O fato de que 97% das exportações chinesas para o Brasil são manufaturados, enquanto o grosso das nossas vendas à China é constituído por soja em grão e minério de ferro, caracteriza um dos mais puros exemplos do que se costumava chamar outrora de relação assimétrica norte-sul ou simplesmente colonial.

Por outro lado, a circunstância notável de que neste início de ano as vendas brasileiras a Pequim aumentaram 66%, no momento em que caíam mais de 15% para o resto do mundo, indica que não temos motivo a não ser nos regozijarmos por ainda termos um grande comprador para compensar o colapso dos outros.

Sem entrar na polêmica acerca da alegada redução na escala da recente visita presidencial à China, devo dizer que os resultados me pareceram bastante razoáveis. Se for verdade que a decepção com o tratamento chinês acarretou encolhimento nas expectativas, também isso representa saldo positivo.

Nada pior, com efeito, do que o estardalhaço do anúncio, por ocasião da primeira visita a Pequim do atual presidente, de megainvestimentos jamais concretizados. Ou a retórica excessiva a respeito de parcerias estratégicas com país que, obviamente e com boas razões, não nos considera como iguais em poder estratégico ou força econômica.

É preciso que governo e imprensa aprendam a lidar com visitas presidenciais de modo sóbrio e realista. Com a China, a Índia, os africanos e outros, a troca de visitas tornou-se rotina há 25 anos, desde o estabelecimento do regime civil e a normalização das relações com todos os países. Nenhuma delas foi ou será "transcendental", como dizem nossos vizinhos.

Manda o realismo que as relações com a China sejam tratadas pelo que já são, que é muito, sem necessidade de exageros. De tudo o que o gigante asiático significa para nós e os demais exportadores de produtos oriundos de recursos naturais, o principal é sua função de fonte extraordinária de demanda de matérias-primas.

O panorama desses produtos parecia condenado ao chamado "declínio secular das cotações". Encerrado o ciclo de expansão rápida do pós-guerra, as economias industrializadas maduras da Europa e do Japão davam a impressão de saturação na demanda por matérias-primas ou apenas cresciam de modo vegetativo. Os EUA são autossuficientes ou grandes exportadores de alimentos e alguns minérios.

A emergência de uma baleia gigante disposta a engolir descomunais cardumes de minérios e alimentos transformou os mercados de commodities e reverteu a tendência declinante. A firmeza da demanda e, em parte, dos preços, mesmo durante a atual crise, mostra que o real fator decisivo para a valorização das commodities não era o aquecimento da economia mundial, mas sim a China. Esperemos que, não sendo eterna, essa demanda seja infinita enquanto dure.

Se quisermos equilibrar a qualidade da balança vendendo manufaturas aos frios e pragmáticos chineses (ou aos japoneses e europeus), temos de seguir o exemplo chinês. A primeira condição é câmbio favorável. Sem isso, é melhor esquecer.

Quanto ao amor próprio e os sonhos de grandeza, conviria meditar as palavras de Joaquim Nabuco em seu diário: "Não se fica grande por dar pulos. Não podemos parecer grandes, senão o sendo. O Japão não precisou pedir que o reconhecessem grande potência, desde que mostrou sê-lo".

Rubens Ricupero é diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo. Foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

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