Venezuelanos deslocados de La Victoria, estado de Apure, buscam refúgio em Arauquita, na Colômbia, 26 de março. Cerca de 5 mil pessoas foram forçadas a fugir após confrontos entre forças venezuelanas e grupos armados colombianos
Venezuelanos deslocados de La Victoria, estado de Apure, buscam refúgio em Arauquita, na Colômbia, 26 de março. Cerca de 5 mil pessoas foram forçadas a fugir após confrontos entre forças venezuelanas e grupos armados colombianos| Foto: Vanessa JIMENEZ / AFP

A ditadura de Nicolás Maduro deu início a uma grande operação militar contra grupos acusados de manter atividades criminosas em território venezuelano próximo à fronteira com a Colômbia, incluindo dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que não entregaram as armas após o tratado de paz assinado em 2016. As ações provocaram uma fuga em massa de civis para a Colômbia.

O conflito teve início em 21 de março, quando a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) comandou uma ofensiva contra dissidentes das Farc no estado venezuelano de Apure.

Segundo o regime chavista, naquele dia dois soldados foram mortos e nove ficaram feridos nos confrontos. O ministro de Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, disse que as mortes foram causadas pela "detonação de uma mina" ativada por guerrilheiros contra uma patrulha que operava no município José Antonio Paéz, em Apure.

No sábado (3), mais dois militares venezuelanos foram mortos durante operação na fronteira com a Colômbia, elevando para seis o número de militares mortos, segundo fontes das forças armadas.

O regime informou ainda que um total de 15 "terroristas" foram mortos e 30 ficaram feridos na operação contra os grupos guerrilheiros, batizada de "Escudo Bolivariano 2021".

A operação, descrita por especialistas como a maior campanha militar da Venezuela em décadas, teve início com ataques aéreos e continuou com ataques terrestres. O alvo das ações é uma facção de dissidentes das Farc conhecida como Décimo Frente, que atua nos arredores de La Victoria, no estado de Apure.

Cerca de 3 mil soldados venezuelanos foram enviados para a região fronteiriça, cujos moradores testemunham explosões diariamente desde 21 de março.

As ações forçaram cerca de 5 mil pessoas a fugir da Venezuela para o país vizinho. Testemunhas relatam abusos de direitos humanos cometidos pelos militares da FANB, como prisões arbitrárias, mortes de civis, desaparecimentos forçados e saques a residências.

Um venezuelano de 26 anos que está refugiado na cidade colombiana de Arauquita diz que seus pais, um irmão e um tio foram mortos por militares venezuelanos. Em entrevista à AFP, Emir Ramírez afirmou que seus familiares "não eram guerrilheiros" e acusa as forças armadas de terem manipulado os fatos. Ele recebeu fotos dos corpos, que estavam vestidos com uniformes militares e ao lado de armas.

Grupos de direitos humanos dos dois países pediram, na semana passada, uma intervenção humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU) para ajudar na resolução da crise. Em carta, os cerca de 60 grupos afirmam que é "urgente que o Secretário Geral da ONU aponte um enviado especial para a crise na fronteira".

Tamara Taraciuk Broner, subdiretora para as Américas da Human Rights Watch, descreveu as ações das autoridades venezuelanas como "um caso de estudo de todas as barbaridades que o regime vem cometendo e que segue fazendo com impunidade". Ela disse ainda que a Corte Penal Internacional deveria investigar os responsáveis "pelos crimes internacionais mais atrozes".

Mudança de postura

A ditadura de Maduro é acusada de ter tolerado, e até mesmo apoiado, a presença de grupos insurgentes esquerdistas colombianos em seu território nos últimos anos - embora os supostos aliados já tenham se envolvido em pequenos conflitos no passado. O presidente da Colômbia, Iván Duque, disse que Maduro dá apoio a dissidentes das Farc e do Exército de Libertação Nacional (ELN).

A atual ofensiva chavista representa uma mudança no tratamento dado pelo regime a esses grupos, acusados de operar tráfico de drogas e contrabando na região. Segundo a imprensa local, os motivos por trás da mudança ainda não estão claros.

O ministro da Defesa da Colômbia, Diego Molano, afirma que as hostilidades ocorrem devido a uma disputa entre as forças armadas chavistas e os grupos armados por rotas de tráfico de drogas. A oposição venezuelana concorda que a ofensiva serve para ajudar um grupo aliado de guerrilheiros na disputa pelo controle do tráfico. Já Padrino López, ministro da Defesa venezuelano, trata o caso como uma resposta à ofensiva estrangeira em seu país.

O regime chavista acusa o governo colombiano de apoiar as ações dos guerrilheiros, que "pretendiam ocupar ilegalmente setores do espaço geográfico venezuelano para desenvolver atividades criminosas". Maduro afirmou que a operação reflete a política de seu governo de tolerância zero com grupos armados irregulares da Colômbia.

Venezuela e Colômbia cortaram relações diplomáticas em 2019, quando o governo de Iván Duque, assim como dezenas de outros países, apoiou o líder opositor Juan Guaidó, que tentou sem sucesso retirar Maduro do poder.

Falando sobre o recente confronto aberto, Bram Ebus, consultor do think tank International Crisis Group (ICG), afirmou que "no auge da Guerra Fria, líderes em Washington e Moscou ainda tinham uma linha direta para evitar a catástrofe nuclear. Mas, até o momento, Colômbia e Venezuela não foram capazes de deixar suas diferenças de lado e abrir canais diplomáticos para evitar uma escalada no conflito".

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