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Como formar idiotas

  • Gabriel Ferreira
 
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Deve ser interessante viver no universo paralelo existente na mente de um desses privilegiados, responsáveis por pensar as grandes questões e resolver os grandes problemas em nosso lugar, enquanto nós seguimos tranquilos com a nossa vida medíocre. Soube há poucos dias que a Secretaria de Educação da província de Buenos Aires, a mais populosa da Argentina, vai acabar, já a partir do ano que vem, com as notas baixas das escolas primárias públicas e privadas.

Se você não é um desses luminares da humanidade, você pensou, assim como eu, que se trata de uma medida enérgica para dar um salto absoluto de qualidade no ensino básico. Ingênuo. Assim como eu. Do mesmo modo que por aqui, quando o governo não consegue honrar os compromissos, ele muda a lei, por lá as notas baixas serão eliminadas na base da canetada. Mas não a dos alunos; a da secretária. A partir de 2015, as notas válidas serão de quatro a dez e a média para ser aprovado será sete.

Mas alto lá! Há uma justificativa. Segundo a secretária, Nora de Lucia, o objetivo da medida é evitar “afetar a autoestima” do aluno. Em entrevista, ela disse ainda que acha que “um aluno que muitas vezes é brilhante em uma matéria acaba ficando desestimulado quando recebe um zero ou outra nota baixa em outra matéria. Acho que devemos cuidar da autoestima da criança”. E você aí, achando que o dever da escola era ensinar.

Chega a ser constrangedor comentar a “boa intenção” da secretária. Ela não só deve pertencer àquela autodeclarada elite intelectual que sabe sempre a melhor alternativa para resolver os problemas dos outros (contando sempre, é claro, com uma “excelente” justificativa), mas também, como György Lukács, citando o filósofo alemão Johann Fichte, acha que, se os fatos não condizem com o que ela pensa, “pior para os fatos”. Se alguns alunos, por vezes, tiram notas baixas, pior para as notas.

O que ela talvez não saiba, em sua generosa cruzada contra qualquer ameaça à autoestima dos alunos, é que está contribuindo para criar uma leva de idiotas – que no grego indicava aqueles voltados apenas para si mesmos – cheios de autoconfiança, o que está certamente entre as coisas mais perigosas deste mundo. É aquilo que se pode chamar de “geração curling”. Você deve se lembrar daquele esporte de inverno no qual alguém faz deslizar uma pedra em uma pista, enquanto outros dois atletas vão esfregando e alisando o gelo à frente, a fim de facilitar o caminho. Essa legião de jovens – que, lembre-se, tornar-se-ão adultos – irá formar sua personalidade sendo privada da mais mínima experiência do fracasso, não importando qual seja o seu desempenho, e com a firme expectativa de que o mundo tem o dever de aplainar a estrada à sua frente; que os professores devem defendê-los de seus próprios erros, que os chefes devem “motivá-los” a trabalhar bem e que, por fim, o Estado deve converter em direitos pétreos todos os seus caprichos. Em suma, não formamos nem pessoas intelectualmente capazes, nem tampouco seres humanos aptos a viver bem consigo mesmos e em sociedade.

Há uma história, talvez inverídica, de que o The Times perguntou certa vez ao escritor e pensador inglês Gilbert Keith Chesterton o que estava errado no mundo. Ele, então, teria respondido simplesmente: “Dear Sir, I am”. Se a pergunta fosse feita a um desses iluminados que têm em suas cabeças a solução para o universo, ele diria: “You fool, the world!”

Gabriel Ferreira é mestre em Filosofia pela PUC-SP e doutorando em Filosofia pela Unisinos.

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