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| Foto: Frederic J. Brown/AFP

Um dos episódios mais sombrios do século 20 foi o gulag, sistema soviético de campos de trabalhos forçados para onde os dissidentes eram enviados e ficavam presos em condições terríveis, quase sempre morrendo. Foi estabelecido por Lenin, expandido por Stalin e finalmente exposto ao mundo pelo grande escritor Alexander Soljenítsin em sua obra-prima de 1973, Arquipélago Gulag. “Fiapos frágeis de vidas humanas se estendem de uma ilha a outra do arquipélago”, ele escreveu, “o que é suficiente se você não congela no frio, e se a sede e a fome não o destroem por dentro”.

Há muito que os gulags russos foram desmantelados, como também o Partido Comunista da União Soviética responsável por eles. Mas agora outra ditadura, regida por outro Partido Comunista, está gerenciando uma nova cadeia de presídios que evoca lembranças inevitáveis. Mais modernos e dispondo de mais tecnologia, sim, mas não menos escravizantes.

São os “campos de reeducação” da China, estabelecidos na região do extremo ocidente do país, em Xinjiang, onde há relatos de até 1 milhão de chineses presos para ser doutrinados. São forçados a ouvir palestras ideológicas, cantar hinos exaltando o Partido Comunista Chinês e escrever matérias “autocríticas”. Os sobreviventes também falam da disciplina em estilo militar, privação de sono, confinamento em solitárias, surras e tortura.

Apesar de a política de “reeducação” chinesa ser um ataque brutal ao povo muçulmano e à sua fé, o islamismo, a comunidade mundial se mantém reticente

O alvo dessa perseguição em massa são as minorias muçulmanas, especialmente os uigures, um povo de língua turcomana baseado em Xinjiang que segue uma interpretação popular do islamismo sunita. Apesar de moderada, configura “doença mental” para os comunistas chineses, cuja ideologia vê todas as religiões, incluindo o cristianismo, como superstições atrasadas que devem ser diluídas e nacionalizadas. E é por isso que chegam ao cúmulo de proibir os homens de deixar a barba crescer ou as pessoas de jejuar no Ramadã, além de forçá-las a consumir carne de porco e bebidas alcoólicas, ambas proibidas para o Islã.

As autoridades chinesas se dizem alarmadas com os extremistas que há entre os uigures – e, de fato, um punhado de terroristas já perpetraram ataques contra alvos governamentais ao longo dos anos. Acontece que esses radicais surgiram, em parte, como reação a décadas de uma política de subjugação e à colonização étnica planejada por Pequim. E essa história sugere que a atual campanha chinesa de “contraterrorismo” será totalmente contraproducente, aprofundando um círculo vicioso que as mentes autoritárias quase nunca conseguem compreender, quanto mais romper.

O aspecto mais estranho do caso, porém, é o fato de que, apesar de a política de “reeducação” chinesa ser um ataque brutal ao povo muçulmano e à sua fé, o islamismo, a comunidade mundial se mantém reticente. E, embora seja condenada por grupos de direitos humanos, órgãos de imprensa ocidentais e pelas próprias organizações uigures, somente uns poucos líderes, como Anwar Ibrahim, da Malásia, e Noorul Haq Qadri, ministro da Religião do Paquistão, levantaram suas preocupações publicamente. Só no mês passado a Organização de Cooperação Islâmica finalmente manifestou algum receio em relação aos “relatos perturbadores sobre o tratamento de muçulmanos” pela China.

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É tudo muito brando, dada a gravidade da situação e como ela se compara ao que teríamos visto se o mesmo nível de perseguição viesse de outro país – como, digamos, Israel.

Por que isso? Por que os líderes muçulmanos, principalmente aqueles que adoram defender os oprimidos, são tão lenientes com a China?

Há três respostas: uma é a vantagem de se manter nas boas graças da China, segunda maior força econômica do mundo. O país é o principal parceiro comercial de 20 dos 57 membros da Organização de Cooperação Islâmica, e sua ambiciosa iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” – uma faixa imensa de infraestrutura comercial e de transporte que deve cortar o Oriente Médio – encerra uma promessa lucrativa para a maioria das nações muçulmanas.

Além disso, a China não tem o mínimo pudor em oferecer assistência econômica como cala-boca. Em julho de 2018, o The Global Times, canal de imprensa do Partido Comunista Chinês, publicou um editorial interessante, sugerindo que o governo chinês deveria ajudar a Turquia a garantir sua “estabilidade econômica” – mas só se as autoridades daquele país parassem de fazer “comentários irresponsáveis sobre a política étnica de Xinjiang”, ou seja, parassem de criticar as violações chinesas dos direitos humanos (mais ou menos na mesma época, a chanceler alemã, Angela Merkel, também estava prometendo ajudar a economia turca, mas só se os turcos remediassem as violações cometidas contra os direitos humanos. Em outras palavras, a Turquia estava sendo puxada em ambas as direções, mas, infelizmente, parece que o lado escuro se provou mais forte).

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Uma segunda razão para o silêncio muçulmano é que a repressão chinesa contra os uigures é baseada na premissa de que a ordem pública pode ser restaurada com a erradicação de inimigos do governo e de traidores dentro de uma sociedade – e essa é uma linguagem autoritária que a maioria da liderança muçulmana entende bem, pois é sua própria língua.

O terceiro motivo é que a maioria dos muçulmanos que pode se sentir solidária com os correligionários oprimidos vê os opressores como “o Ocidente”, definido como a civilização capitalista, hedonista e sionista liderada pelo Grande Satã. Esses muçulmanos, e em particular os islamitas, acreditam que os fiéis devem se unir a outras forças anti-Ocidente – situação que evoca a previsão feita por Samuel Huntington de uma aliança “confúcio-islâmica” contra o Ocidente em seu artigo de 1993 para a Foreign Affairs, intitulado “The Clash of Civilizations” (“O choque de civilizações”).

Para os autocratas muçulmanos e islamitas, um pacto desse tipo ainda pode ser atraente – afinal, nele, a China parece um exemplo excepcional, com crescimento na economia, sim, mas sem as dores de cabeça ocidentais como direitos humanos, liberdade de expressão ou governo limitado. Para as sociedades muçulmanas, porém, a crise uigur deveria ser um sinal de alerta, pois mostra o que pode acontecer quando um governo autoritário adota a islamofobia como política de Estado.

O que não significa que ela não exista em democracias ocidentais também – mas ali pode ser criticada pela imprensa, condenada pela Justiça e restringida pelas tradições e instituições liberais. Os muçulmanos ainda têm permissão de praticar sua religião livremente e podem até se tornar políticos, eleitos para órgãos como o Congresso dos Estados Unidos.

Em outras palavras, para as sociedades muçulmanas, a escolha entre liberdade e ditadura não deveria ser difícil. Em liberdade, você pode viver em segurança e com dignidade; sob a ditadura, como a China nos mostra, pode acabar em um campo reeducacional.

Mustafa Akyol é membro do Instituto Cato, especializado em Islã e Modernidade, e autor de “The Islamic Jesus”.
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