Manifestantes protestam contra a detenção de prisioneiros na Base Naval de Guantánamo, no Memorial Lincoln, em Washington | Karen Bleier / AFP Photo
Manifestantes protestam contra a detenção de prisioneiros na Base Naval de Guantánamo, no Memorial Lincoln, em Washington| Foto: Karen Bleier / AFP Photo
  • A advogada Mahvish Rukhsana Khan (no meio) visita o pediatra Ali Shah Mousovi, o prisioneiro 1154 de Guantánamo, após ele ser solto

A crise financeira, o desemprego e pacotes bilionários de incentivo à economia norte-americana dominaram o noticiário deste primeiro mês de governo do presidente Barack Obama. Mas foi um ato singular e isolado, assinado dois dias depois de ele assumir o poder, que marcou o rompimento definitivo com a "Era Bush", segundo a advogada americana Mahvish Rukhsana Khan: o fechamento do campo de detenção de Guantánamo.

"A decisão de fechar Guantánamo traz esperança para detentos que ficaram 7 anos presos sem serem acusados de nada. É um começo de Justiça. O governo Bush foi ilegal e vergonhoso. Ele me fez sentir vergonha do meu país. Restaurar o respeito às leis vai ajudar nossa imagem global como defensores da Justiça. Acho que, com Obama, estamos no caminho certo", disse a advogada em entrevista ao G1, por e-mail.

Representante legal de detentos da prisão localizada em Cuba, Khan é filha de imigrantes afegãos e visitou dezenas de vezes a infame prisão, onde militares são suspeitos de diversos abusos contra os detentos. "Sempre que cheguei à base senti um enorme desconforto, não consegui comer nem dormir direito", contou.

Ela é autora do livro "Diário de Guantánamo" (Ed. Larousse), livro em que conta, de forma às vezes emocionada, como começou a trabalhar apoiando os "combatentes inimigos", como o Departamento de Defesa se refere às quase 800 pessoas que já ficaram detidas no local. "Chamar os detentos de inimigos é absurdo. Podemos contar nos dedos das mãos a quantidade de presos do local foram sequer acusados de algum crime. Não acho que todos devam ser libertados imediatamente, simplesmente que sejam julgados da forma correta", disse.

Os piores entre os piores

Khan contou que o que mais a impressionou quando visitou Guantánamo pela primeira vez foi o quanto ela estava errada. "Cheguei à prisão com a cabeça bem tendenciosa. Tinha certeza de que todos os guardas seriam hostis e maus, e todos os detentos eram terroristas", disse. O que encontrou, entretanto, foi o oposto. "Fiz amigos entre detentos e guardas, nada era tão simples como pensava."

A visão de que os detentos eram todos terroristas, como o governo dizia, estava completamente equivocada, segundo ela. "Eles não eram os piores entre os piores. Alguns, na verdade, eram os melhores entre os melhores. Cidadãos valiosos, que, se fossem americanos, todos achariam um absurdo estarem presos. Me senti completamente enganada após a primeira ida a Guantánamo", disse, citando especificamente o caso do pediatra Ali Shah Mousovi, o prisioneiro 1154, primeiro com quem se reuniu quando começou a visitar a prisão e caso que aparentemente mais a marcou.

Ela desfaz, entretanto, a imagem de que todos eram bons. "Claro que nunca pensei que todos os presos que conheci eram santos maravilhosos. Alguns eram um tanto brutos, mas não havia nenhuma evidência de atividade criminal contra nenhum deles."

Segurança e Justiça

Mesmo depois de inúmeras denúncias de abusos aos internos de Guantánamo, de acusações de infração de leis internacionais, já que os detentos não eram julgados, a prisão continuou mantendo presos os "suspeitos de terrorismo", enquanto o governo alegava que isso ajudava a garantir a segurança nacional.

"Guantánamo não ajudou a garantir a segurança nacional dos EUA. Se fez, alguma coisa foi piorar a situação da segurança nacional. A prisão simplesmente destruiu o que havia de bom no nome dos Estados Unidos e erodiu a imagem do país como defensor da Justiça. Depois de torturar e de infringir leis internacionais, não somos mais um modelo a ser seguido", disse a advogada.

Segundo ela, mesmo após a decisão de fechar o campo de detenção ainda não se sabe para onde os internos vão ser levados. "Se seguirmos a Constituição dos Estados Unidos, eles devem ser processados ou liberados. Espero que os que sejam processados recebam um julgamento justo", disse. "Nós, advogados, não estamos trabalhando pela soltura de todos os detentos. Queremos apenas que ele sejam respeitados em seu direito a um julgamento justo e equilibrado. Apenas um julgamento pode separar os bons dos maus."

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