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Laferrière com o fardão da Academia Francesa | Thomas Sampson/ AP/Getty Images
Laferrière com o fardão da Academia Francesa| Foto: Thomas Sampson/ AP/Getty Images

Quando Dany Laferrière tomou posse na Academia Francesa, a mais excelsa instituição literária da França, o Québec e o Haiti se apressaram em celebrá-lo, numa onda de orgulho nacional. Ele nasceu e cresceu no Haiti, mas migrou para Montreal em 1970 e assumiu a cidadania canadense.

A louvação prestada a Laferrière lembrou o caso de V.S. Naipaul —nascido em Trinidad, filho de pais indianos, formado em Oxford e cidadão britânico, e por isso reivindicado por esses três países quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 2001.

A inclusão de Laferrière na Academia e as reações que ela motivou indicam uma curiosa contradição: quem está de fora —críticos, instituições e administradores de prêmios— geralmente categoriza os autores por língua e nacionalidade. No entanto, muitos escritores pleiteiam apenas a cidadania da república das letras. Por que a insistência em rotulá-los?

“Minha impressão é que os escritores são poliamorosos quando se trata de nacionalidade, mas que o diálogo crítico, por tratar do contexto, tende ao nacionalismo”, disse John Freeman, ex-editor da “Granta”, editor da revista “Freeman’s” e autor de “Como Ler um Escritor”. “Não é que os críticos sejam patriotas, mas com frequência escrevem em fóruns —jornais, revistas— que reforçam a identidade nacional, em vez de complicá-la ou erodi-la.”

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Laferrière afirma que foi moldado tanto pelos livros da sua biblioteca quanto pelos países onde viveu.

De Joseph Conrad a Samuel Beckett, alguns autores encontraram suas vozes em outro idioma que não a sua língua materna. O tcheco Milan Kundera escreve em francês desde que se mudou para Paris, na década de 1970. Seu mais recente romance, “A Festa da Insignificância”, foi lançado no Brasil em 2014.

Jhumpa Lahiri, contista e romancista ganhadora do Prêmio Pulitzer, mudou-se de Nova York para Roma em 2012. Em fevereiro, a editora Guanda lançou “In Altre Parole” (em outras palavras), primeiro romance dela em italiano, idioma que disse ter estudado por 20 anos.

Lahiri nasceu em Londres, filha de pais indianos, e cresceu em Rhode Island (EUA). Ela disse que durante anos sentia “culpa por ter aprendido a ler numa língua que eu não falava com meus pais”. Escrever em italiano é “uma maneira de me reinventar como pessoa e como escritora, e também de assumir um enorme risco”, segundo ela.

A coletânea de ensaios de Lahiri é como um espelho do livro “The Other Language” (a outra língua), lançado em 2014. Trata-se de uma seleção de contos redigidos originalmente em inglês pela escritora italiana Francesca Marciano, que vive em Roma e é amiga de Lahiri. Depois que o livro de Marciano foi lançado numa tradução para o italiano, em maio, ela disse ter notado que “era vista um pouco como uma traidora” na Itália.

Marciano, que aprendeu inglês na adolescência, tornou-se romancista no Quênia, na década de 1990. “Cada um de nós confere um valor emotivo a uma língua”, acrescentou. “Para mim, o inglês se tornou a língua da minha expressão ficcional.”

Em 2013, a “Granta” escolheu Benjamin Markovits, nascido nos EUA, como um dos 20 melhores jovens romancistas britânicos. Mas ele só tem passaporte britânico por vínculo de casamento. A cidadania “acaba sendo uma questão tão prática quanto espiritual”, disse Markovits. “Eu nunca teria entrado na lista da ‘Granta’ se não tivesse jurado lealdade à rainha.”

Markovits mora em Londres há 15 anos, mas ambientou seu mais recente romance, “You Don’t Have to Live Like This” (você não tem que viver assim), em Detroit. Ele disse que o Reino Unido, com sua complexa estrutura de classes, ainda continua sendo um pouco estrangeira para ele. “Ainda assim, não me sinto totalmente americano enquanto estiver na Inglaterra.”

Às vezes, esses escritores fecham um círculo completo. Em seu discurso à Academia, Laferrière homenageou o escritor francófono de origem argentina Hector Bianciotti, que morreu em 2012 e cuja cadeira na instituição ele passou a ocupar.

Laferrière falou sobre como Bianciotti só passou a ser valorizado como escritor na Argentina depois de se mudar para Paris e se tornar um escritor francês. E lembrou-se de como, perto de morrer, Bianciotti voltou ao espanhol, “a única língua”, disse Laferrière, “em que se pode expressar o silêncio”.

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