém, anunciou a apreensão de 400 toneladas de alimentos comprados pelo regime venezuelano, sob a justificativa de que eles estavam estragados e seriam usados para a compra de votos.

Também acusou Caracas de aliciar grupos de colombianos desde o ano passado oferecendo falsa cidadania venezuelana para que votassem nas eleições.

Ao lado do ex-jogador argentino Diego Maradona, aliado do chavismo e da ex-presidente Cristina Kirchner, Maduro chamou Macri de lixo por voltar a recorrer ao FMI (Fundo Monetário Internacional).

Por outro lado, saudou o apoio do presidente da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, que promove uma escalada autoritária em seu país.

Além da Turquia, disse que China, Rússia, Belarus, Irã e Índia (grupo de países que inclui ditaduras e territórios em que a democracia sofre ataque) são "o novo mundo que se levantou e com o qual estamos firmemente conectados".

Sobre assuntos domésticos, Maduro admitiu que a corrupção é um problema e prometeu uma "revolução econômica" caso seja reeleito, mas não usou a palavra crise nem mencionou a hiperinflação.

"Não se pode tapar os olhos e não ver o que está mal. Há muita corrupção, é preciso enfrentá-la", discursou.

Corrida eleitoral

Duas pesquisas de opinião divulgadas nesta quinta-feira (17) mostram o oposicionista Henri Falcón à frente de Maduro. Segundo o instituto Datanálisis, o dissidente chavista tem 30% das intenções de voto, contra 20% alcançados pelo atual mandatário.

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Em terceiro, aparece o pastor evangélico Javier Bertucci (14%), um outsider na política que tem brandido um discurso de oposição ao governo.

Dos 812 entrevistados, 67% se declararam dispostos ou muito dispostos a votar. Nesses segmentos, Falcón é escolhido por 37% dos ouvidos, contra 28% que optam por Maduro. Ao se isolarem apenas os muito dispostos a comparecer às urnas, porém, há empate técnico (Falcón 36%, Maduro 34%).

Para se candidatar, Falcón rompeu com a coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), que prega a abstenção sob o argumento de que haverá fraude.

A decisão da MUD de não participar da eleição foi rechaçada por 67,7% dos entrevistados pelo Datanálisis. Esse percentual sobe para 70,5% entre os que se identificaram como oposicionistas a Maduro.

A pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 15 de maio e tem uma margem de erro de 3,44 pontos percentuais.

No levantamento de Varianzas, a vantagem de Falcón é mais ampla: 45,5%, contra 24,9% para Maduro. O instituto foi a campo nos últimos sete dias. O levantamento tem margem de erro de 3 pontos percentuais.

Apesar do que mostram as pesquisas de intenção de voto, o ditador venezuelano prevê uma vitória decisiva. Ele concluiu sua campanha com um discurso energizado em Caracas diante dos aplausos de milhares de apoiadores.

Presos políticos

Nesta semana, um grupo de presos políticos venezuelanos se rebelou após um deles ter sido espancado por detentos comuns, segundo relataram políticos opositores e familiares. O motim ocorreu no presídio El Helicoide, administrado pelo Sebin, o serviço de inteligência criado pelo chavismo, local onde estão 54 presos políticos - quatro deles menores de idade.

Segundo a oposição, o estudante Gregory Sanabria, preso nos protestos de 2014, foi agredido por detentos comuns. Em foto divulgada em redes sociais, ele aparece com o rosto bastante machucado.

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Em vídeo gravado por celular, o prefeito cassado de San Cristóbal, Daniel Ceballos, em tom exaltado, acusou o governo de violar os direitos humanos dos presos políticos. "Estamos decididos a resistir de qualquer forma, incluindo com nossas vidas, para que hoje se escute e se veja o que acontece nos calabouços da ditadura", disse Ceballos, no cárcere desde 2014 por supostamente incentivar protestos violentos.

Em entrevista diante do presídio, Patricia Gutierréz, mulher de Ceballos e atual prefeita de San Cristóbal, acusou o Sebin de misturar presos comuns e políticos. Disse também que falta água e atendimento médico na unidade.

Em nota, a embaixada dos EUA exigiu do governo venezuelano a proteção física do cidadão norte-americano Joshua Holt, preso desde 2016 sob a acusação de conspirar contra o governo e de possuir armas de guerra.

A comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) publicou um tuíte repudiando a agressão a Sanabria e pedindo que todos os presos políticos sejam libertados.

Via rede social, o procurador-geral, Tarek William Saab, aliado do ditador Nicolás Maduro, disse que enviaria uma comissão para negociar com os presos. Ele também afirmou, segundo a Folha de São Paulo, que 72 presos comuns seriam transferidos para outros presídios.

Segundo a ONG Fórum Penal, há 338 presos políticos na Venezuela.

Ceballos, 34, é um dos presos políticos de mais alto perfil na Venezuela. Sua cidade, San Cristóbal, é a capital do estado de Táchira, um dos principais focos de oposição ao regime chavista.

O detento mais conhecido é Leopoldo López, que está em prisão domiciliar. Diante de sua casa, no leste de Caracas, há uma guarda permanente do Sebin. Ele está proibido de conceder entrevistas e de fazer pronunciamentos.

Protestos

Na manhã de quarta-feira, algumas centenas de manifestantes realizaram um ato diante do escritório da OEA (Organização dos Estados Americanos). Ali, exigiram um pronunciamento contra a realização da eleição presidencial marcada para este domingo (20).

O protesto foi convocado pela MUD (Mesa da Unidade Democrática), coalizão de partidos oposicionistas que prega a abstenção. Entre seus líderes estão Henrique Capriles e López, ambos inelegíveis.

Ao contrário do ano passado, quando as marchas reuniram dezenas de milhares de pessoas entre abril e junho, a MUD não tem conseguido mobilizar multidões.

A maioria dos que participaram do protesto eram militantes de partidos inscritos na MUD, como o Vontade Popular (VP), de López. Portavam camisetas e bandeiras das agremiações.

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"Não há saída pela via eleitoral", afirmou a militante do VP Minely Cardenas, 31.

"Depois da repressão do ano passado, a gente não sai de casa", disse à Folha, durante o ato, o deputado oposicionista Stálin Gonzalez. Ele ganhou projeção ao liderar manifestações estudantis em 2007, as primeiras contra o chavismo.

Ao menos 121 pessoas morreram durante os protestos do ano passado, segundo o Ministério Público. Uma contagem paralela, do site Runrunes, eleva a cifra para 157 mortos.

Um dos poucos manifestantes sem camisa de partidos oposicionistas, o policial aposentado José Galindez, 70, justificou o baixo quórum com o argumento de que a população está desiludida. "Mas pouco a pouco voltará às ruas", aposta.

Galindez disse que, apesar da posição da MUD pela abstenção, irá votar no domingo pelo dissidente chavista Henri Falcón, que rompeu com a coalizão oposicionista para se lançar candidato e aparece na frente na maioria das pesquisas de opinião.

"Grande parte das pessoas que conheço vai votar", diz Galindez. "Se Maduro ganha, haverá uma explosão."

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