Bandeiras curdas cobrem os caixões dos que morreram em confrontos entre as forças armadas e os rebeldes no sudeste da Turquia. | Ilyas Akengin
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Bandeiras curdas cobrem os caixões dos que morreram em confrontos entre as forças armadas e os rebeldes no sudeste da Turquia.| Foto: Ilyas Akengin /Getty Images

Recentemente, multidões nacionalistas e pró-governo saíram às ruas de Istambul e Ancara durante duas noites, gritando “Deus é grande” enquanto invadiam um jornal proeminente e ateavam fogo na sede de um partido político curdo.

A economia da Turquia esfriou, e o valor da lira turca diminui diariamente. Navios de cruzeiro não param mais em Istambul, e muitos moradores evitam o metrô por causa de ameaças de bomba.

Um sentimento de instabilidade se espalha pelo país e o conflito que já dura décadas entre militantes curdos e forças de segurança turcas no sudeste continua. Aumenta o receio de que o país possa voltar aos dias negros da década de 90.

Nos últimos anos, a Turquia tem procurado influenciar e moldar o Oriente Médio, e passa a imagem de ser tudo o que a região não é: democrática, próspera e segura. Mas a instabilidade econômica e política aumenta agora que o governo interino instituiu uma eleição nacional em novembro — a terceira em pouco mais de um ano.

Os críticos dizem que a campanha militar da Turquia contra os curdos é parte da estratégia do Presidente Recep Tayyip Erdogan de insuflar o sentimento nacionalista para ajudar seu Partido Justiça e Desenvolvimento, ou AKP, a recuperar a maioria parlamentar que perdeu nas eleições de 7 de junho.

“Neste momento, nossos trilhos estão sacudindo e o país está à beira de descarrilar”, disse Kudrettin Terzioglu, 52 anos, que vende bilhetes de loteria na frente do principal tribunal aqui, onde um promotor famoso foi morto este ano por um grupo marxista que assumiu a responsabilidade por um atentado suicida na embaixada americana em Ancara em 2013.

“Estamos à beira da guerra civil, não temos um governo estável, a economia está uma bagunça e não há emprego”, acrescentou ele.

No distrito central de Besiktas, em Istambul, diminuiu a frequência ao Palácio Dolmabahce, da era otomana, onde militantes detonaram explosivos há algumas semanas e trocaram tiros com policiais.

“Depois de saber do incidente, muitos amigos cancelaram sua viagem à Turquia”, disse Gemma Haighton, turista de Londres que esperava para entrar no palácio.

A indústria do turismo da Turquia viu sua receita diminuir quase 14 por cento no segundo trimestre do ano passado, segundo dados do governo.

As crescentes preocupações com segurança começaram depois do fim do cessar-fogo de dois anos entre os rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão e o Estado turco, em julho. Além disso, há o aumento de ameaças e ataques do Partido da Frente Revolucionária de Libertação Popular e do Estado Islâmico, o grupo militante sunita que muitos acreditam ser o responsável por um atentado suicida que matou mais de 30 ativistas curdos na cidade de Suruc em julho.

Porém, os críticos de Erdogan dizem que a instabilidade pode favorecê-lo e ajudá-lo a convencer o público a votar novamente em um governo de partido único. Na verdade, ele aproveita a situação em sua campanha: de acordo com o jornal pró-governo Daily Sabah, o lema do partido para a eleição será “Vote AKP pela estabilidade”.

Na cidade velha de Istambul, muitos operadores turísticos e empresas se queixam da diminuição do turismo.

“A cada bomba que explode no sudeste, recebemos um e-mail ou um telefonema de um cliente pedindo reembolso”, disse Yusuf Karaca, 52 anos, proprietário da Karaca Tur, uma operadora turística.

Recentemente, um amigo veio a seu escritório lamentando o funeral de soldados mortos que acabara de ver na televisão.

“Malditos terroristas”, disse o homem, Ahmet, que forneceu apenas seu primeiro nome, “e maldito o homem que arrastou este país para a guerra para satisfazer seus propósitos políticos”.

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