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Paraná está mais seguro? Os números contam só uma parte da história

Atendimento de trânsito na BR-376, em Tijucas do Sul, no Paraná. (Foto: André Filgueira/PRF)

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Todo ano, quando os dados de segurança pública saem, a narrativa é parecida: o Paraná está melhorando. E, em parte, está. Em 2024, o estado registrou 1.858 mortes por homicídio – a menor marca desde 2020, com taxa de 17,1 por 100 mil habitantes, bem abaixo dos 22 por 100 mil da média nacional.

Mas, no mesmo ano, o trânsito matou 2.865 pessoas. E 1.247 paranaenses tiraram a própria vida.

Três formas de morte violenta. Uma cai, duas sobem. Só a que cai aparece no boletim de segurança pública. O problema não é o dado falso. É o dado incompleto. A violência que o estado aprendeu a medir está recuando. A que prefere não contar – ou simplesmente não classifica como crime – não.

A queda nos homicídios paranaenses é consistente. Foram 2.060 em 2020, 2.071 em 2021, 2.238 em 2022 – o pico –, depois 1.979 em 2023 e 1.858 em 2024. Queda de 9,8% no período. A taxa de 17,1 por 100 mil coloca o Paraná entre os estados mais seguros do Brasil nesse indicador. Para referência, Maceió chegou a ultrapassar 80 por 100 mil no pico. Belém e Manaus seguem acima de 40 por 100 mil. O pico de 2022 não foi anomalia paranaense, foi nacional. O pós-pandemia trouxe reversão de tendência em vários estados depois da queda forçada pela redução da circulação em 2020. A retomada da queda em 2023 e 2024 é um sinal positivo. Mas o número absoluto ainda é alto: mais de cinco pessoas assassinadas por dia.

Enquanto o homicídio cai, o trânsito vai na direção oposta. Em 2020, o Paraná registrou 2.525 mortes em acidentes de trânsito. Em 2024, foram 2.865 – alta de 13,5%, o pico da série. Nos anos de pandemia, a redução de circulação derrubou artificialmente os números. A ilusão durou pouco: já em 2021 as mortes voltaram ao patamar histórico; em 2022 subiram; em 2023 subiram de novo; em 2024, mais ainda. Desde 2021, o trânsito já matava mais do que o homicídio no Paraná. Em 2024, a diferença chegou a 1.007 mortes a mais. Se você remove as mortes no trânsito da conta, o Paraná parece um dos estados mais seguros do Brasil. Com elas dentro, o quadro muda.

Nas rodovias federais, o retrato é ainda mais específico. A PRF registrou 607 mortos em 2024 – alta de 15,4% em relação a 2020. A BR-277, que corta o estado de Paranaguá a Foz do Iguaçu, passando por Curitiba, foi responsável por 164 mortes no ano: o principal corredor de cargas do sul do Brasil e a rodovia mais letal da região. A BR-376, que liga Curitiba a Florianópolis, soma mais 126 mortes. Essas 607 mortes em rodovias federais já seriam suficientes para colocar o Paraná entre os estados com maior mortalidade por homicídio se fossem contadas como tal. Não são. Somem na categoria “acidente”, que não entra no boletim de segurança pública e raramente gera cobrança proporcional ao tamanho do problema.

O dado mais grave da série – e o menos discutido – é o suicídio: cresceu 33,4% em cinco anos no Paraná. Em 2020, foram 935 casos; em 2021, 1.106; em 2022, 1.188; em 2023, 1.143; em 2024, 1.247. Cinco anos consecutivos acima de 900, quatro deles acima de 1.100. Não houve um único ano de recuo real na série. Em paralelo ao debate sobre segurança pública, uma crise de saúde mental silenciosa matou 5.619 pessoas no estado em cinco anos. São pessoas que não foram assassinadas e não morreram em acidente – e, por isso, não entram nas estatísticas que movem o debate político. O suicídio já superou o homicídio em várias faixas etárias acima dos 30 anos. Em termos absolutos, mata mais de três pessoas por dia no Paraná e raramente aparece no boletim de segurança pública porque não é crime. Não há inquérito, não há investigação, não há suspeito. Só uma declaração de óbito arquivada no DATASUS.

O sul do Brasil historicamente registra taxas de suicídio acima da média nacional. O crescimento contínuo no Paraná, sem nenhum ano de reversão, sugere que a crise pós-pandemia de saúde mental ainda não encontrou resposta proporcional em políticas públicas. O estado tem mais de 400 municípios e a maioria deles não tem estrutura de atenção psicossocial adequada. O problema cresce sem nome e sem pauta.

No homicídio, o perfil das vítimas é concentrado: 89,2% são homens, e 41,6% têm entre 15 e 29 anos. Uma em cada duas vítimas está nessa faixa. São jovens que deveriam estar entrando no mercado de trabalho, constituindo família, estudando. O homicídio feminino conta uma história diferente – e mais preocupante. Enquanto o total cai, as mortes de mulheres subiram 18,3%, de 197 em 2020 para 233 em 2024. São 46 mortes a mais por ano, em cinco anos. A queda no homicídio geral é real; para as mulheres, não aconteceu. A violência doméstica e o feminicídio seguem dinâmicas próprias, que não respondem aos mesmos fatores que reduzem o homicídio entre homens. A Lei Maria da Penha completou 18 anos. O número ainda sobe.

Em conjunto, as três causas – homicídio, trânsito e suicídio – somaram 47.048 mortes por causas externas no Paraná entre 2020 e 2024. Uma média de 9.400 por ano. Mais de 25 mortes violentas por dia. O debate público, os recursos de segurança e o espaço nas manchetes costumam se concentrar num subconjunto menor desse total: o homicídio, que está caindo. As outras duas causas crescem à margem, registradas, contadas e quase nunca discutidas.

Isso não é acidente editorial. É uma escolha de enquadramento. O que é classificado como crime tem secretaria, boletim e coletiva de imprensa. O que mata pelo asfalto ou pelo silêncio não tem nada disso – só tem número. E a história do Paraná não é exceção brasileira: é o retrato mais nítido de um déficit que, em escala nacional, esconde mais mortes do que revela.

Fontes: DATASUS/SIM (Declarações de Óbito do Paraná, 2020 a 2024; CID-10 X85–Y09 para homicídio, V01–V99 para acidente de transporte, X60–X84 para suicídio; dados de 2024 preliminares). PRF/DATATRAN para rodovias federais. IBGE Censo 2022 para população.

Israel Lehnen Silva é editor do Crime Brasil (crimebrasil.com.br), plataforma independente de dados abertos de segurança pública.

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