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Várias logomarcas do Facebook
Facebook anunciou para 2020 a estreia da Libra, moeda digital da empresa e um consórcio de 27 companhias.| Foto: Justin Sullivan/AFP

Atrelada à inovação de alterar toda a estrutura do sistema financeiro mundial, a criação da Libra, a criptomoeda do Facebook, também traz discussões laterais sobre os seus impactos na economia global. Se bem implantada, há um público potencial de 2,4 bilhões de usuários da rede social de Mark Zuckerberg. Mas os riscos são vários e podem afetar tanto a soberania de nações quanto o ambiente das empresas.

Sob o prisma macroeconômico, o principal risco está associado à perda da independência de alguns países que podem ver sua moeda substituída pela Libra, algo que eu chamo de "libralização" das economias. Este processo de enfraquecimento de moedas locais pode se iniciar por uma corrida de demanda para as moedas que compuserem esta cesta de ativos da libra, gerando o enfraquecimento de moedas fora da cesta – como o real, por exemplo. Com a moeda fraca, alguns países serão forçados a ancorar sua moeda na nova Libra, uma vez que será um ativo com maior reserva de valor e, a depender da implantação, um meio de troca efetivo.

Para isto, os bancos centrais desses países passariam a comprar Libras imprimindo cada vez mais moeda local, que enfraqueceria a ponto de perder a sua importância e ser definitivamente substituída. Neste cenário, o país cuja economia está "libralizada" abre mão de sua política monetária e cambial e não terá mais soberania (e, muito menos, autonomia) sobre a sua moeda.

A livre transação da Libra entre fronteiras, por meio de carteiras desassociadas das identidades dos seus donos, é um prato cheio para esquentar dinheiro ilícito

Outra ruptura, agora sob o prima microeconômico, está no total redesenho do mercado financeiro dos países. Para efeito de ilustração, algo semelhante ao que o Uber, AirBNB e Netflix fizeram respectivamente com os mercados de mobilidade, hotelaria e mídia de entretenimento. Ou seja, uma solução mais simples, fácil e barata de usar rompe com o modelo tradicional do mercado e, por consequência, com seus participantes.

As fintechs de meio de pagamento locais poderão sucumbir ou perder grande relevância. Este processo já pode ser visto, por exemplo, no Quênia, onde a Vodafone criou o M-Pesa, que é uma espécie de banco por celular. Esta solução foi massivamente adotada no país, encampando mais de 60% da população adulta do país. Na China, o WeChat, similar ao Whatsapp, possui um sistema completo de meio de pagamento que permite transações on-line e off-line. Porém, em ambos os casos, as empresas usam moedas locais para transações e não desenvolveram seu próprio dinheiro.

Já do ponto de vista da ética organizacional e compliance, algumas das companhias que fazem parte da Associação Libra não têm um histórico ilibado a ponto de carregar a confiança de todas as partes em uma moeda global. Basta lembrar de casos como o acesso ilegal de dados de usuários do Facebook pela Cambridge Analytica, as acusações de manipulação das eleições na África e as implicações da empresa no genocídio de Mianmar. Alega-se, porém, que comportamentos individuais das empresas seriam contidos na associação que seria composta, em grandes linhas, por empresas de alta reputação.

Leia também: Por que o Facebook criou uma criptomoeda própria? (artigo de Kevin Werbach, publicado em 26 de junho de 2019)

Leia também: O desafio de regular as criptomoedas (artigo de Fernando Sperb, publicado em 30 de outubro de 2018)

Este mesmo argumento não faz efeito para as grandes instituições financeiras da atualidade, que permitem anualmente a lavagem de US$ 2 trilhões. E, falando em lavagem de dinheiro, esta é uma questão que fica em suspenso nesse novo sistema financeiro. A livre transação da Libra entre fronteiras, por meio de carteiras desassociadas das identidades dos seus donos, é um prato cheio para esquentar dinheiro ilícito. Além disso, a falta de transparência sobre os detentores das reservas de lastro da Libra pode gerar impactos sistêmicos em economias reais.

Há inúmeros outros riscos que podem ser explorados. A oportunidade de prover acesso ao sistema financeiro para uma massa de "desbancarizados" e à margem do atual modelo, passando pela separação entre Estado e dinheiro, já é uma realidade. Porém, há dois caminhos postos no horizonte. Transferir esta tutela para a população, por meio de um sistema verdadeiramente descentralizado, ou concedê-lo a um grupo de empresas que regerão o novo sistema financeiro.

Rodrigo Castro é diretor de riscos e performance na ICTS Protiviti.

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