Perto de Times Square, o lado feio da cidade descansa no McDonald’s | Hilary Swift /The New York Times
Perto de Times Square, o lado feio da cidade descansa no McDonald’s| Foto: Hilary Swift /The New York Times

Alguns clientes despejam cerveja em copos de plástico transparente de McCafé e bebem sem disfarçar. Um homem chamado Shamrock bebe vodca pura de uma garrafa de água mineral em uma mesa perto da porta.

Recentemente, um homem foi direto para o banheiro, fazendo uma pausa só para abrir a mochila e pegar um saco de heroína. Em outro dia, um casal dividia um shake de baunilha McDonald’s em uma mesa lateral e engolia “sticks” (o remédio contra ansiedade Xanax) e “pins” (a pílula contra ansiedade Klonopin). Em outra ocasião, uma ambulância apareceu para carregar um cliente habitual que tinha sido esfaqueado em um beco vizinho, deixando sangue espalhado pela calçada.

A Times Square às vezes parece um parque temático, uma mistura de museus de cera, cartazes luminosos e turistas que caminham devagar, enchendo as calçadas.

No entanto, esse McDonald’s próximo, na Oitava Avenida entre as ruas 34 e 35, lembra uma Nova York de uma era mais suja. É um lugar onde os turistas se sentam entre dependentes químicos que esperam por uma dose ou cochilam nas mesas depois de tomar metadona, ou talvez outra coisa.

“Os turistas não sabem de nada”, disse Nichole, 29, ex-usuária de heroína que vai regularmente a esse McDonald’s. “Eu adoro quando eles entram aqui, olham em volta e todo mundo está cochilando sobre as mesas. Eles não têm ideia do que está acontecendo.”

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Por que lá? Porque em uma caminhada de três minutos há uma clínica que distribui metadona, (usada para tratar a dependência de heroína), dois programas contra o abuso de drogas e um trocador de agulhas.

Para evitar a freguesia indesejada, alguns restaurantes de fast food próximos afirmam que seus banheiros estão com defeito ou só permitem seu uso por clientes pagantes.

O que resta é basicamente o McDonald’s —o restaurante das massas, o grande democratizador, o substituto da praça comunitária, onde é possível ler ou beber uma xícara de café barato durante horas.

Em Nova York, cada McDonald’s tem seu sabor próprio. Em um deles, no Brooklyn, o mesmo grupo de latinas idosas se reúne todas as tardes, enquanto em outro, no Queens, idosos coreanos marcam ponto quase todo dia para tomar café. Alguns clientes brincam que o da Oitava Avenida é o “McDonald’s zumbi”, outros o chamam de “McDonald’s junkie”.

Muitos frequentadores fazem o circuito da clínica de metadona até a troca de agulhas e depois vão à lanchonete durante algumas horas para “baixar”, conversar com amigos e talvez resolver alguns negócios.

Os que ainda se drogam fazem um circuito diferente: às vezes compram droga no banheiro e a usam imediatamente em uma mesa reservada. Às vezes a compram no McDonald’s, mas saem e dobram a esquina para se picar.

Mas depois voltam.

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A lanchonete, bem iluminada, passou por reformas há cerca de três anos. As duas melhores mesas ficam na frente, grandes e redondas, com poltroninhas estofadas. Os clientes regulares se sentam ali ou se espalham pelas mesas no fundo.

“Esses caras vivem aqui”, disse Ray Flonard, 53, observando de uma mesa ao fundo. “Eles ocupam a frente, ocupam a calçada. Você não consegue andar com tanta gente. Mas não incomodam ninguém, acho eu.”

Eles ganharam este McDonald’s. Ganharam apenas por seu número e porque sempre voltam. Eles venceram apesar da placa de “proibido vadiar” que estabelece um limite de “30 minutos enquanto se consome comida”. Eles venceram apesar da polícia, que foi ali 200 vezes no ano passado. Venceram apesar do segurança, sozinho contra dezenas, que está no cargo há mais de 20 anos e às vezes remove clientes que desmaiam sobre as mesas.

Ele foi esfaqueado na perna por um cliente há cerca de quatro anos. “Todo dia eu passo pelo inferno”, disse ele recentemente, evitando dar seu nome.

Todo mundo sabe que ele sai às 14h, de qualquer modo. É então que fica muito mais fácil fazer negócios. Quase tudo está à venda.

Cigarros avulsos por US$ 0,50 cada um. Um iPod por US$ 40. Fones de ouvido modernos, ainda na embalagem de uma loja próxima, por US$ 8. Um frequentador disse que um saquinho de heroína custa US$ 10 no banheiro.

É difícil saber o que os turistas pensam da mistura. Eles vêm da Estação Pennsylvania, da Times Square e dos ônibus de dois andares que param na frente para os passageiros usarem o banheiro.

Outros clientes, os chamados normais, também frequentam este McDonald’s. É o caso de uma freira idosa que às vezes se senta no fundo e fica vendo cenas se desenrolarem na lanchonete como em um show da Broadway.

“Eu tomo sorvete”, disse a freira Elaine Goodell, 89, que vive em um convento próximo e trabalha como capelã em um hospital. “E para acompanhar peço fritas tamanho médio. Adoro o salgado e o doce. É isso que você tem aqui —o sal e a doçura da humanidade.”

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