Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
  • Ícone FelizÍcone InspiradoÍcone SurpresoÍcone IndiferenteÍcone TristeÍcone Indignado
 | Robson Vilalba/Thapcom
| Foto: Robson Vilalba/Thapcom

Muitas pessoas observam as discrepâncias estatísticas na sociedade e concluem automaticamente que elas se devem a algum tipo de preconceito, de discriminação. Os salários mais baixos, na média, das mulheres ou dos negros precisam ter uma explicação no machismo ou racismo, pensam essas pessoas. Mas será que isso faz algum sentido?

Thomas Sowell mergulhou nesse tema em seu novo livro, Discrimination and Disparities. Como de praxe, Sowell traz argumentos sólidos, lógica e dados concretos para o debate, ou seja, não fala a quem só quer repetir slogans ou monopolizar as virtudes em busca de uma sensação artificial de superioridade moral. Ele fala a quem quer pensar.

O autor desperta a fúria dos líderes de movimentos de “minorias” justamente por isso: ao focar na verdade, descarta o sensacionalismo. O fato de ser negro é uma agravante, pois anula a possibilidade de rejeitar seus pontos com base na acusação de racismo. O livro é dedicado a outro liberal negro, o professor Walter Williams, que também tem um livro desmontando a falácia do racismo como bode expiatório para desigualdades e mostrando que o livre mercado é o melhor amigo dos negros (e brancos, mulheres, gays etc.).

Logo no começo, Sowell lança uma provocação sobre as chances de sucesso em alguma área qualquer. Ele nos pede para imaginar uma atividade em que as chances de alguém ter qualquer um dos cinco requisitos básicos para destaque sejam de dois terços, uma chance elevada. Mas, se o sucesso demanda os cinco requisitos juntos, então a possibilidade de alguém unir todos cai para 32/243, ou seja, apenas um em oito, aproximadamente.

É absurdo esperar um sucesso igualmente distribuído pela sociedade, de forma aleatória

Com esse exercício hipotético simples, Sowell lembra-nos que é absurdo esperar um sucesso igualmente distribuído pela sociedade, de forma aleatória. Alguns indivíduos ou grupos ou nações conseguem desenvolver, ao longo do tempo, certos atributos que levam ao destaque, a uma conquista que somente parcela ínfima do todo terá. Alguém pode ter um talento natural, mas não teve boas oportunidades. Outro pode ter oportunidades e talento, mas é preguiçoso. E por aí vai.

Sowell tem apreço pela comprovação empírica das teorias, e mostra ao longo do livro que as evidências não sugerem o preconceito como fator crucial para as disparidades encontradas. São muitos fatores em jogo e, como basta falhar em alguns para obter resultados bem diferentes, a explicação se mostra muito mais complexa no mundo real. Até mesmo filhos dos mesmos pais, criados no mesmo ambiente, apresentam resultados distintos, o que anula a possibilidade de discriminação nesses casos.

O ambiente familiar, aliás, aprece como fator importante nas pesquisas, assim como o fator cultural. Por isso Sowell critica tanto a narrativa de vitimização típica das “minorias”, em especial o ataque à alta cultura nos guetos dominados por negros. Com mais de 70% dos filhos de negros americanos sem a figura do pai em casa, e com a acusação de “agir como branco” se for buscar um aprendizado correto da língua ou formação clássica, fica complicado se destacar depois.

Poucos povos sofreram tanto preconceito como o judeu. No entanto, isso não os impediu de enormes conquistas. Quando direitos iguais foram concedidos, primeiro pelos Estados Unidos no final do século 18, depois pela Europa, o fluxo de judeus para universidades deslanchou. Com a ajuda do aspecto cultural, o “povo do livro” se destacou em diversas áreas. Com menos de 1% da população mundial, judeus receberam 22% dos Prêmios Nobel em Química, 32% em Medicina e 32% em Física.

Sowell divide a discriminação em duas categorias, sendo a primeira aquela necessária para nossa tomada de decisão racional, baseada em fatos, e a segunda sendo o preconceito, com base em premissas arbitrárias como aversão ao sexo ou “raça”. Todas as políticas estatais surgem como reação ao segundo tipo, mas ele não é o único, nem sequer o predominante. Muitas vezes as pessoas julgam e discriminam com base em fatos, e todos nós discriminamos o tempo todo – é a própria definição de escolha. Preferir uma marca a outra é “discriminar”, nesse primeiro sentido.

Paulo Cruz: Estupidez estrutural (10 de maio de 2018)

Alexandre Borges: Os cafetões de minorias (21 de janeiro de 2014)

O mercado avalia desempenho, e às vezes, para economizar o custo da informação individual, faz isso por meio de agregados, de estatística, sendo impossível fazê-lo caso a caso. Homens jovens pagam mais caro pelo seguro do carro, pois costumam causar, na média, mais acidentes. Não é um preconceito, e sim uma discriminação racional da seguradora. Se, de forma análoga, negros praticam mais crimes, na média, serão abordados com maior frequência pela polícia. Discriminação racional, ou puro preconceito racial como supõe a esquerda?

Utiliza-se o fato de que a proporção de negros presos é bem maior que os 13% da população que representam, mas alguém que alegasse viés racial para falar da grande quantidade relativa de negros na NBA seria ridicularizado pela evidente falácia lógica, aponta Sowell. Correlação não é o mesmo que causalidade e a presença desproporcional em alguma coisa qualquer não é prova de racismo ou preconceito.

Falar disso no mundo atual já soa absurdo, mas só porque a marcha das “minorias oprimidas” tem asfixiado o debate livre racional. O problema, diz Sowell, é que são as “minorias” os maiores prejudicados com essa postura. O salário mínimo, por exemplo, pune de forma desproporcional os jovens em geral, e os jovens negros em particular, ao impor um salário acima do de mercado. Como os jovens são menos experientes e produtivos, acabam punidos com o desemprego.

Mas as estatísticas manipuladas ignoram isso e focam nas disparidades de grupos como se fossem resultado do preconceito, nada mais. Ao se falar dos 1% mais ricos, ou dos 20% mais pobres, ignora-se a enorme mobilidade dentro dessas faixas, como se elas fossem formadas pelos mesmos indivíduos, num grupo estanque. Nada mais falso. Entre os mais ricos de hoje, menos da metade fazia parte desse grupo há uma década, e entre os mais baixos salários há muitos que são apenas jovens começando no mercado de trabalho, e vão ascender na vida depois. Detalhes bobos para quem quer o efeito sensacionalista de chamadas sobre a desigualdade, para quem coloca a retórica acima da verdade.

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]