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Meu encontro com o papa

  • Dom José Antonio Peruzzo
 
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Dias atrás estive em Roma para receber o pálio, um ornamento litúrgico colocado sobre os ombros, feito de lã de ovelha, usado pelos arcebispos nas celebrações solenes. Todos os anos, por ocasião da solenidade religiosa de São Pedro e São Paulo, o papa o entrega aos bispos que foram nomeados para sedes metropolitanas. Se é o papa a entregá-lo é porque há neste gesto um sentido: é o compromisso de estreita comunhão com o sucessor de Pedro.

É comum associar o pálio com prestígio e respeitabilidade eclesiástica. Mas o papa Francisco, dirigindo-se aos 46 novos arcebispos vindos de todas as direções do mundo, destacou um outro sentido, muito mais identificado com a figura bíblica do pastor. Enfatizou que interpretássemos não como destaque ou prestígio. O sentido era outro. Deveríamos imaginar aquele pálio como uma ovelha nos ombros do pastor. Isso supõe da parte dele, do pastor, sadias inquietações por aquelas desgarradas. Supõe também afeto, também busca, também renúncias, também entrega.

Não se fala muito das horas de oração de Francisco e de sua profunda espiritualidade

Antes da celebração, e também depois, o “jovem” Francisco veio até onde estávamos. Quis saudar a todos e cada um. É deste encontro, em dois momentos, que gostaria de falar. Sua batina branca era bem cuidada. Mas bastante modesta. Aproximou-se de cada um, perguntou a procedência. Ainda que brevemente, quis interessar-se pela cidade e arquidiocese. Falava com tanta espontaneidade que parecia que a amizade era já antiga.

Algo me impressionou mais em Francisco. Ele é lembrado por sua simplicidade e estilo espartano. Também por suas expressões muito humanas e paternas. Parece um vovô afeiçoado a todos os que encontra. O riso é fácil. Os olhos brilham. Os gestos se tornam eloquentes. Todavia, não se fala muito de suas horas de oração e de sua profunda espiritualidade.

Enquanto me entregava o pálio, olhava-me nos olhos. Sorria. Isso parece tão normal! Mas suas palavras e amabilidade não tinham nada de conveniência ensaiada. Retratavam, sim, um homem de profunda paz e liberdade. Nas frases que proferiu a mim insistiu que nunca deveria perder o encanto pelas ovelhas. É verdade que também esta recomendação pode ser vista como expressão cediça. Mas a paixão pela causa de evangelização e do pastoreio transluziam. Seu modo límpido de falar e de olhar retrata uma profunda paz interior.

Ao concluir sua fala aos novos arcebispos, recomendou-nos: “Ensinem a fé crendo; ensinem a orar orando; testemunhem a verdade de Jesus Cristo vivendo-a”. A voz não era forte. Os sinais de cansaço eram visíveis. Mas pareceu que me conhecia e que suas palavras eram dirigidas a mim. O mesmo disseram outros presentes. São frases que me inquietam; que me interpelam à missão; que apontam para um programa pessoal de vida. Assim como ninguém “funciona” como pai, mas é pai, do mesmo modo preciso ser pastor. Eis a inquietação que me acompanha.

Estando em Roma ouvi diferentes comentários sobre Francisco. Uns o querem mais formal e solene. Os carreiristas estão em desconforto. Os intelectuais gostariam de pensamentos especulativos. Os liberais pensam que agora todas as portas da Igreja se abrirão a modismos. Os mais simples falam dele com alegria. Mas parece que a Francisco tanto as críticas quanto as aprovações não o comovem muito. Não por que são pouco significativas. É que o significado maior é um outro. É responder ao seu Senhor, a quem quer ouvir.

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