Agravadas pela crise ucraniana, as tensões entre a Rússia e o Ocidente elevaram-se a níveis dramáticos ao longo de 2014, não existindo, no horizonte próximo, expectativas de que este quadro seja revertido.

Para além da retórica política comum em outras crises anteriores, tais como a da Geórgia, em 2008, ou com a Estônia, em 2007, a atual é marcada por sanções econômicas e pela realização de massivos exercícios militares em regiões de fronteira.

Nesta última quarta-feira, o governo russo decidiu, às vésperas do inverno no hemisfério norte, reduzir em dois terços o fornecimento de gás natural para a Europa, gerando escassez em pelo menos cinco países naquele continente e ainda mais apreensão internacional.

O atual estado das relações russo-ocidentais atinge níveis tão dramáticos que nomes como Henry Kissinger, antigo Secretário de Estado americano, e Noam Chomsky, professor do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, concordam que a humanidade encontra-se na iminência de presenciar uma "nova Guerra Fria". Embora válida como indicador da gravidade dos acontecimentos atuais, a metáfora não se revela, todavia, adequada.

Não estamos diante de uma "nova" Guerra Fria, mas da natural e lógica continuação de um confronto que nunca chegou a ser efetivamente ultrapassado. Como demonstra o desenvolvimento da atual crise, a dissolução da URSS não marcou o fim daquele conflito, mas a perda do estatuto de superpotência por uma das partes ‘beligerantes’ e o início de um período de distensão ou relaxamento em suas relações, similar, em certa medida, a détente dos anos 70.

É por esta razão que, apesar da euforia internacional no início dos anos 90, ou do efêmero alinhamento russo-americano no combate ao terrorismo pós-11 de setembro, ambos os países mantiveram suas armas nucleares estratégicas, ao longo das últimas duas décadas, no mesmo estado de ‘prontidão e alerta’ em que estiveram durante os 45 anos de Guerra Fria.

A situação de conflito permanente entre os blocos ocidental e oriental ocorrida na segunda metade do século XX foi, certa vez, descrita como um impasse no qual "a paz era impossível e a guerra improvável". Essa máxima ainda se mostra válida no atual estado das relações entre a Rússia e o Ocidente.

A paz, compreendida como a ‘ausência de maiores conflitos’, ainda é uma utopia. Por outro lado, apesar do acirramento das relações e do atual quadro de belicosidade, a guerra continua a ser improvável. Impossível de prever é até quando a sorte continuará a favor da Humanidade.

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