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Em um país tão grande e com tantas diferenças como o Brasil, seria temerário pensarmos que as soluções para a melhoria da educação sejam padrões e que dependam apenas de políticas vindas do governo federal. No entanto, é interessante conhecermos experiências bem-sucedidas que vêm acontecendo em municípios pequenos e que pouco conhecemos. São práticas educacionais que podem nos mostrar que, independentemente das particularidades locais, é possível encontrar resultados que evidenciam o sucesso na aprendizagem, que não são custosos e podem, sim, servir de inspiração e exemplo para tantas outras localidades.

Como consultora da Unesco em um projeto executado pelo MEC, tive a oportunidade de, no final do ano passado, visitar dois municípios no interior de Alagoas: Jequiá da Praia e Coruripe. Apesar de serem comunidades pobres, conseguiram fazer com que seus alunos obtivessem resultados de aprendizagem que se destacaram frente a todos os outros municípios de Alagoas, se estabelecendo bem acima da média no Brasil.

Jequiá e Coruripe têm, respectivamente, 76% e 67% dos alunos com aprendizagem adequada em português, e 69% e 66% dos alunos com aprendizagem adequada em matemática na última Prova Brasil realizada em 2015. Para se ter uma melhor ideia do que isso significa, em Alagoas a média de alunos foi de 30% em português e 20% em matemática. Já no Brasil, também na mesma prova, os resultados foram de 51% dos alunos em português e 39% em matemática.

Com um planejamento bem detalhado, a equipe gestora junto com os professores realizam avaliações externas todos os meses do ano letivo

Então, nos perguntamos: o que fazem aqueles dois municípios alagoanos para que seus alunos tenham tão bons resultados?

Na pesquisa realizada, envolvendo professores, dirigentes locais e alunos, identifiquei cinco fatores que considero fundamentais para explicar os resultados positivos:

Comprometimento: os professores e a equipe técnica das secretarias, incluindo os próprios secretários de Educação, trazem para si o compromisso e a responsabilidade pela aprendizagem das crianças. Mesmo relatando as diversas dificuldades que afetam o rendimento escolar, tais como, baixo nível educacional dos pais dos alunos, famílias desestruturadas, falta de materiais didáticos, infraestrutura ruim das escolas etc., eles estão sempre buscando caminhos/soluções para que as crianças possam frequentar as aulas e aprender, independentemente das condições de vida que elas têm.

Monitoramento contínuo da aprendizagem: com um planejamento bem detalhado, a equipe gestora junto com os professores realizam avaliações externas todos os meses do ano letivo. Eles verificam o que cada uma das crianças está aprendendo e o que ainda não conseguiu. De posse dos resultados, um reforço contínuo que complementa a forma de ensinar é oferecido aos alunos.

Leia também: Hipotecando o futuro (artigo de Alexandre Cunha, Carlos Strapazzon e Anderson dos Santos, publicado em 9 de agosto de 2018)

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Trabalho integrado: todos os profissionais envolvidos com a educação sabem quais são os objetivos pedagógicos que querem alcançar e reconhecem a importância de se trabalhar em equipe. Esse sentimento de pertencer a um grupo que trabalha unido, contribui fortemente para que se mantenham e se aprimorem os projetos que desenvolvem.

Foco no ensino-aprendizagem: o enfoque é dado nas ações que promovem a aprendizagem das disciplinas básicas. Isso, na prática, significa que o tempo destinado à essas aulas é fundamental e que não se permite dispensar os alunos ou trocar a atividade quando um professor falta, ou por qualquer outro motivo. As aulas são sempre repostas. São rigorosos com a elaboração e execução do calendário letivo: 200 dias voltados às atividades que contribuam para a aprendizagem dos conteúdos do currículo escolar.

Liderança: a presença de um ou mais líderes nas equipes das secretarias faz com que consigam unir e motivar a equipe para alcançar os objetivos que desejam. Em ambas, o papel dos secretários é fundamental.

Ainda que esses municípios apresentem resultados tão importantes, a formação dos seus professores é ainda limitada e, sem dúvida alguma, há muito o que se pode realizar no campo do aperfeiçoamento pedagógico. De qualquer modo os caminhos traçados por esses municípios, na educação básica, podem ser vistos como valorosas bases de inspiração para tantas outras localidades nesse Brasil grande e diverso.

Márcia Teixeira Sebastiani, doutora em educação pela Unicamp, atualmente é consultora.
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