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“João de Deus” levou cerca de 1 milhão de pessoas ao Centro Cívico para a missa na manhã do dia 6 de julho de 1980 | Arquivo Gazeta do Povo
“João de Deus” levou cerca de 1 milhão de pessoas ao Centro Cívico para a missa na manhã do dia 6 de julho de 1980| Foto: Arquivo Gazeta do Povo

A fala do Papa João Paulo II na missa do dia 6 de julho de 1980, diante de 1 milhão de pessoas no Centro Cívico, em Curitiba, poderia ser feita agora e seria extremamente atual.

O Sumo Pontífice pareceria comentar as notícias de hoje, destacando a mistura de culturas que existe no Paraná (tenha em mente que as palavras são de 30 anos atrás): "A vós eu peço, com afeto de pai, confiança de irmão, que conservem sempre este aspecto de vosso ser. E este meu pedido alarga-se em votos de que, neste nosso mundo onde há ainda tanta discriminação, os homens compreendam sempre melhor, aceitem uns aos outros por aquilo que têm em comum, a fim de crescer a solidariedade, o amor e a fraternidade entre os povos e consolidar as bases da paz".

A vinda do Papa ao Brasil recebeu uma cobertura extensa da Gazeta do Povo. A primeira notícia apareceu no dia 25 de junho, cujo título pega uma citação de dom Ivo Lorscheiter, então presidente da Conferência Nacional dos Bispos: "Visita do Papa ao Brasil trará mais fé ao povo".

A partir de 29 de junho e ao longo de 17 dias, todas as manchetes do jornal falaram do Santo Padre. Mesmo sem a internet e outras facilidades tecnológicas, a quantidade de detalhes em torno da viagem poderia rivalizar com o noticiário de grandes eventos atuais – discutia-se até a importância da umidade relativa do ar durante os eventos públicos. Impossível, por exemplo, não lembrar dos "papamóveis" blindados. Sabia-se o cardápio das refeições e até os ingredientes do coquetel que ele tomaria "se estivesse disposto": vodca, Martini doce (e seco) e cerejas.

Na Itália, o L’Osservatore Romano afirmou que "a palavra papal seria a única que ‘poderia dissipar nuvens de incertezas e dúvidas que estão se formando sobre o povo brasileiro’". No entanto, a reportagem não entra em detalhes de que "nuvens" seriam essas, mas talvez tivessem algo a ver com os anos da ditadura militar.

O ápice da cobertura veio no dia 5 de julho, quando ele desembarcou no aeroporto Afonso Pena e, de lá, foi direto para o estádio Couto Pereira para falar às famílias de origem polonesa, em "um programa de forte cunho sentimental", nas palavras do jornal. Afinal, João de Deus era Karol Józef Wojtyla, nascido na Polônia.

A primeira página da edição do dia trazia uma bela fotografia em cores do Sumo Pontífice, a única no jornal inteiro (era um recurso raro naquela época), e a manchete pedia: "A bênção, João de Deus". No dia seguinte (6 de julho), com uma imagem do estádio lotado, a reportagem descrevia: "Apesar do frio reinante, o calor humano foi maior e no campo [do Coritiba] o Sumo Pontífice foi ovacionado incessantemente". A temperatura no dia oscilou entre 6oC e 8oC.

Celebrada na manhã de domingo, o último dia do Papa em Curitiba, a chamada "missa dos imigrantes" reuniu pessoas de várias partes do estado e também da Argentina e do Paraguai, quando o religioso retomou palavras ditas em Brasília, na presença do presidente João Figueiredo, depois de desembarcar no país e beijar o solo brasileiro –ato que se tornou um ritual nas viagens pelo mundo.

O primeiro Papa a visitar o Brasil (depois dele, Bento XVI também veio) demonstrou coragem para dar uma traulitada no governo militar brasileiro: "Em meio às ansiedades e incertezas e, por que não dizê-lo?, aos sofrimentos e agruras do presente, poderá gestar-se um país que amanhã ofereça muito à grande solidariedade internacional", disse o Papa. "Queira Deus que esta perspectiva ajude o Brasil a construir um convívio social exemplar, superando desequilíbrios e desigualdades, na justiça e na concórdia, com lucidez e coragem, sem choques nem rupturas".

Ele se despediu de Curitiba e do Paraná com um "até breve" e comparou a cidade com "a Jerusalém da manhã de Pentecostes, pela imensa variedade de raças daqueles que ouvem anunciar a Boa-Nova de Jesus Cristo".

Naqueles 12 dias da visita papal, o poeta Vinicius de Moraes morreu, o tenista Bjorn Borg venceu Wimbledon pela quinta vez em um embate longo (3h53) e histórico com Joe McEnroe, os cinemas curitibanos exibiam Um Estranho no Ninho, com Jack Nicholson, e as ruas centrais da cidade começaram a ter o estacionamento cobrado.

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