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Há espaço para compaixão no capitalismo

  • PorJosé Pio Martins
  • 04/09/2020 08:44
Há espaço para compaixão no capitalismo
| Foto: Pixabay

O indiano Rajendra Sisodia, professor no Babson College, Estados Unidos, fundou um movimento chamado “Capitalismo Consciente”, com um mandamento fundamental: a meta das empresas deve ser o bem-estar da sociedade, e não apenas o lucro. Ele e o consultor Michael Gelb publicaram o livro Empresas que Curam (Ed. Alta Books, 2020), com o subtítulo “despertando a consciência dos negócios para ajudar a salvar o mundo”.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Rajendra diz que o sofrimento provocado pela pandemia do coronavírus fará as pessoas lembrarem das empresas que foram egoístas, pensaram somente no acionista e não fizeram tudo o que podiam para proteger quem elas podiam ter protegido a fim de impedir a contaminação. Sua proposta de que as empresas não se guiem somente pelo lucro, mas pensem nas pessoas e na sociedade, pode parecer um pouco ingênua. Mas será?

A questão de fundo está em duas perguntas: (a) Qual deve ser a real missão de uma empresa? (b) É possível conciliar lucro e retorno ao acionista com compaixão e amor ao próximo? Não há respostas fáceis e simplórias. Rajendra coloca essas questões sob a premissa de que, embora a ciência e a tecnologia tenham feito progressos fantásticos, as maiores ameaças existenciais ainda estão por vir, e a pandemia está longe de ser a maior delas.

Nesta era de isolamento, resolvi reler O Capital, de Karl Marx (1813-1883), na íntegra. Li pela primeira vez quando eu estava no segundo ano do curso de Economia. Não entendi nada. Li no último ano do curso e entendi bastante bem, mas insuficiente. Após quatro anos como professor de Teoria Macroeconômica, estudei a obra e considero ter dominado o conteúdo. Karl Marx escreveu de maneira complexa, difícil para não especialistas no assunto e sem clareza e simplicidade.

Quem não conhece teoria econômica, contabilidade e finanças empresariais se depara com uma selva literária já nas primeiras páginas. A obra completa tem 2.200 páginas (conforme a diagramação, dá bem mais), em quatro livros. Marx só concluiu o primeiro. Os demais foram revisados e publicados por Friedrich Engels (1820-1895). Aos interessados em ler O Capital, sugiro a edição organizada e resumida por Julian Borchardt (1931), com o mesmo título, que é fiel ao original e bem mais clara. Mas também não tem nada de fácil.

A teoria econômica de Marx em O Capital contém muitos erros. Mas, lembremos que ele não conheceu a eletricidade, o automóvel, o avião, o telefone, o rádio, ou seja, era uma economia primitiva comparada com o que é hoje. Ademais, O Capital é essencialmente uma análise da jovem sociedade industrial quando Marx a estudou e sobre ela escreveu, e havia uma grande sociedade rural à qual ele não deu a mesma atenção, cuja lógica não era a da indústria.

Outro problema é Marx não ter considerado a possibilidade de aquelas condições deploráveis no ambiente das fábricas e as longas e insalubres jornadas de crianças e mulheres serem superadas e abandonadas, como acabou acontecendo sobretudo após a Primeira Guerra Mundial. De qualquer forma, a análise de Marx é poderosa. Merece ser estudada.

Os erros (que só foram constatados depois) e a inviabilidade da solução socialista não anulam a descrição do funcionamento da economia industrial da época. Na prática, Marx prestou um serviço ao capitalismo, principalmente ao denunciar os horrores do trabalho operário, a exemplo de crianças com 8, 9 ou 10 anos de idade tendo que levantar às 4h da manhã e cumprir 12 horas numa fábrica insalubre.

Logo após a publicação de O Capital, em 1867, começaram movimentos a favor da limitação do trabalho de mulheres e crianças, redução da jornada diária e regulamentação das condições no ambiente de trabalho. Em 1883, por coincidência o ano em que Marx morreu, o chanceler da Alemanha Otto von Bismarck criou o primeiro sistema de aposentadoria, iniciando um elenco de reformas nas regras do trabalho, da saúde e da previdência social.

Uma das consequências do capitalismo industrial do século 18 e 19 foi o crescimento do Estado como promotor de “justiça social”, seja por meio de regulação das relações sociais no trabalho seja por meio de programas de distribuição de renda. Do capitalista passou-se a exigir obediência às regras trabalhistas e o pagamento de impostos para promoção do chamado “Estado de bem-estar social”.

Porém, as medidas destinadas a dar uma face humana ao capitalismo levaram ao crescimento desmesurado do Estado, a carga tributária aumentou, os políticos e os homens de governo se encheram de privilégios, ineficiências e corrupção e, conforme diz o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão do governo federal, o setor público se tornou concentrador de renda por ter atribuído, a seus membros, salários, benefícios, aposentadorias e benesses acima da capacidade econômica do país e negadas ao resto da população.

Então, embora se deva sim esperar comportamento ético e compromisso com a sociedade e preservação ambiental pelas empresas, são os empresários e os líderes que devem agir para dar ao capitalismo a face humana (já que a empresa não age por si só, é um sistema dirigido por pessoas). E mais: o mundo moderno está inventando algo maravilhoso, que é transformar o amor ao próximo e o respeito ao meio ambiente em fonte de lucro. É mais fácil chegar ao bem quando as boas ações atendem aos interesses do capital e das empresas.

José Pio Martins, economista, reitor da Universidade Positivo.

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