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Ovelhas negras

  • PorMarcos de Lacerda Pessoa
  • 28/02/2020 15:09
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Na imagem, uma pequena caixa de som em frente a um smartphone branco. Da caixa saem desenhos de diversos ícones como os de foto, música, bebidas, luz, avião, simbolizando as funcionalidades que a caixa pode executar, através de comandos de voz.| Foto: Bigstock

Por que é tão difícil produzir algo original e significativo para o mundo?

No ano de 1662, em um laboratório no porão da Universidade de Oxford, na Inglaterra, o cientista Thomas Willis reuniu uma equipe para demonstrar o que se tornaria um dos muitos exames do cérebro humano. Willis acreditava que as coisas dentro do nosso crânio continham os segredos do nosso ser e se esforçou para mapear o funcionamento interno do cérebro. Hoje, Willis é creditado como fundador da neurologia. No século 17, porém, alguns o consideravam como um insano. As teorias de Willis se afastavam bastante das suposições consideradas padrão naquela época, que incluíam a crença de que os sentimentos e pensamentos de uma pessoa eram movidos pelo espírito, e não por um emaranhado de neurônios e pela química dentro da cabeça. Willis estava “anatomizando a alma”, como o escritor e jornalista Carl Zimmer explicou em seu livro Soul Made Flesh, ressaltando que as ideias de Willis não eram populares àquela época. Entretanto, Willis persistiu trabalhando, contra todo o desdém e desprezo que recebeu.

Observe o curso da existência humana e você verificará pontos significativos de mudança impulsionados por pessoas que desafiaram o statu quo.

Galileu foi condenado por dizer que o Sol, e não a Terra, era o centro do universo. Os livros de Einstein foram queimados. Alberto Santos Dumont e os irmãos Wright foram considerados loucos por sugerir que um homem poderia pilotar máquina voadora. A Academia fez uma investigação sobre a obra de George Zweig e finalmente o classificou como charlatão por sugerir que partículas subatômicas invisíveis formavam a matéria. Malala Yousafzai levou um tiro na cabeça por defender a educação das mulheres no vale do Swat, no Paquistão.

Sem esses indivíduos e suas equipes (indubitavelmente pioneiros!), não teríamos as invenções e movimentos que mudaram a humanidade. Não haveria impressora ou avião, direitos civis ou cubismo, penicilina, computador pessoal ou aparelhos celulares multifuncionais.

Os indivíduos no centro de tais avanços são os que lembramos por alterar o mundo, por mudar a trajetória de tudo o que veio depois. Na época foram caracterizados como hereges, loucos, lunáticos, egoístas e até mesmo demônios. Hoje nós os chamamos de forma diferente: pioneiros, mestres, inovadores, líderes e heróis. Na verdade, cada uma dessas pessoas, ao longo da história, teve algo em comum: eles pensavam contra a corrente, o que significa conquistar a biologia, a tecnologia e a cultura para mudar como as coisas são e fazer como elas poderiam ser diferentes.

Pensar de forma distinta é como um indivíduo chamado Henry Bessemer ajudou a inaugurar a Revolução Industrial. Bessemer inventou a técnica de produção em massa de aço nos anos 1800. Quando perguntado como ele havia superado seus concorrentes, o inventor britânico deu uma vantagem singular: “Eu não tinha ideias fixas, derivadas de práticas estabelecidas há muito tempo, para controlar e influenciar minha mente”.

No mundo dos negócios, muitas vezes as pessoas “rebeldes” são vistas como causadoras de problemas ou como aquelas que precisam entrar na linha e seguir a cultura da organização. Um grupo particular da Nasa, contudo, chama a atenção para o quanto essas “ovelhas negras” podem ser importantes na quebra de paradigmas e na renovação das organizações para o futuro.

