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Pessoas aguardam na fila para receberem uma dose da vacina contra Covid-19 Sputnik V em centro de vacinação em Karachi, Paquistão, 5 de abril
Pessoas aguardam na fila para receberem uma dose da vacina contra Covid-19 Sputnik V em centro de vacinação em Karachi, Paquistão, 5 de abril| Foto: Rizwan TABASSUM / AFP

Enquanto a vacinação contra Covid-19 caminha a passos lentos na maior parte do globo, um pequeno número de países autorizou a compra de vacinas pelo setor privado, em uma estratégia para acelerar o retorno à plena capacidade da economia com a imunização da força de trabalho.

Entretanto, especialistas em saúde alertam que a estratégia pode acentuar desigualdades e deslocar as escassas vacinas de grupos mais vulneráveis para pessoas que não estariam necessariamente nos grupos prioritários segundo critérios de saúde pública. Além disso, o setor privado deve encontrar dificuldades para fazer acordos com as farmacêuticas, que no momento preferem vender as doses diretamente para os governos.

Entre os países que já abriram mão da exclusividade da rede pública na vacinação contra o coronavírus estão Indonésia, Paquistão, Colômbia, Índia, México, Tailândia, Malásia e Filipinas.

Vacinas para funcionários e familiares na Indonésia

O quarto país mais populoso do mundo foi um dos primeiros a dar permissão à iniciativa privada para a compra de vacinas contra a Covid-19. O governo da Indonésia autorizou, no final de fevereiro, que empresas privadas comprassem os imunizantes de um fornecedor estatal para distribuir entre os seus funcionários e familiares, de forma gratuita. A iniciativa partiu da Câmara de Comércio e Indústria do país, que fez a proposta ao presidente Joko Widodo argumentando que as doses ajudariam a aumentar a produtividade e a reduzir a pressão sobre o orçamento nacional, já que as empresas pagariam por parte das doses usadas no país.

O programa de vacinação privada deve ocorrer paralelamente ao programa nacional, com vacinas diferentes das que estão sendo usadas na campanha pública de vacinação.

A Indonésia já autorizou o uso das vacinas da AstraZeneca/Oxford e da Sinovac (Coronavac) contra a Covid-19. A vacinação no país tem avançado lentamente: desde janeiro até a quinta-feira, 8 de abril, o país havia distribuído 14 milhões de doses entre a sua população de 270 milhões. Cerca de 4,7 milhões de pessoas (1,7% da população) estão totalmente imunizadas, e pouco mais de 9 milhões de pessoas (3,4% da população) haviam recebido pelo menos uma dose do imunizante, segundo levantamento do Our World in Data.

O governo indonésio negocia com a farmacêutica americana Moderna e a chinesa Sinopharm a compra de 20 milhões de doses para uso no seu programa de vacinação privada. Essas vacinas seriam aprovadas para uso apenas após a autorização do órgão regulador da Indonésia. O plano do governo é inocular 181 milhões de pessoas até março de 2022.

No entanto, especialistas de saúde do país alertaram que o programa privado pode ameaçar o acesso igualitário às vacinas e permitir que pessoas "furem a fila", além de abrir margem para corrupção. Eles argumentam que as doses escassas seriam direcionadas a indonésios de classes média e alta relacionados a empresas, em detrimento de pessoas mais velhas e de grupos mais vulneráveis. O epidemiologista Pandu Rionu, da Universidade da Indonésia, disse ao Wall Street Journal que seria melhor se as corporações doassem as doses para ajudar o governo a reforçar o fornecimento de vacinas para toda a população, e não apenas para proprietários de empresas, seus funcionários e suas famílias.

Até meados de março, mais de 11.500 empresas já haviam se cadastrado para o plano de vacinação, segundo o Jakarta Post. A Câmara de Comércio e Indústria da Indonésia pretende vacinar 30 milhões de pessoas neste ano com o programa privado.

"O entusiasmo é grande para participar desse programa porque o custo de fazer testes regulares de Covid é muito alto para as empresas. É melhor que as companhias aloquem recursos para vacinar seus funcionários", disse Shinta Kamdani Widjaja, diretora da Câmara de Comércio e Indústria, em entrevista coletiva em fevereiro, segundo a imprensa local.

Paquistão tem longas filas de jovens

O Paquistão, que depende em grande parte da iniciativa Covax para vacinar sua população contra o coronavírus, liberou em fevereiro a compra de vacinas por empresas privadas.

