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Gabriel Boric, presidente eleito do Chile, cumprimenta apoiadores após votar no segundo turno da eleição presidencial do país, 19 de dezembro
Gabriel Boric, presidente eleito do Chile, cumprimenta apoiadores após votar no segundo turno da eleição presidencial do país, 19 de dezembro| Foto: EFE/ José Miguel Cárdenas

O deputado e ex-líder estudantil Gabriel Boric foi o vencedor da eleição presidencial do Chile, que teve o segundo turno realizado neste domingo (19). O seu adversário, o advogado conservador José Antonio Kast reconheceu a derrota e parabenizou Boric por sua "grande vitória".

Com 96% das urnas apuradas, Boric aparece com 55,8% dos votos, frente a 44,2% de Kast, segundo os resultados oficiais.

Aos 35 anos, o deputado esquerdista será o mais jovem presidente da história do Chile.

"Queremos avançar para um Estado de bem-estar. O título que me colocam não me preocupa. Se é social democrata, tudo bem", afirmou Boric, que é considerado de "extrema esquerda" pela direita chilena, durante o último debate antes do segundo das eleições, ao final de uma campanha marcada por polêmicas.

Segundo os dados iniciais da apuração, Boric conseguiu ampla vantagem na capital chilena, Santiago, onde está a metade do eleitorado, assim como em grandes núcleos urbanos, como em Valparaíso, onde obteve mais de 20 pontos percentuais de vantagem.

Além disso, superou Kast também na região de Antofagasta, no norte do Chile, onde venceu no primeiro turno Franco Parisi, economista liberal que fez toda a campanha a partir dos Estados Unidos.

Boric se define como ambientalista, feminista e regionalista. Ele será o presidente chileno mais à esquerda desde Salvador Allende, derrubado por um golpe militar e morto por suicídio em 1973.

Boric quer "enterrar" neoliberalismo na América Latina

O ex-líder estudantil e deputado Gabriel Boric aposta em um Estado mais forte e melhores serviços básicos para superar a desigualdade social e econômica, assim como cicatrizar as feridas da revolta popular de 2019.

Crítico ferrenho do modelo neoliberal instalado ainda na ditadura militar e consolidado ao longo da transição democrática, o candidato de esquerda pretende construir no país um Estado de bem-estar similar ao de países europeus, com forte marca ambiental, feminista e regionalista.

"Se o Chile foi o auge do neoliberalismo na América Latina, também será seu cemitério", disse Boric, ainda durante a campanha pela coalizão de esquerda Aprovo Dignidade, formada pelos partidos Frente Ampla e Comunista.

Guinada à centro-esquerda

Desde que terminou em segundo lugar no primeiro turno, realizado em 21 de novembro, com 25,8% dos votos, dois pontos percentuais a menos que o adversário, José Antonio Kast, Boric moderou o discurso para conquistar o eleitorado de centro e espantar o temor gerado no mercado.

O candidato de esquerda se opôs ao legado da coalizão democrata-cristã e socialista que governou o país durante três décadas, após o fim da ditadura. Isso no período em que liderou a Federação de Estudantes da Universidade do Chile e também nos primeiros anos como deputado eleito.

Boric, no entanto, desde a divulgação do resultado do primeiro turno, fez guinadas em direção à centro-esquerda tradicional, ao ponto de ter conseguido o apoio dos ex-presidentes Ricardo Lagos e Michelle Bachelet.

"Jamais disse que estes 30 anos foram perdidos. Acredito que toda geração tem o direito e o dever de analisar criticamente o que fizeram nossos antecessores, para, justamente, poder aprender com isso", afirmou o candidato, durante o último debate com Kast, na segunda-feira anterior à votação.

"As divisões não permitem avançar na justiça social", completou Boric.

No campo econômico, o deputado é favorável a um novo sistema de aposentadorias para substituir o atual, de capitalização individual e herdado da ditadura. Além disso, planeja uma ambiciosa reforma tributária, que inclua maiores cargas aos super ricos e às companhias de mineração.

O objetivo inicial de Boric era arrecadar 8% do PIB, mas agora tem como meta conseguir 5% em quatro anos - já incluída a consolidação fiscal no programa de governo.

"Propusemos avançar com muita responsabilidade, porque todo gasto permanente tem que ser financiado por uma receita permanente. Por causa disso, um dos nossos compromissos é que vamos avançar passo a passo", disse o candidato de esquerda.

Além disso, Boric tem como plano criar um Banco Nacional de Desenvolvimento, perdoar os créditos universitários, reduzir a jornada de trabalho no Chile para 40 horas semanais e criar um fundo universal de saúde.

Presidente mais jovem do Chile

Nascido em Punta Arenas, no sul do país, em 1986, Boric foi alvo de ataques pela idade e pela falta de experiência fora da política. Com a sua vitória, ele será o presidente mais jovem da história chilena.

As figuras mais próximas do candidato ressaltam sua trajetória como líder estudantil. O braço direito de Boric é o também deputado Giorgio Jackson, que foi eleito pela primeira vez para o Parlamento em 2014 e fundou a Frente Ampla três anos depois.

Na reta final da campanha para o segundo turno, ele trouxe para a equipe Izkia Siches, presidente do Colégio Médico do país, especialista em saúde que ganhou popularidade durante a pandemia da Covid-19.

Os principais redutos eleitorais de Boric são Santiago e Valparaiso, no norte do Chile. Por outro lado, outras regiões do norte e o sul são os pontos fracos do candidato de esquerda e onde Kast liderou por ampla margem, graças, principalmente, a um discurso contra a violência, a migração e pela ordem.

Consciente disso, o deputado reforçou a agenda sobre segurança pública e prometeu aumentar o efetivo policial nos bairros mais perigosos do país, além de devolver tranquilidade ao epicentro da convulsão social de 2019, a Praça Itália, onde grupos de encapuzados continuam protestando regularmente, inclusive com alguns distúrbios.

"A lei tem que ser cumprida. Não podem acontecer desordens permanentes às sextas-feiras", disse Boric no último debate eleitoral.

A direita mais tradicional rotula o deputado como sendo de "extrema-esquerda" e relembra constantemente do encontro que ele teve, em 2018, com Ricardo Palma Salamanca, condenado pelo assassinato do ex-senador conservador Jaime Guzmán, considerado o pai da atual Constituição chilena.

Boric pediu desculpas, como também depois que uma jovem militante feminista o acusou de assédio, um episódio que veio à tona na reta final da campanha e foi muito utilizado por eleitores de Kast nas redes sociais.

"Quando erro, sou capaz de corrigir e pedir perdão", disse o deputado de esquerda.

A própria mulher que revelou o caso envolvendo Boric fez manifestação pública para condenar que o assunto tenha se tornado tema da campanha eleitoral deste ano.

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