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Jerusalém - Para o psiquiatra Eyad El Sarraj, chefe do Programa de Saúde Mental da Faixa de Gaza, as conseqüências da operação militar serão sentidas por anos e até mesmo décadas. Traumatizados e precisando de apoio psicológico e psiquiátrico, milhares de jovens palestinos crescem alimentando um sentimento de ódio e revolta que deve transformar Gaza numa verdadeira fábrica de extremistas.

Não é a primeira vez que a população civil de Gaza se vê numa situação limite. O que faz esta ofensiva pior que as anteriores?

É um ataque constante e generalizado. Vimos no passado ações em áreas delimitadas e, nos últimos dias, o medo está em todas as cidades de Gaza. Na noite passada (domingo), fomos bombardeados por ar, terra e mar. É assustador compreender que nenhum de nós está seguro em parte alguma.

Qual é a sensação geral dos moradores de Gaza?

A pior possível. Moro no centro da Cidade de Gaza e me sinto como numa cidade-fantasma. Ninguém ousa sair às ruas, estamos apavorados e temos pouco contato com os amigos e familiares. As linhas telefônicas estão instáveis e a comunicação é difícil, já que são poucas as horas com energia. Mesmo em casa, é difícil dormir ou relaxar, já que o ruído das explosões nos mantém ligados 24 horas à realidade lá fora.

É possível avaliar que efeitos psicológicos uma operação deste tipo têm sobre a população?

Vamos sentir as conseqüências por anos. Pelo menos metade da população de Gaza precisa de aconselhamento e acompanhamento psicológico em virtude do trauma e do pós-trauma. Israel está fazendo um favor ao Hamas. Nossas crianças e jovens estão crescendo com um sentimento de ódio e repúdio às ações israelenses que foge à educação e aos princípios éticos ensinados em qualquer boa família. As crianças não dormem, tampouco compreendem o que se passa, os adolescentes querem vingança. Temo pela próxima geração. Gaza vai se transformar num verdadeiro celeiro de extremistas.

Como o embargo imposto por Israel afeta emocionalmente os palestinos?

Manter a sanidade é um desafio. Muito se fala da falta de alimentos, combustível e remédios, mas ninguém fala da necessidade de lazer, de ouvir música, ver um filme, ter contatos com o mundo exterior. São coisas banais, mas às quais não temos acesso há mais de um ano. Precisamos respirar e falta ar fresco em Gaza. A última vez que saí, há poucas semanas, foi para uma consulta médica em Israel. Consegui a permissão após meses de espera e somente a curta viagem já me deu energias para continuar. Antes de voltar para casa, comprei flores em Israel. Mas, no posto de controle, os soldados me avisaram que flores não eram permitidas. Foi uma dura volta à realidade.

Que tipo de intervenção o senhor acredita ser capaz de salvar Gaza de uma catástrofe?

A única saída é que Israel pare a agressão e que os palestinos voltem a ter um diálogo nacional e se unam. Gaza e a Cisjordânia não podem continuar segregadas. O presidente Abbas precisa reconhecer que não tem condições de superar a crise, e Israel precisa compreender que já é tarde demais para o Estado judeu. Após anos de guerras, nem mesmo a solução de dois Estados é possível. Precisamos deixar de lado as diferenças e criar um Estado binacional, onde judeus, muçulmanos, cristãos vivam em paz e dentro de regras básicas de respeito e convivência mútuos.

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