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Cúpula da OTAN se reuniu na última semana de junho em Madri, Espanha.
Cúpula da OTAN se reuniu na última semana de junho em Madri, Espanha.| Foto: EFE/Sergio Pérez

A OTAN correu contra o tempo para refazer o conceito estratégico assinado em 2010, que estava em vigor até então. Na época, o cenário da geopolítica mundial era outro e os Estados Unidos e a Europa não esperavam, 12 anos depois, reviver com tamanha intensidade conflitos ideológicos da Guerra Fria e riscos militares à beira de uma Terceira Guerra Mundial.

Em 2010, a Rússia era considerada um país parceiro da OTAN e a China nem chegava perto de ser considerada um perigo militar ao Atlântico Norte. Desta vez, no entanto, a Rússia se tornou “a ameaça mais significativa e direta à segurança dos aliados e à paz e estabilidade do Ocidente”. Já a China passou a ser “um desafio sistêmico à segurança euro-atlântica”.

A Cúpula da OTAN, que aconteceu na semana passada, em Madri, teria como principal tema o posicionamento na guerra da Ucrânia, que redefiniu as prioridades da aliança militar. No entanto, outros problemas entraram na pauta principal e fragilidades da organização militar ficaram evidentes. Entre elas, a unidade comprometida da aliança e a necessidade de investimentos na segurança cibernética, além da dificuldade pela dependência que os europeus têm da força americana.

Apoio da OTAN não tem sido suficiente à Ucrânia 

A última parcela de ajuda militar americana à Ucrânia, assinada em maio, foi de 40 bilhões de dólares. Na semana passada, os Estados Unidos também anunciaram o envio de um sistema avançado de defesa antimísseis, o mesmo que protege Washington.

Apesar de ser um reforço significativo à defesa ucraniana, as doações não foram o suficiente para evitar que as tropas russas conquistassem regiões importantes, como Luhansk, no último final de semana. O território é estratégico para a Rússia que pretende dominar a região da Bacia do Donbas, parcialmente dominada pelos separatistas pró-Rússia desde 2014.

Necessidade de reestruturação: europeus dependem dos EUA 

Mesmo depois do encontro entre os países aliados, a defesa da Europa continuará substancialmente sustentada pelos Estados Unidos, que dispõem hoje cerca de 100 mil militares no continente europeu.

Durante a cúpula na Espanha, a OTAN buscou reforçar a importância de um apoio europeu mais evidente na Ucrânia e nos outros países em maior risco, requisitando especialmente apoio da França e da Alemanha.

Nove dos 30 países da OTAN destinam 2% do PIB à defesa. Mas conforme ressaltou o secretário-geral da aliança, Jens Stoltenberg, em Madri, esse é o “piso” e não o “teto” indicado como investimento à segurança do Ocidente.

A dependência que os europeus têm em relação aos Estados Unidos para garantir a segurança do Ocidente pode se tornar perigosa, tendo em vista que o país comandado por Joe Biden enfrenta o impacto da crescente crise econômica, com inflação elevada e aumento do preço dos combustíveis. Não se sabe até quando os Estados Unidos poderão carregar grande parte do sustento da OTAN nas costas.

Em entrevista ao jornal Le Figaro, o membro sênior do Conselho de Relações Exteriores e professor da Universidade de Georgetown, Charles Kupchan, apontou que esse cenário pode “tornar o público americano sensível aos slogans que criticam a ajuda dada à Ucrânia à medida que as dificuldades econômicas aumentam”.

Unidade fragilizada 

A dificuldade para convencer a Turquia a levantar o veto à Suécia e à Finlândia à entrada na OTAN escancarou a falta de unidade na aliança militar atlântico-europeia.

Outra evidência da diferença de pensamentos e prioridades na Organização é a forma como os Países Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) e a Polônia se posicionam diante da guerra na Ucrânia e como demandam a presença da OTAN.

Os países querem, o quanto antes, um reforço militar nas fronteiras, especialmente a Lituânia, que recentemente bloqueou o trânsito de mercadorias pelo enclave russo de Kaliningrado. Por sua vez, a Rússia disse que sua resposta “não será apenas diplomática”.

A Polônia também anunciou algumas vezes, desde a invasão russa na Ucrânia, a intenção de definir zonas de exclusão aérea nas fronteiras. Com isso, caso um avião russo sobrevoe o país vizinho, poderá ser abatido. Como a Polônia faz parte da OTAN, seria possivelmente a expansão da guerra.

No entanto, enquanto os países do leste europeu se posicionam mais claramente dispostos a enfrentar um conflito maior, os outros membros da OTAN procuram soluções mais diplomáticas.

Tendo em vista que o artigo 5º da aliança define que, caso um país membro seja invadido, será prontamente protegido, a falta de unidade da OTAN compromete a execução dessa regra. Estariam todos os membros prontos para entrar na guerra?

Necessidade de investir em cyber segurança  

O conflito na Ucrânia deixou ainda mais evidente a necessidade de reunir esforços e investimentos para o que vai além do confronto físico: as disputas virtuais.

Na última semana de junho, a americana Microsoft afirmou que Moscou atacou 128 alvos espalhados pelo mundo, entre eles governos e organizações de ajuda humanitária, centrais responsáveis por infraestrutura crítica dos países e empresas de tecnologia da informação. Além dos Estados Unidos e da OTAN, a Rússia também tentou espionar sistemas brasileiros.

Em 29% dos ataques, os hackers russos conseguiram invadir os computadores. Porém, a Microsoft não detalhou quais países tiveram dados roubados nem que tipo de informações os russos procuravam.

O general Philippe Lavigne, chefe do comando de transformação da OTAN, ressaltou a necessidade de atualizar os sistemas de segurança cibernéticos da aliança. Em entrevista ao Le Monde, o também ex-chefe do Estado Maior do Exército francês explicou que a operação precisa ser “descentralizada” dos Estados Unidos “para ser mais reativa e mais eficaz”.

“Isso vai passar por um desenvolvimento mais rápido de inteligência artificial e pela utilização de tecnologias destrutivas”, explicou Lavigne.

Ameaças da Rússia e da China 

Desde os anos 1990, a Rússia era considerada um país parceiro da OTAN. Desde a invasão à Ucrânia, no entanto, tornou-se “a ameaça mais significativa e direta para a segurança dos aliados”, conforme definiu o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg.

Desde que a União Europeia e os Estados Unidos começaram a se organizar para fazer as primeiras sanções à Rússia, apareceram as divergências em relação a como aplicá-las, temendo o risco de prejuízos econômicos aos países europeus fortemente dependentes da energia russa.

À medida que as sanções continuam e isso pesa no bolso dos europeus, os países podem entrar em conflito sobre como conduzir as punições à Rússia e declarar oposição às movimentações de Vladimir Putin no continente.

Mas a Rússia não é o único problema da OTAN. Apesar de não ter sido citada como “ameaça”, a China foi declarada “um desafio sistêmico” aos aliados.

“As ambições da República Popular da China e suas políticas coercitivas desafiam nossos interesses, nossa segurança e nossos valores”, escreveram os países da Aliança. Para reforçar, Stoltenberg ressaltou que “a China não é adversária, mas devemos estar lúcidos”.

O presidente francês, Emmanuel Macron, no entanto, decidiu deixar claro durante o evento que “a OTAN não é uma organização contra a China” e que “não há lógica de desestabilização ou hegemonia” por parte da França.

Se o país asiático não é inimigo, resta saber o quanto os outros países da OTAN estão dispostos a se posicionar diante da inegável disputa das duas maiores potências mundiais, Estados Unidos e China, caso ela chegue a nível militar.

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