Um estudo de caso ‒ realizado por pesquisadores da Universidade de Warwick, na Inglaterra, entre 2013 e 2018, no Johnson Space Center da Nasa ‒ buscou entender como as organizações são capazes de equilibrar objetivos concorrentes, com eficiência, inovação e desenvolvimento de capacidades atuais e futuras. Durante as investigações, os estudiosos depararam-se com um grupo de funcionários da Nasa que desafiaram o statu quo e ficaram conhecidos como “Piratas”. Formada em 1986, a equipe foi responsável pela criação de um premiado sistema de controle de missão para o programa de ônibus espaciais. O diferencial é que a solução foi desenvolvida em tempo recorde, com um orçamento restrito, enquanto enfrentava forte resistência interna. O novo sistema, alimentado por dados em tempo real, exibia gráficos coloridos e interfaces fáceis de usar, relatórios integrados sobre o status dos sistemas de transporte e funcionava perfeitamente em ocasiões em que o mainframe travava. Os controladores de voo logo perceberam que poderiam tomar decisões mais rapidamente e com mais precisão por meio dessa ferramenta. Tempos depois, todos os sistemas técnicos necessários para operar um ônibus espacial foram gradualmente transferidos para o sistema criado pelos Piratas, que utilizaram hardwares emprestados de outros times e trabalharam durante horas livres, um ano inteiro.

Os valores e métodos desse grupo chacoalharam a cultura hierárquica existente na agência espacial americana. Eles foram pioneiros em práticas ágeis, mesmo antes de o “método ágil” entrar para o vocabulário organizacional. Além disso, os Piratas foram capazes de superar a oposição, conquistar o apoio de patrocinadores de alto nível dentro da Nasa e desenvolver esse novo sistema de controle de missão de transporte com enorme economia de custos.

Quantas vezes você já pensou assim, fora da caixa? Observou um problema, um processo, a maneira como o mundo é, e pensou: tem de haver uma solução melhor! Bem, isso está correto: sempre deve haver um caminho melhor.

E é somente portando-se como “ovelha negra”, isto é, pensando contra a corrente, que você poderá triunfar sobre os obstáculos críticos que surgem ao tentar transformar uma visão singular em realidade. Saiba que o statu quo – indivíduos e sistemas investidos em fazer as coisas como sempre foram feitas – está preparado para “apedrejar” você e chamá-lo de louco.

As histórias reais aqui citadas oferecem ensinamentos importantes para todas as organizações sobre como os “renegados” podem ajudar a equilibrar as metas, muitas vezes conflitantes, de eficiência e inovação. É comum que as empresas se concentrem no alinhamento estratégico e organizacional, esperando que todos sigam a mesma reta padrão. Essa homogeneidade pode promover eficiência e otimização, mas também oferece riscos de não abrir espaço para a revolução. Os desvios de rota podem, sim, ser favoráveis aos negócios!

Grupos como os Piratas são antídotos para a inércia: por serem questionadores, acabam levando para as discussões algumas discordâncias construtivas, que podem resultar em melhorias tanto nos sistemas tecnológicos quanto nas estruturas organizacionais.

Com a finalidade de promover a formação dessas pessoas e grupos (“ovelhas negras”) internamente, é preciso desenvolver uma cultura organizacional aberta ao desafio e à mudança, ficando as pessoas e grupos imunes às críticas dos rotineiros; fornecer financiamento inicial e o tempo necessário para a experimentação; proteger essas pessoas e equipes da burocracia da empresa; garantir que a alta gestão se conecte e suporte essas pessoas e grupos; e desenvolver líderes que pensem e ajam de acordo com as necessidades do presente e do futuro.

Um ambiente com essas características, voltadas para a inovação, pode fazer com que os “ovelhas negras” realmente façam a diferença na cultura e nos negócios da empresa e do país.

Marcos de Lacerda Pessoa, engenheiro, Ph.D. pela Universidade de Birmingham (Inglaterra) e pós-doutor em Engenharia pelo MIT, é autor do livro "Sementeira de Inovação".

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