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Em protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis, peruanos exigiram a saída do presidente Pedro Castillo
Em protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis, peruanos exigiram a saída do presidente Pedro Castillo| Foto: EFE/Aldair Mejía

A inflação assusta o mundo inteiro, vide os Estados Unidos, onde o Federal Reserve (Fed), banco central do país, efetuou no início de maio a maior elevação da taxa de juros desde 2000.

Na América Latina, a situação é especialmente dramática porque afeta a população mais vulnerável de uma região que, conforme o Banco Mundial destacou em comunicado em abril, já havia sido atingida pela pandemia de Covid-19 “com mais força do que qualquer outra região do mundo, tanto em termos de mortes per capita quanto de retração econômica”.

O informe destacou que, ao final de 2021, a inflação média dos preços ao consumidor na região havia quase dobrado, saltando para 7%, enquanto entre 2015 e 2019 o patamar havia ficado em 4%. Também em abril, o Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou que o impacto da inflação sobre a renda real, especialmente das populações mais vulneráveis, traz “riscos de tensão social”.

Especificamente na América do Sul, o pesadelo dos preços em alta tem se intensificado este ano. À parte Venezuela e Argentina, dois países com inflação crônica, e o Suriname, que voltou a enfrentar altos índices a partir de 2020, outras economias vêm acumulando patamares recordes. O Brasil teve em abril a maior inflação para um período de 12 meses em quase 19 anos. No Chile, o resultado foi o pior desde agosto de 1994 (veja o gráfico).

Analistas apontam que a região sofre os efeitos de fatores que geram inflação em todo o mundo, principalmente as altas do petróleo e dos alimentos, a retomada da demanda, os gargalos nas cadeias de abastecimento e a guerra na Ucrânia. Mas há fatores regionais que também contribuem para os altos índices.

“Temos casos extremos, como o da Argentina, uma situação com problemas mais complexos, relacionada à situação do dólar, à desconfiança da moeda deles de maneira geral. Faz com que as pessoas acabem comprando mais dólares, o que acaba indexando os preços não à moeda local, mas à alta do dólar: se ele aumenta, aumentam os aluguéis, os preços de bens, serviços”, explicou Leonardo Paz, analista de inteligência qualitativa no Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV NPII).

O especialista apontou fatores recorrentes na América do Sul: as políticas relacionadas à Covid-19, que injetaram muito dinheiro nas economias locais; a demora para elevar as taxas de juros, problema que Paz também enxerga nos Estados Unidos (“muita gente imaginou que os efeitos da pandemia eram temporários e o cenário, na medida em que ela passasse, se equacionaria e voltaria o equilíbrio, mas isso não aconteceu”); e a fuga de dólares.

“Os governos aqui não conseguiram correr atrás rápido o suficiente. A fuga de dólares é importante, fazendo com que o dólar fique mais caro, e isso impacta também. A América Latina é um destino bastante frequente do capital norte-americano. Na medida em que você tem pandemia, guerra e os Estados Unidos aumentando os juros, é razoável crer que boa parte dos investimentos dos EUA e outros lugares que estavam aqui comecem a gravitar para lá”, justificou.

Crise política

Conforme esperado, a inflação começa a cobrar sua fatura no campo da política. No Chile, onde o Banco Central decidiu recentemente aumentar a taxa de juros referencial para 8,25%, nível mais alto desde 2008, o recém-empossado presidente Gabriel Boric vê sua aprovação despencar. Para conter os preços, ele apresentou um projeto para injetar US$ 40 milhões no Fundo de Estabilização do Preço do Petróleo.

No Peru, o presidente Pedro Castillo, que já vinha acuado por dois pedidos de impeachment que não foram adiante, enfrentou uma onda de protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis entre o final de março e o começo de abril, manifestações que também pediam a sua saída.

Castillo depois encaminhou ao Congresso peruano um projeto de reforma constitucional que prevê a convocação de uma assembleia constituinte e uma consulta à população se deseja uma nova Carta Magna. O governo esquerdista tem criticado uma limitação constitucional que existe no Peru ao congelamento de preços, estratégia que no ano passado voltou a ser adotada pelo governo argentino – evidentemente, sem sucesso.

Protestos demonstrando revolta com o aumento dos preços (o maior em 30 anos) também têm sido realizados na Argentina, onde 60% da população desaprova a gestão de Alberto Fernández. Uma pesquisa realizada em janeiro mostrou que a inflação é a maior preocupação dos argentinos, citada por 34,4% dos entrevistados.

Venezuela e Bolívia

Entre os 12 países da América do Sul, Venezuela e Bolívia ocupam posições diametralmente opostas na lista da inflação.

O desastre econômico do chavismo é tão grande que a inflação de 222% acumulada em 12 meses até abril é uma boa notícia: em maio de 2021, o índice interanual no país de Nicolás Maduro era de mais de 2.700%.

O economista Víctor Alvarez, ex-ministro da Indústria, relatou ao El País que a Venezuela deixou de ter a maior inflação do mundo (posto agora ocupado pelo Sudão) porque “finalmente deixou de financiar o déficit das empresas públicas através da emissão de dinheiro sem lastro” e adotou medidas como reajuste de tarifas de empresas e serviços estatais, redução de gastos públicos após muito tempo, início de uma abertura do mercado interno e uma nova política de câmbio: “A estratégia de controle foi abandonada”.

A projeção é que a inflação siga caindo em 2022. A perspectiva de maior demanda por petróleo também gera otimismo, embora a produção venezuelana ainda esteja muito abaixo do seu potencial e a economia do país tenha retraído quase 80% entre 2014 e 2020.

Na Bolívia, a inflação interanual de 0,87% de abril é a menor das Américas. “O governo fixa o preço do dólar em determinado patamar [6,96 bolivianos, a moeda local], só que não há restrição para comprar dólar, você pode comprar no mercado. Só que, na medida em que o dólar começa a baixar ou subir, o governo intervém comprando e vendendo”, explicou Leonardo Paz.

“Eles estão fazendo isso a custo de ingresso de petróleo e gás. Quando os preços sobem, eles passam a ter mais receita e utilizam esse dinheiro de fora para conter a inflação em relação ao dólar, que é um grande preditor de inflação. E também usando parte do recurso do petróleo e do gás para comprar cereais, outros produtos, que, quando a situação fica pressionada, eles soltam e vendem para ter mais oferta”, acrescentou o analista.

Como Paz salientou, entretanto, é difícil saber quanto tempo essa estratégia vai durar: com a ênfase nos subsídios, a dívida pública boliviana chegará perto de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) do país até o final do ano, mais de dez pontos percentuais acima da média regional, segundo relatório do Banco Mundial.

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