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 | Adam Dean/ The New York Times
| Foto: Adam Dean/ The New York Times

Na sombra fria da Caverna 98, Li Lingzhi acompanhou a inspeção de afrescos budistas —encomendados há mais de mil anos por uma família reinante— de uma gruta localizada em um penhasco no deserto de Gobi. A restauração da caverna levou dez anos. Andaimes metálicos ainda cercavam um Buda sentado de três andares, com vestes laranja.

“Após a inspeção de especialistas, vamos discutir quando poderemos abri-las ao público”, disse Li, que trabalha em conservação de antiguidades para a Academia de Pesquisa de Dunhuang, que administra as cavernas de Mogao para o governo de Pequim desde 1944. “Estamos monitorando a umidade e a temperatura desta caverna.”

A preservação dessas pequenas e centenárias cavernas é um trabalho delicado. Quase 500 delas constituem uma cápsula do tempo da arte ao longo da Rota da Seda e estão entre os maiores tesouros budistas.

Há estátuas, figurinhas e afrescos de Buda com cabelos crespos e nariz pontiagudo, um estilo comum na arte antiga da Ásia central. Também há bodisatvas [seres iluminados] em estilo tibetano com mil braços, desenhados na época do reino mongol, e discípulos usando dhotis [espécie de calça-saia] indianos. O mais antigo data de 1.600 anos.

As cavernas de Mogao, na China, abrigam obras milenares da arte budistaAdam Dean /The New York Times

A área foi designada Patrimônio Mundial pela ONU. No entanto, as ameaças da era moderna à arte são muitas: tempestades de areia, chuvas, ladrões de túmulos e arqueólogos estrangeiros saqueadores. Além disso, os pesquisadores hoje advertem sobre uma ameaça ainda maior: hordas de turistas.

Autoridades da província de Gansu e uma empresa de Pequim traçaram planos para um parque temático que conecta as cavernas a uma área separada com falsos templos, aldeias folclóricas e barracas de suvenires.

“Esperamos que essa ideia não se torne realidade”, disse Fan Jinshi, 76, que trabalha na Academia desde 1963 e a dirigiu durante 17 anos. “As cavernas de Mogao são insubstituíveis e não renováveis. Não apenas elas têm de ser respeitadas, como a atmosfera ao redor delas também deve ser protegida.”

He Shuzhong, fundador do Centro de Proteção do Patrimônio Cultural em Pequim, manifestou sua preocupação em um ensaio na “Revista do Patrimônio Mundial”, uma publicação do Ministério das Relações Exteriores da China. “Durante 20 anos, a cidade nunca parou de tentar explorar as cavernas por dinheiro”, disse He em uma entrevista. “O plano destruiria o entorno das cavernas.”

Está prevista a construção de uma “Aldeia da Rota da Seda” entre as cavernas e as dunas com hotéis, shopping centers, teatros e restaurantes. Em 2017, segundo o plano, a principal zona turística atrairá mais de 2,13 milhões de turistas por ano, com receitas de 496 milhões de renminbi, ou US$ 80 milhões. Até 2020, a receita deve crescer para US$ 123 milhões.

O número de turistas já provoca ansiedade na Academia. Depois de 1979, quando as cavernas foram abertas ao público, 10 mil ou 20 mil pessoas as visitavam por ano. Porém, nos últimos anos, as multidões atingiram às vezes esse número em um único dia.

Um plano criado para controlar o turismo incluiu a construção de um novo centro de visitantes a cerca de 15 quilômetros ao norte das cavernas. Lá, as pessoas assistem a filmes de 20 minutos sobre as cavernas e depois guias conduzem grupos de 25 em rodízios, com um limite de 6.000 visitantes por dia. Cerca de 810 mil visitantes estiveram lá no ano passado.

“Se houver turistas demais, as condições atuais vão piorar”, disse Fan. “Se desenvolvermos só a indústria de turismo e sacrificarmos a proteção às relíquias culturais, os lucros acabarão rapidamente.”

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