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| Foto: Fred Dofour/AFP

Se há uma coisa de que temos certeza em relação à China em 2019 é que o povo lá adora aplicativos. Os chineses usam o WeChat para falar com os amigos; passam horas brigando com inimigos virtuais no PUBG; fazem maratona de vídeos curtos no Douyin. Por que o Partido Comunista não haveria de entrar nessa?

O Xuexi Qiangguo – “estude e engrandeça a nação” – se tornou febre na China. Três em um que combina mensagens instantâneas, agregador de notícias e rede social, foi introduzido pelo Departamento de Publicidade do Comitê Central do Partido Comunista em janeiro. Os dois primeiros caracteres do nome, quando combinados, significam “estudar/aprender”; só que “Xi” também é o sobrenome do presidente. Assim, o nome do aplicativo também poderia ser traduzido como “estude Xi e engrandeça a nação”, que é exatamente o que milhões de pessoas estão fazendo.

Até o fim de março, o Xuexi Qiangguo tinha sido baixado mais de 73 milhões de vezes na loja da Huawei; é também o aplicativo mais popular na versão chinesa da App Store da Apple, número que dificulta a compreensão da avaliação média que recebe – 2,7 estrelas de 5 – se levarmos em consideração que todos os funcionários públicos e os de todas as empresas do governo, mais os milhões de membros do Partido, são “encorajados” a usá-lo e, às vezes, a competirem uns com os outros pela avaliação mais alta.

Eu quis conferir o Xuexi Qiangguo por mim mesma, para ver se o brilho da tecnologia de um aplicativo novinho em folha poderia basicamente cumprir a tarefa de facilitar o estudo da ideologia no dia a dia. Por isso, no mês passado, baixei o software e me registrei. Em um estalar de dedos lá estava eu, automaticamente conectada aos meus amigos e colegas. Desde então, tenho recebido diversas notificações diárias, incluindo a cobertura das atividades de Xi, uma “frase de ouro do dia” do nosso presidente, “canções patrióticas vermelhas” para eu ouvir e links para cursos on-line sobre a herança da cultura tradicional chinesa.

Como em tantas outras ocasiões nas quais o governo exige um pensamento correto, já existem aqueles que aprenderam a driblar o sistema

Só que percebi que não bastava simplesmente entrar de vez em quando e/ou clicar em uma notificação aqui e ali. Usar bem o Xuexi Qiangguo exige um compromisso sério e muito tempo; de quem se vê sob pressão dos colegas/pares, geralmente se espera a marcação entre 25 e 35 pontos por dia, às vezes até mais.

“Trinta pontos por dia só me deixam na rabeira do grupo do Partido ao qual pertenço. Meus colegas competem feito uns doidos. A pressão é para, no mínimo, marcar uns 66 pontos por dia, só para garantir que não vou ficar para trás”, me revelou um usuário no Weibo, equivalente chinês ao Twitter. (No fim de março, após reclamações de usuários que disseram estar passando muitas horas no aplicativo, o governo revisou a função de avaliação, de modo que ninguém mais vê o desempenho de ninguém; estipulou também o teto de 52 pontos diários.)

Nas minhas primeiras semanas, eu ganhava alguns pontos só por me logar, além de faturar um ou outro bônus nas horas de pico. Ler artigos e ver vídeos também rendia alguma coisa. Para fazer bonito, porém, eu teria de preencher os questionários – sim, responder a perguntas referentes aos discursos e obras de Xi. Aí é que estava a mina dos pontos: se acertasse todas, conseguiria marcar 24.

Eram coisas fáceis. A primeira com que me deparei foi: “(...) é o marxismo da China contemporânea, o marxismo do século 21, a diretriz para que nosso Partido e nosso povo alcancem o grande rejuvenescimento da nação, uma arma ideológica excelente, poderosa e de eficiência comprovada, na qual se deve persistir e que deve ser desenvolvida consistentemente em longo prazo.” Resposta? “O pensamento de Xi Jinping sobre o socialismo com características chinesas para uma nova era”, é claro. O que mais poderia ser?

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Outra questão, à primeira vista, parecia pegadinha: “Ater-se à liderança do Partido como um todo e à coordenação em diferentes setores, gerar um sistema com o encargo de liderança total do Partido e garantir que esta seja exercida em domínios como (....), (....) e (....)”. A sorte é que era múltipla escolha. As opções eram: a) Reforma, desenvolvimento e manutenção da estabilidade; b) Política interna, política externa e defesa; e c) Governo do Partido, da nação e do Exército. A resposta era: todas as anteriores; o partido é onipotente, nosso líder em todas as frentes.

Desisti depois de uma meia hora e a miséria de nove pontos. “Poste sua opinião e ganhe um ponto”, exige o app. “Por que não?”, pensei, e fui para a seção de comentários, onde fui recebida com instruções do tipo “Apenas as opiniões válidas ganharão pontos” e “Os melhores comentários têm prioridade de exibição”.

Na era digital, com tecnologias cada vez mais poderosas a seu dispor, as autoridades doutrinadoras chinesas desenvolveram várias ferramentas complexas com o objetivo de propagar sua mensagem entre os jovens, fomentando e desenvolvendo os chamados “millennials vermelhos”. No início deste ano, um programa de sete episódios com desenhos sobre Karl Marx foi exibido no site Bilibili, muito popular; no mês passado, a agência estatal de notícias Xinhua divulgou um vídeo de rap, em inglês, enaltecendo as conquistas do país às vésperas das “duas sessões”, ou seja, as reuniões parlamentares anuais.

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Desenvolvido pelo gigante Alibaba, o Xuexi Qiangguo não deixa de ter certa sofisticação. E oferece alguns mimos adicionais: o usuário pode trocar seus pontos de estudo em estabelecimentos ao redor do país por guloseimas, tablets, descontos em restaurantes e ingressos para atrações turísticas.

Mas, por mais requintados que os novos produtos pareçam superficialmente, no fundo continuam sendo o estudo compulsório do material ideologicamente correto e a demonstração de fidelidade ao governo central. Assim que entrei na seção dos questionários, as lembranças dos anos do ensino médio nas escolas chinesas me vieram à mente: a linguagem rebuscada, a repetição infinita, as respostas imutáveis, as avaliações tornadas públicas.

E, como em tantas outras ocasiões nas quais o governo exige um pensamento correto, já existem aqueles que aprenderam a driblar o sistema. Há um número considerável de artigos que ensinam como ganhar créditos eficientemente circulando no WeChat, enquanto os mais descolados em tecnologia preferem o GitHub para baixar um programa que ganha pontos automaticamente, enquanto podem se dedicar a outras coisas.

Resumindo: até que ponto esse aplicativo é eficiente? O feedback on-line atualmente está proibido na App Store da Apple, ou seja, só dá para avaliar as reações dos usuários por seus comentários iniciais, antes de a função ser desativada. “Bom, bom, bom”, escreveu um. “O que vocês quiserem que eu diga, eu digo.” “Baixamos voluntariamente”, escreveu outro, que deu ao aplicativo uma estrela. “Sério.”

Audrey Jiajia Li é jornalista e radialista.
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