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Pelas investigações da PF, manchas de óleo que atingiram o Nordeste foram do navio Bouboulina.
Pelas investigações da PF, manchas de óleo que atingiram o Nordeste foram do navio Bouboulina.| Foto: Bruno Concha/ Secom

Mais do que um acidente trágico, o derramamento de óleo nas praias do Nordeste é um crime ambiental que tem perdurado por aproximadamente dois meses – o maior já registrado no país. Com mais de 240 locais atingidos pelos resíduos de petróleo, sendo 92 municípios, a situação afeta a vida animal, de moradores locais, sem contar o prejuízo econômico para as regiões que dependem da pesca e do turismo.

Além disso, há no petróleo – que é um combustível fóssil – uma substância chamada benzeno. Ele é extremamente tóxico e, mesmo que as placas de óleo sejam retiradas das praias e não se possa mais vê-las, não significa que esses componentes químicos não estejam mais na água. Se houver mais de 0,7 mg de benzeno por litro de água, ela fica imprópria para banho e pesca. E sempre há a possibilidade de um quadro ainda pior. Quanto mais o tempo passa sem solução, mais caminhamos para essa opção.

Os resíduos devem ser armazenados em sacolas resistentes, ao contrário do que está ocorrendo em diversos locais afetados

Apesar das investigações conduzidas pela Marinha, ainda não se sabe o que ocasionou o derramamento. As especulações vão desde navios fantasmas vindos da Venezuela até uma nova possível causa apontada pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), vinculado à Universidade Federal de Alagoas, de que a poluição é fruto de grande vazamento em minas de petróleo ou da região do pré-sal.

Mas, enquanto não se encontram culpados (e, consequentemente, soluções), a população não deve entrar em contato com o óleo sem o equipamento de proteção. Já há relatos de voluntários com intoxicações após contato direto com a substância. É preciso limitar a área de pesca e utilizar máscaras que contenham filtros de qualidade para se proteger desses gases, e não apenas protetores de nariz, como tem sido visto. E não é recomendado utilizar bermudas para entrar no mar, e sim calças e botas. O estrago já está bem grande, mas pode piorar.

Até porque, para além dessas questões, há ainda algo urgente que deve ser pensando: o descarte desse óleo. De acordo com o guia público de boas práticas para a limpeza de locais contaminados da Federação Internacional de Poluição por Petroleiros (ITOPF, na sigla em inglês), esses resíduos devem ser armazenados em sacolas resistentes, ao contrário do que está ocorrendo em diversos locais afetados, em que sacolas arrebentam, podendo gerar contaminação secundária ainda na praia ou no transporte. A recomendação é usar sacolas de borracha, e podem até ser reutilizadas sacolas de fertilizantes. Depois, elas devem ser colocadas em cima de mantas de plástico para não contaminar a areia ou o local de armazenamento.

As alternativas para concluir esse processo também são imprescindíveis para evitar problemas ainda maiores, como dar um fim adequado ao material recolhido diariamente nas praias brasileiras. Há opções em voga além da incineração, que libera gases que afetam o meio ambiente e podem provocar até chuva ácida e efeito estufa. Em Pernambuco, o material está sendo transformado em um resíduo que alimenta os fornos das fábricas de cimento. Pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA) estão transformando o petróleo cru em carvão em um processo que, para cada 20 quilos de petróleo cru, utiliza 200 ml de removedor de esmalte, álcool comercial 99% e dois quilos de pó de serragem.

Encontrar logo a origem, evitar a repetição da contaminação, limpar e destinar corretamente esses resíduos pode decidir como será a vida de milhões de brasileiros, talvez, de todos nós.

Francisco Oliveira, engenheiro civil e mestre em Mecânica dos Solos, Fundações e Geotecnia, é fundador da Fral Consultoria.

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