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Agente das forças de segurança do Afeganistão segura uma granada impulsionada por foguete próximo ao local de um atentado a bomba, na província de Nangarhar, 30 de janeiro
Agente das forças de segurança do Afeganistão segura uma granada impulsionada por foguete próximo ao local de um atentado a bomba, na província de Nangarhar, 30 de janeiro| Foto: NOORULLAH SHIRZADA / AFP

O aumento dos ataques promovidos pelo Talibã na capital do Afeganistão, Cabul, tem causado preocupações sobre as perspectivas do processo de paz no país. A disparada da violência ocorre no momento em que o novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pretende revisar o acordo de paz com o Talibã, assinado pelo seu antecessor, Donald Trump, em fevereiro do ano passado. O novo governo americano deve decidir se continua com a retirada de tropas americanas do território afegão nos próximos meses.

"Ataques inimigos em Cabul foram mais numerosos [no último trimestre] do que no trimestre anterior. Houve muito mais ataques do que no mesmo trimestre do ano anterior", disseram forças americanas no Afeganistão, segundo relatório de uma organização de monitoramento do governo americano divulgado nesta segunda-feira (1).

O relatório do Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão (Sigar, na sigla em inglês), afirma que, apesar do "alarde" que cercou o acordo de retirada das tropas americanas, assinado entre Washington e o Talibã um ano atrás, as negociações posteriores entre o Talibã e o governo de Cabul "até o momento geraram poucos resultados substantivos". O documento foi enviado ao Congresso americano e à Secretaria de Defesa dos EUA.

"Não houve acordo de cessar-fogo e altos níveis de insurgência e violência extremista continuaram no Afeganistão neste trimestre", continua o documento, que descreve o cenário atual como "o que muitos consideram ser o momento mais precário desde que os EUA primeiro intervieram no país há quase vinte anos".

O Talibã lançou uma onda de ataques no Afeganistão em dezembro. Segundo dados da missão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país asiático, citados pelo Sigar, 810 pessoas morreram e 1.776 ficaram feridas em ataques armados e bombardeios entre 1 de outubro e 31 de dezembro do ano passado. O foco dos recentes ataques tem sido o assassinato de figuras públicas.

O grupo extremista nega envolvimento nos atos de violência. Em comunicado divulgado pelo Twitter, o porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid, disse que as alegações são "infundadas".

"O Emirado Islâmico do Afeganistão não tem absolutamente nenhuma responsabilidade sobre as mortes de civis e também não está envolvido na destruição de infraestrutura pública. Em vez disso, considera a garantia da segurança da infraestrutura pública sua própria responsabilidade", diz a nota.

Para o porta-voz do Talibã, a principal causa da crise no Afeganistão é a ocupação estrangeira, "que impôs ao nosso povo uma administração incompetente". Zabihullah diz ainda que a implementação do acordo de Doha seria "benéfica e no interesse da América, de outros países envolvidos, assim como dos afegãos".

Biden deve decidir se mantém retirada de tropas

As forças armadas dos EUA anunciaram em 15 de janeiro, ainda no governo Trump, que atingiram a meta de reduzir o número de soldados americanos no Afeganistão para cerca de 2.500.

O acordo de paz assinado em Doha, Qatar, em fevereiro do ano passado estabelece que os EUA devem reduzir as tropas gradualmente até a total retirada em maio de 2021. Em contrapartida, o Talibã deve romper laços com grupos terroristas, reduzir substancialmente a violência e começar negociações de paz com o governo afegão.

No entanto, ainda não está claro como o novo governo de Biden deve proceder. O presidente americano já defendeu que um pequeno número de forças contraterrorismo permaneça na região, para impedir que grupos como a Al-Qaeda realizem atentados nos Estados Unidos.

O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, pediu ao novo governo americano que aumentasse a pressão sobre o Talibã e adiasse a retirada de mais tropas americanas de seu país. Ghani afirmou que o Talibã falhou em cumprir as condições do acordo e reduzir ataques no país, assim como não cortou relações com a Al Qaeda.

O presidente afegão disse que o Talibã deve assumir a autoria de ataques a forças do governo e de assassinatos de figuras públicas. Ele ainda indicou que o grupo fundamentalista se aproveitou da pressa do governo Trump em retirar forças americanas para continuar os ataques.

"Eles assinaram um acordo, e esse acordo agora precisa ser implementado", afirmou Ghani em discurso no Aspen Security Forum.

O governo Biden indicou, em uma série de declarações da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Pentágono, que pretende revisar o acordo de paz e adotar uma postura mais dura com o Talibã, possivelmente adiando a retirada das tropas americanas do território afegão.

A escolha não é fácil, já que, se por um lado um atraso na retirada das tropas poderia ser um alívio para o governo afegão, também poderia motivar a escalada da violência e a saída do Talibã das negociações.

"Não os reconhecemos como governo oficial"

O porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid, disse em entrevista ao canal de notícias paquistanês TCM que espera pelo fim da ocupação americana no Afeganistão e que um acordo seja alcançado. "Nossos esforços nos próximos dias são para encerrar a guerra em andamento. Nós não reconhecemos o governo em Cabul como o governo oficial - embora eles estejam no lado oposto ao nosso e envolvidos em uma guerra conosco", afirmou.

De acordo com o líder fundamentalista, o Estado Islâmico "não tem uma existência visível no Afeganistão", e seus membros vivem secretamente em Cabul e em outras grandes cidades afegãs, "porque o governo em Cabul providenciou portos seguros para eles".

Sobre a presença americana no Afeganistão, o porta-voz do Talibã disse que a retirada das tropas é "necessária". "O povo afegão não pode tolerar a existência de tropas estrangeiras em seu país", afirmou Mujahid, acrescentando que eles deram um prazo final e a oportunidade de "se retirar do país com segurança".

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