• Carregando...
A edição do Capital Gazette, de 29 de junho de 2018, é vista em uma banca de jornais em Annapolis, Maryland | MANDEL NGANAFP
A edição do Capital Gazette, de 29 de junho de 2018, é vista em uma banca de jornais em Annapolis, Maryland| Foto: MANDEL NGANAFP

“Hoje nós estamos sem palavras”, dizia o editorial do jornal Capital Gazette na manhã desta sexta-feira (29), um dia após o ataque à redação, que acabou com a morte de cinco de seus funcionários. À frase seguia uma página que trazia somente os nomes das vítimas fatais, sob a explicação: “Esta página foi deixada em branco intencionalmente para homenagear as vítimas do tiroteio que ocorreu em nosso escritório nesta quinta-feira”. 

A redação do jornal, localizada em Annapolis (Maryland), foi atacada por um homem identificado pela polícia como Jarrod Ramos, de 38 anos, por volta das 14h40 (15h40 em Brasília) de quinta-feira (28). Segundo a polícia, ele entrou no prédio e atirou com uma espingarda contra a porta de vidro da redação, matando cinco pessoas e ferindo duas.

O crime provavelmente está ligado a um desejo de vingança de Ramos, que, em 2015, perdeu um processo por difamação que havia apresentado contra o jornal Capital Gazette. “Está bastante óbvio que esse indivíduo tinha um plano de vingança contra o jornal Capital", disse um policial do condado de Anne Arundel, onde ocorreu o tiroteio.

Ramos, que trabalhou no Departamento Federal de Estatísticas do Trabalho e se formou em engenharia da computação, parecia guardar rancor contra o jornal depois que ele foi o assunto de uma coluna que descreveu como ele usava as redes sociais para assediar uma ex-colega de escola, primeiro através do Facebook e depois por e-mails. Ramos se declarou culpado em julho de 2011. Em uma coluna escrita por Eric Hartley vários dias depois, a vítima descreveu como Ramos a perseguia na internet, o que talvez tenha feito com que ela perdesse o emprego. 

Leia mais“Incels”: os homens heterossexuais que não conseguem se relacionar com as mulheres

Ramos então criou um site que detalhava suas queixas contra Hartley e o jornal, e que sua condenação havia sido reduzida a condicional quatro meses depois. "Eu certamente fiz uma coisa", afirma o site, "mas não me rejeite pela forma como fui retratado por este jornal". Em 2012, ele processou Hartley, o editor do jornal, Tom Marquardt, e a Capital Gazette por difamação no Tribunal Distrital do Condado de Prince George. Marquardt disse que ele e Hartley começaram a receber ameaças de Ramos no Twitter. 

Em um post, Ramos escreveu que "adoraria ver o @capgaznews fechar, mas seria melhor ver Hartley e Marquardt pararem de respirar". 

O vice-chefe de polícia do condado de Anne Arundel, William Krampf, disse que a Capital Gazette havia recebido ameaças pelas mídias sociais no início do fatídico dia, mas a polícia não estava ciente das ameaças até depois do tiroteio. 

As vítimas

Rob Hiaasen

Entre os mortos no tiroteio de quinta-feira no jornal Capital Gazette estava o colunista veterano, editor e professor de jornalismo Rob Hiaasen. Com 59 anos, ele havia sido repórter do Baltimore Sun por 15 anos antes de começar a trabalhar para o Capital, em 2010, como editor assistente. Ultimamente, Hiaasen era autor de uma coluna regular de domingo. 

Nascido em Fort Lauderdale e formado na Universidade da Flórida, ele trabalhou como repórter do Palm Beach Post e em estações de rádio.

"Eu só quero que as pessoas saibam que cara incrivelmente gentil, generoso e talentoso meu irmão era", disse Carl Hiaasen, escritor best-seller nos EUA. "Ele era uma presença inesquecivelmente calorosa e edificante como pai e irmão", disse ele. 

"Ele também dedicou toda a sua vida ao jornalismo", disse ele. "E ele adorava esse jornal, adorava essa redação e a ideia do jornalismo local à moda antiga".

Rob também foi professor adjunto da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Maryland.

Ele era o mais novo de quatro filhos e deixou sua esposa, Maria, um filho e duas filhas.

Wendi Winters

Wendi Winters, 65, de Edgewater, Maryland, foi editora e repórter de Comunidade no Capital Gazette, onde escreveu colunas semanais, centenas de artigos e supervisionou a edição de cadernos especiais locais. 

Mãe de quatro filhos, ela dedicou mais de duas décadas de sua carreira ao jornalismo comunitário, destacando a juventude local em suas colunas "Teen of the Week", apontando atrações pouco conhecidas mas charmosas em Maryland em sua série "Off Limits" e cobrindo a cena artística no condado de Anne Arundel e região.

Winters transformava o mundano em um espetáculo. Tudo era importante porque aquela era sua comunidade. Foi o lugar onde ela criou seus quatro filhos e viu alguns deles se tornarem oficiais navais. Era o lugar onde seu pai, formado pela Academia Naval, pediu sua mãe em casamento. E foi o lugar onde ela começou com uma nova carreira e paixão.

