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Falta de valorização dos ecossistemas aproxima humanidade da próxima pandemia

  • PorJohn James Loomis
  • 04/09/2020 19:38
Ministério do Meio Ambiente deseja se comprometer a conservar 390 mil hectares de floresta nativa na Amazônia, área menor do que 0,1% da Amazônia Legal.
A crescente demanda e exploração de recursos naturais alterou os ecossistemas.| Foto: Vinicius Mendonça/Ibama

A crescente demanda e exploração de recursos naturais alterou os ecossistemas e levou as populações humanas a cada vez mais se aproximarem de animais selvagens que podem ser vetores de doenças. Acredita-se que o surto de Covid-19 começou em um “mercado úmido”, na China, quando a doença foi transmitida de um morcego para um pangolim, e de um pangolim para um humano. Além disso, o tráfico de animais selvagens e outros problemas ambientais relacionados à alteração, destruição e invasão de ecossistemas pela humanidade aumentam a probabilidade de doenças zoonóticas contaminarem populações humanas e atingirem níveis endêmicos.

Isso não é apenas uma teoria. Aconteceu com o vírus de Nipah, em 1999, na Malásia; com o vírus Sars, em 2003, na China; com o vírus Ebola, em 2014, na Guiné; e com os vários casos de influenza (gripe aviária, suína etc.) que o mundo já enfrentou. Todos esses surtos surgiram de animais e, no caso do vírus de Nipah e do Ebola, devido à aproximação de populações em ecossistemas outrora isolados.

Há várias causas da destruição e invasão dos ecossistemas, mas as mais relevantes são o crescimento da população humana global, a urbanização e a industrialização da agricultura. O crescimento populacional resulta no aumento da procura por recursos naturais. A tendência de migração para centros urbanos resulta na sua contínua expansão. Esses centros urbanos sempre sobrecarregam mais os ecossistemas por serem grandes consumidores de materiais e energia e também por produzirem altas quantidades de resíduos e esgoto, que acabam impactando o ambiente. A industrialização da agricultura resulta em monoculturas, que ameaçam a biodiversidade e a resiliência dos ecossistemas. Insetos e roedores, por serem vetores principais de doenças, tendem a ser os animais que mais se beneficiam desses impactos antropogênicos. Além disso, o uso excessivo de pesticidas, medicamentos e outros contaminantes lançados no ambiente acarreta em mudanças genéticas em microrganismos e aumenta a probabilidade de essas doenças zoonóticas alcançarem populações humanas.

Essas tendências não acontecem por acaso. Os motores centrais da destruição e invasão dos ecossistemas são econômicos e sociais e requerem soluções complexas que, por conseguinte, dependem de profissionais com visão interdisciplinar. São necessárias também pesquisas que fundamentem a proposição de políticas públicas de incentivo para que todos os envolvidos (sociedade, governo, empresas privadas, ONGs) valorizem esses benefícios dispersos e possam, cada vez mais, negar mercados que não considerem os custos verdadeiros das atividades humanas.

A pandemia que estamos vivendo e seus impactos multidimensionais (ambientais, sociais, econômicos e governamentais) nos fazem refletir sobre cenários futuros de dificuldades que ainda enfrentaremos diante de outros problemas altamente complexos, como as mudanças climáticas. Para resolver tais desafios multidimensionais, é importante que os governos orientem suas decisões a partir do fortalecimento da educação e da ciência, porque, embora não possamos evitar a próxima pandemia, podemos tomar medidas para recuperar e fortalecer os ecossistemas que, em última instância, servem como barreiras para o surgimento de doenças.

John James Loomis, doutor em Gestão Ambiental e mestre em Gestão Internacional de Fluxos de Materiais pela Trier University of Applied Sciences, é professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental (PPGAMB) e da Business School na Universidade Positivo (UP).

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