Atualmente, o Paquistão está distribuindo as vacinas gratuitamente para profissionais de saúde e pessoas com mais de 50 anos. Mas o país vacinou apenas cerca de 0,5% de sua população até o momento, com 1,1 milhão de doses aplicadas – a maior parte doada pela China. O governo paquistanês já aprovou o uso dos imunizantes desenvolvidos pela Sinopharm, Cansino, Coronavac, AstraZeneca/Oxford e da Sputnik V.

O primeiro lote de 50 mil doses da Sputnik V importadas da Rússia pelo setor privado chegou ao Paquistão em meados de março. Outras entregas da chinesa Cansino eram esperadas para este mês. O pacote com duas doses de Sputnik V está sendo vendido ao público por cerca de US$ 80 (R$ 455).

Mesmo com o alto preço, a procura pelas primeiras vacinas comercializadas no país foi grande. As primeiras doses que chegaram a Karachi, no final de semana passado, se esgotaram já no domingo (4). Os centros de saúde registraram longas filas, formadas por uma maioria de jovens que não estão nos grupos prioritários da vacinação gratuita do governo.

Uma disputa entre o governo do Paquistão e as farmacêuticas sobre questões de preço atrasou a comercialização das vacinas no país. O governo inicialmente havia concordado em não impor um limite de preço sobre as doses, mas depois mudou de ideia.

A farmacêutica AGP, que importou as 50 mil doses de Sputnik V, havia pedido a um tribunal a permissão para vender as vacinas por US$ 80, segundo noticiou a Reuters. O custo do pacote de duas doses para a empresa foi de U$ 45, segundo a AGP. A proposta do governo era de que o pacote de duas doses fosse vendido por cerca de U$ 55 (R$ 313).

O tribunal ordenou, no começo do mês, que o produto fosse colocado à venda imediatamente devido à urgência da crise, enquanto o preço justo é decidido.

Também no Paquistão o esquema de vacinação privada causou controvérsia. A organização anticorrupção Transparência Internacional fez um apelo ao primeiro-ministro Imran Khan para cancelar a importação privada de vacinas da Covid-19, citando preocupações com preço e potencial para corrupção. Especialistas em saúde também argumentaram que o plano poderia agravar desigualdades, ao permitir que cidadãos mais ricos fossem para o começo da fila da vacinação.

Empresas apoiarão fase 2 na Colômbia

O Ministério da Saúde da Colômbia publicou na segunda-feira (5) uma resolução temporária que define as regras para que o setor privado compre vacinas contra a Covid-19 para apoiar a segunda fase da imunização no país – quando a vacinação estará disponível para maiores de 16 anos sem comorbidades. O documento seguiu para consulta pública antes da emissão do decreto definitivo.

Entre as condições que as empresas terão que cumprir para "negociar, adquirir e importar" as doses estão garantir a aplicação e assumir os custos de importação e distribuição. As vacinas terão que ser oferecidas gratuitamente à população e o processo não poderá interferir no plano nacional de vacinação colombiano. As empresas terão ainda que ter uma política sobre riscos e atender aos pacientes que tenham reações adversas após a inoculação. Apenas vacinas autorizadas pelo Ministério da Saúde poderão ser usadas, e elas terão que ser aplicadas em instalações de prestadores de saúde autorizados.

O documento diz ainda que o setor privado não poderá comprar vacinas acima dos preços resultantes das negociações centralizadas do governo. Estima-se que as doses comecem a ser importadas por esse setor entre maio e junho.

Para o seu plano público de vacinação contra Covid-19, o governo da Colômbia já negociou com a Pfizer, AstraZeneca, Janssen, Sinovac e Moderna, além de acordo com a Covax, segundo a imprensa local.

Até a sexta-feira (9), a Colômbia já havia aplicado 2,95 milhões de doses de vacinas contra o Sars-CoV-2. Cerca de 1,5% dos colombianos já foram totalmente imunizados, enquanto 4,3% receberam a primeira dose, segundo o Our World in Data.

Maioria discorda da vacinação privada

Segundo uma pesquisa da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), feita em 13 países pela Universidade de Oxford e outras dez instituições, a maioria das pessoas acredita que a vacinação contra a Covid-19 deve ser feita apenas pela rede pública de saúde. Na entrevista feita com 15,5 mil adultos dos cinco continentes, pelo menos dois terços dos entrevistados de cada país, incluindo o Brasil, contestaram a distribuição de vacinas por entidades particulares.

"Se as vacinas contra a Covid-19 forem alocadas de forma privada será essencial desenvolver políticas para garantir que isso não prejudique a capacidade de um país de adquirir as doses necessárias para campanhas de vacinação administradas pelo governo. Idealmente, o acesso privado complementaria a provisão pública para maximizar os ganhos de saúde e econômicos da vacinação e minimizar o potencial de corrupção", disseram os pesquisadores no documento.

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