Winters passou a primeira parte de sua vida profissional na indústria da moda como consultora de relações públicas e executiva em uma firma de Nova York. Mas depois de se mudar para Maryland, ela fez uma mudança de carreira e começou a trabalhar como freelancer local para mais de uma dezena de publicações na área de Baltimore e Washington, escrevendo sobre moda, artes e eventos da comunidade local. Após 11 anos de freelancer na Capital Gazette, tornou-se repórter em tempo integral no jornal em 2013, e editora em 2016.

Rebecca Smith

Rebecca Smith havia sido contratada pela Capital Gazette recentemente, e foi lembrada pelos ex-colegas como uma pessoa otimista, sempre disposta a ouvir.  

Rebecca tinha 34 anos e trabalhava como assistente de vendas no jornal. Justin Rebbert, de 42 anos, disse que trabalhou com ela em 2013 e a descreveu como uma funcionária alegre, com uma forte ética de trabalho, que estava sempre pronta para conversar, mesmo durante os momentos em que se sentia fraca.  "Se eu ou qualquer outra pessoa quisesse falar com ela, ela estava sempre disposta", disse Rebbert. 

Gerald Fischman

Responsável pelos editoriais no jornal, 61 anos, era um escritor e editor premiado que trabalhou na Capital Gazette por 26 anos. Era conhecido na redação por seu comportamento tímido, escrita incisiva, humor irônico e o cardigã com buracos nos cotovelos que ele sempre parecia estar usando. Ele também era conhecido por estar no escritório a qualquer hora. 

"Não importava se você estivesse trabalhando à noite ou no começo de sábado, ele estava lá", disse Elisha Sauers, repórter do Virginian-Pilot que trabalhou com Fischman na Capital Gazette por oito anos.

Fischman ganhou prêmios de jornalismo da associação de imprensa de Maryland este ano por dois editoriais que escreveu. 

"Ele tinha uma voz muito mais alta em seus escritos do que em pessoa", disse Sauers. "Ele era tão tímido e evitava contato visual, mas era muito mais confiante em sua voz de escritor". 

Fischman se formou na Universidade de Maryland em 1979 e atuou como editor estadual no jornal da escola, The Diamondback. 

John McNamara

John McNamara era um repórter da velha escola. 

"Definitivamente um cara do papel e da caneta", disse David Elfin, coautor de um livro sobre o basquete da Universidade de Maryland com McNamara.

Leia também: Eles perderam seus colegas. Mesmo assim, o jornal vai sair nesta sexta

McNamara trabalhou na Capital Gazette por mais de 20 anos, cobrindo tudo, desde política local até esportes profissionais. Amigos, colegas e jovens jornalistas se lembram dele como uma pessoa gentil e um repórter diligente — alguém que conquistou a confiança e o respeito de seus colegas e fontes. 

Também era considerado um mentor para jornalistas que estavam começando na profissão. Connor Letourneau, agora um repórter esportivo no San Francisco Chronicle, disse que McNamara foi um mentor para ele e outros jovens jornalistas, muitas vezes reservando um tempo para rever histórias ou falar sobre jornalismo como negócio. 

Elfin, que conhecia McNamara havia mais de 30 anos, disse que os dois se conheceram como jovens repórteres cobrindo esportes do ensino médio para o Washington Post. “Ele era o epítome do tipo de jornalista esportivo veterano que você gostaria de conhecer quando estivesse estudando". 

McNamara amava o que fazia, segundo Elfin. 

Letourneau, agora um repórter esportivo no San Francisco Chronicle, Saeed McNamara foi um mentor para ele e outros jornalistas jovens, muitas vezes ter tempo para ler sobre histórias ou falar sobre o negócio do jornal. 

McNamara, que também escreveu um livro sobre o futebol da Universidade de Maryland, adorava o que fazia, disse Elfin. "Ele era apaixonado pela região de DC (Distrito de Columbia) e, especificamente, pela Universidade de Maryland", contou. 

Atirador é processado por 5 homicídios

Jarrod Ramos, 38 anos, está sendo processado com cinco acusações de assassinato depois que atirou, com uma espingarda, contra as portas de vidro da redação do jornal Capital Gazette, em Annapolis (Maryland), matando cinco pessoas e ferindo outras duas na tarde desta quinta-feira (28).

Ramos deve ser levado ao tribunal distrital de Annapolis nesta sexta-feira de manhã para responder pelo ataque, que parece ser o mais mortal envolvendo jornalistas nos Estados Unidos desde o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, segundo a CNN.

A polícia, que chegou ao local dentro de um minuto após o tiroteio ter sido notificado, prendeu o atirador. Ele foi encontrado escondido sob uma mesa na redação, de acordo com o principal oficial do condado de Anne Arundel. 

Ele não estava cooperando com os investigadores até a noite de quinta-feira, disseram autoridades. 

"Essa pessoa estava preparada para entrar, essa pessoa estava preparada para atirar em pessoas", disse o vice-chefe de polícia do Condado de Anne Arundel, William Krampf. "Sua intenção era causar danos". 

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]