Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
Pedro Castillo, candidato do partido de esquerda Perú Libre à presidência do Peru
Pedro Castillo, candidato do partido de esquerda Perú Libre à presidência do Peru| Foto: Reprodução/ Facebook / Vladimir Cerrón

Pedro Castillo surpreendeu ao chegar em primeiro lugar entre os 18 candidatos no primeiro turno das eleições presidenciais do Peru. O candidato de extrema esquerda, que não estava bem colocado nas pesquisas, acabou conquistando 19% dos votos e disputará o segundo turno com Keiko Fujimori em 6 de junho.

O ex-professor de escola rural e líder sindical é candidato pelo Perú Libre, que se define como um partido de esquerda marxista. Castillo anunciou sua candidatura em 2020, depois que o líder do seu partido, Vladimir Cerrón, foi impedido de concorrer e condenado por aproveitamento do cargo quando era governador da província de Junín.

No momento, ele lidera as intenções de voto, embora a sua vantagem esteja diminuindo. A pesquisa mais recente, divulgada na sexta-feira (7), indica que a diferença entre Castillo e Fujimori caiu de 9 para 5 pontos percentuais.

Castillo ficou conhecido nacionalmente ao liderar, em 2017, uma greve de professores por melhores salários que durou mais de dois meses. A sua principal base eleitoral está nas regiões rurais do interior do Peru. No primeiro turno, o maior apoio que o candidato recebeu veio de regiões mais pobres, do sul do país, como Apurímac, Ayacucho e Huancavelica, onde ele teve cerca de 40% dos votos. Essas regiões têm diferenças históricas, culturais e socioeconômicas com a capital, Lima, onde Castillo ficou em quinto lugar, com menos de 7% dos votos.

Posturas contraditórias

Se for eleito, Castillo pretende elaborar uma nova Constituição por meio de uma assembleia constituinte, que dê ao Estado maior papel como regulador do mercado, o que ele chama de "economia popular com o mercado". O Perú Libre também propõe a nacionalização de setores estratégicos, como os de minas, gás e petróleo, o que tem deixado inquietos setores de direita e centro-direita no país andino.

Embora Castillo seja um candidato com posições de esquerda no campo econômico, ele tem posições conservadoras em relação a pautas sociais. Ele é contrário à legalização do aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à eutanásia. Castillo também se opõe ao enfoque de gênero no currículo escolar. Na questão da segurança pública, apoia uma linha mais dura.

A plataforma do Perú Libre e as origens de Castillo renderam comparações entre o candidato e líderes de esquerda sul-americanos como Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa. Adversários políticos também acusam Castillo de ter ligações com o grupo terrorista comunista Sendero Luminoso, o que ele nega.

Em entrevista feita em abril, o candidato do Perú Libre disse que se sente "estigmatizado" ao ser relacionado ao grupo terrorista, que causou milhares de mortes nos anos 1980. "Não há terrorismo aqui, nos estigmatizaram. Não querem que um filho do povo surja para desmascarar a tristeza e a realidade do país", declarou. "Quero que venham aqui na minha terra me dizer que sou terrorista".

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, histórico antifujimorista e dono de um Nobel de Literatura, afirmou que Castillo pretende criar uma "sociedade comunista" e que apenas Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori e acusada de corrupção, pode salvar o Peru de uma "tragédia". Para ele, a candidata do Fuerza Popular representa o "mal menor".

Sobre a sociedade que Castillo pretende criar, Vargas Llosa disse que "é óbvio que ela terá todas as características de uma sociedade comunista em uma época em que os peruanos que votaram nele aparentemente não se deram conta ainda de que o comunismo desapareceu do planeta, com as exceções mais horripilantes, ou seja, Cuba, Venezuela, Nicarágua e Coreia do Norte."

O plano de governo oficial do Perú Libre foi escrito pelo fundador do partido, Vladimir Cerrón. O documento define o partido como marxista e leninista. Porém, Castillo vem tentando durante a campanha se afastar da ideologia radical de esquerda.

Líderes da esquerda latino-americana, incluindo ditadores, são elogiados no plano de governo. "Os presidentes Rafael Correa, Evo Morales, Néstor Kirchner, Cristina Fernández, Lula da Silva, Dilma Rousseff, Fidel Castro, Raúl Castro, Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Manuel Zelaya, Daniel Ortega e Pepe Mujica estiveram no ponto mais alto da integração latino-americana, baseada em princípios soberanos", indica Cerrón no documento. Ele destaca que esse grupo "deu dignidade ao continente", mas que o Peru "lamentavelmente sempre foi uma decepção diante dessas tentativas".

Castillo tenta também se desvincular do chavismo. Em entrevista, ele disse: "aqui não tem nada de chavismo", e mandou um recado para o regime de Maduro na Venezuela: "Quero dizer ao senhor Maduro que se ele tem algo a dizer a respeito do Peru, que primeiro resolva seus problemas internos". Em outra declaração, afirmou: "Não somos comunistas, não somos chavistas, não somos terroristas. Somos trabalhadores como qualquer um de vocês".

Faltando um mês para a votação, a eleição do Peru pode ser decidida pelo voto dos mais pobres e dos que ainda estão indecisos; a pesquisa da Datum International divulgada na sexta-feira aponta que 22% dos peruanos ainda não sabem em quem votar ou anularão seu voto. Castillo tem 41% da preferência dos eleitores enquanto Fujimori tem 36%.

17 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]