Bonés de apoio a Donald Trump, vendidos em comício de 18 dezembro, em Michigan.
Bonés de apoio a Donald Trump, vendidos em comício de 18 dezembro, em Michigan.| Foto: Scott Olson/Getty Images/AFP

Woke. Uma versão corrompida e informal de “awake”, que significa “acordado” em português. Essa é a palavra do momento na parcela progressista dos Estados Unidos. Ela está no dicionário Merriam-Webster desde 2017, mas ainda é pouco conhecida fora das bolhas mais militantes, em especial na internet. A definição do Merriam-Webster diz que a expressão “fique woke” se tornou “uma palavra de ordem em partes da comunidade negra para aqueles que são autoconscientes, questionando o paradigma dominante e buscando algo melhor”.

Originalmente uma gíria usada pela população negra, a palavra “woke” começou a ser popularizada por meio da música “Master Teacher”, gravada em 2008 pela cantora de R&B Erykah Badu e que se referia à resiliência em meio às dificuldades da vida. Mas os registros do Google mostram que a palavra se tornou popular em 2014, depois que o movimento radical Black Lives Matter passou a adotar o termo como um sinônimo de “extremamente engajado”.

O Black Lives Matter surgiu com o objetivo de denunciar o que seria um tratamento injusto por parte da polícia contra os negros. Inspirado por movimentos dos anos 1960, como os Black Panters, o grupo adotou um discurso mais agressivo e intransigente do que o de outras organizações de defesa da população afro-americana.

Ser "woke" é estar atento às chamadas injustiças sociais, onde quer que seja, o que necessariamente implica na politização de cada aspecto da vida cotidiana, sempre pelas lentes mais extremistas do progressismo.

Uma característica da cultura woke é seu funcionamento em uma espiral que exige níveis de “pureza” ideológica cada vez maiores. O Partido Democrata tem até mesmo um pré-candidato à Presidência abertamente homossexual (e legalmente casado com seu parceiro), Peter Buttigieg. Mas não parece ser o bastante: Shannon Keating, editora do site de esquerda BuzzFeed, publicou um artigo que critica Buttigieg por não ser suficientemente engajado. Para ela, a candidatura de Buttigieg, que apoia todos os pontos principais da agenda LGBT, peca por não ser “revolucionária”.

Em outro exemplo da autofagia criada pelo radicalismo da esquerda americana, integrantes do movimento Black Lives Matter, liderados por um homem branco, interromperam aos gritos um evento de afro-americanos em apoio a Peter Buttigieg em Indiana. O homem branco retirou o microfone da mão de uma vereadora negra e gritou coisas como “Quem escolheu essas pessoas como líderes negras?”. O episódio aconteceu no começo de dezembro.

Algumas semanas atrás, a espiral de radicalismo encontrou a oposição de um porta-voz poderoso: o ex-presidente Barack Obama, idolatrado pelos progressistas de todas as matizes, lançou um alerta público sobre as consequências desse tipo de comportamento: “Esta ideia de pureza, e de que você nunca cede, e que é sempre politicamente ‘woke’ e tudo isso”, ele disse, “vocês devem deixar isso para trás rapidamente”. Obama prosseguiu: “Se tudo o que você faz é jogar pedras, você provavelmente não vai muito longe”.

A advertência de Barack Obama provavelmente deriva do receio de que os Democratas, muito radicalizados à esquerda, sejam novamente derrotados por Donald Trump na próxima eleição presidencial, em novembro de 2020. É um temo bem fundamentado.

Nos Estados Unidos, depois da emergência de grupos mais radicais à esquerda e de protestos violentos em 1968, o conservador Richard Nixon acabou eleito presidente. Na França, onde manifestações ainda mais agressivas ocorreram no mesmo ano, o resultado foi a vitória do linha-dura Charles de Gaulle nas eleições seguintes. Assim como, no Brasil, protestos anárquicos de 2013 e a radicalização da agenda da esquerda desembocaram na eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

A fala de Obama revela um problema maior vai além da cultura woke: o partido Democrata está se tornando cada vez mais radical à esquerda (alguns podem dizer que o Partido Republicano está cada vez mais direitista, mas a diferença é que os Democratas estão perdendo a guerra, enquanto os republicanos têm a Presidência, o Senado e a maioria dos governos e assembleias estaduais).

Segundo uma pesquisa feita pela Universidade Quinnipiac e divulgada em outubro, 47% dos americanos acham que o Partido Democrata se moveu muito para a esquerda (enquanto 37% deles acham que o Partido Republicano foi muito para a direita).

O então presidente Bill Clinton, por exemplo, defendia o aborto legal mas “raro”, apoiou uma emenda à Constituição que definia o casamento entre um homem e uma mulher, adotou uma posição rigorosa no combate ao crime e promoveu reforma que enxugou programas de bem-estar social.

Hoje, nenhum dos principais pré-candidatos democratas apoia qualquer restrição sobre o aborto (inclusive na fase final de gestação), todos defendem integralmente a agenda LGBT e, em um debate na rede NBC em junho, quando perguntados se defendiam a assistência de saúde estatal para imigrantes ilegais, todos ergueram a mão.

O temor de figuras mais experientes do partido, como Obama, é o de que, influenciada pela militância mais radical (que não encontra eco no eleitor médio), a sigla não consiga recuperar os votos perdidos para os Republicanos em 2016, quando Donald Trump venceu inclusive em algumas regiões majoritariamente democratas. O difícil vai ser convencer a militância “woke” a dar um passo atrás.

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