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Pela liberdade acadêmica e pela pluralidade de ideias
| Foto: Theo Tavares

Infelizmente, como herança do antissemitismo que assola a humanidade há séculos, é comum, no Brasil e no mundo, encontrarmos grupos radicais que rejeitam a existência de Israel. Eles ameaçam “riscar Israel do mapa” e “lançar seus cidadãos ao mar”. Seus ativistas não se limitam a criticar o governo – o que, naturalmente, pode ser feito em relação a qualquer país. Mas apontam para a própria existência de Israel como um problema – o que não se aplica a nenhum outro país. Se apenas o único Estado do mundo cuja maioria da população é judaica suscita tanto descontentamento por sua existência, não resta outro motivo a não ser o antigo ódio aos judeus.

É esse tratamento peculiar dispensado a Israel, essa gana por destruição que gera resistência até a eventos acadêmicos sobre a história ou a política do país. O mesmo extremismo que prega a extinção de Israel clama pelo fim de aulas, palestras ou debates sobre sua história e política. Silenciar o ensino sobre o país é uma das estratégias para extingui-lo.

Foi o que ocorreu com a palestra “Os dilemas no processo de paz entre israelenses e palestinos”, que seria proferida por mim na Universidade de Pernambuco (UPE), no último dia 22. Após agressivas ameaças feitas por parte de grupos pró-palestinos contra a universidade, um de seus professores e a minha pessoa, o evento foi cancelado.

Espero também que grupos radicais não usem de ameaças para cancelar um evento acadêmico, prejudicando estudantes brasileiros

Respeito a atitude tomada pela UPE. A experiência no mundo todo mostra que ameaças de radicais muitas vezes se convertem em violência real. Houve quem tentasse antagonizar meu desejo por proferir a palestra e a decisão da universidade pelo seu cancelamento. Contudo, quero usar este espaço para refutar tal narrativa. A UPE, que seria anfitriã do evento acadêmico e que só optou pela sua não realização por temer pela segurança dos que estariam presentes na palestra, não é culpada pela situação. Ao contrário, é tão vítima quanto eu do radicalismo que impera em certos grupos militantes contra a autonomia acadêmica e a livre expressão de ideias.

Tais grupos costumam realizar eventos dentro e fora da academia, simplificando temas complexos e, no caso do conflito israelense-palestino, imputando a um dos lados – Israel – o papel de vilão, e a outro – o palestino –, o de vítima.

Em Recife, a campanha pelo cancelamento de minha palestra sobre os dilemas do processo de paz no conflito israelense-palestino foi feita em duas frentes. Publicamente, a Aliança Palestina publicou nota de repúdio ao evento em suas redes sociais. Nos comentários, era possível ler a articulação de seus membros ou simpatizantes, no sentido de contatar a universidade e impedir a realização da palestra.

Nos bastidores, o tom era mais agressivo e preocupante. Por telefone, um membro do corpo docente recebeu as ameaças vindas de uma entidade que se identificou como Associação Pró-Palestina e Muçulmana de Recife. Curiosamente, não há registro da existência dessa entidade.

Seria todo o plano orquestrado pela Aliança Palestina? Embora haja fortes indícios, não posso afirmar. E, mais do que dar nome aos responsáveis, tudo o que importa é concluir que a motivação por trás dos que trabalharam pelo cancelamento não era, como a princípio divulgaram no Facebook, um ato pela pluralidade de ideias. Cheguei a me oferecer para um debate público, em Recife, com um representante apontado pela Aliança Palestina. Prontifiquei-me a diminuir o tempo previsto para minha palestra, para que pudéssemos fazer tal debate. Não houve interesse da outra parte.

Como acadêmico, sempre acreditei que a universidade é um ambiente sagrado, razão pela qual respeito a soberania institucional e acadêmica, tendo em vista o desenvolvimento do conhecimento crítico como missão. Por esse motivo, sempre tentei, por meio de articulações democráticas, fazer com que os eventos promovidos por grupos anti-Israel contemplem visões que mostrem o outro lado. Sem sucesso.

Na palestra cancelada na UPE, universitários pernambucanos teriam a oportunidade de ver mapas que vão do Império Otomano aos traçados disponíveis nas diferentes ofertas de paz entre israelenses e palestinos. Eles entenderiam mais sobre a importância do status de Jerusalém, dos refugiados, da segurança e da Cisjordânia para as negociações. Seriam provocados a refletir sobre a atuação de potências europeias, a Inglaterra e a França, no Oriente Médio e suas consequências atuais. O que a Aliança Palestina de Recife fez foi boicotar o ensino.

A palestra que espero em breve realizar na Universidade de Pernambuco será sobre o processo de paz e possibilidades de uma solução pacífica para o conflito. Quando tivermos uma nova data, espero também que grupos radicais não usem de ameaças para cancelar um evento acadêmico, prejudicando estudantes brasileiros, que têm o direito constitucional de aprender livremente dentro de nossas universidades. A violência contra essas instituições de ensino é uma ameaça à democracia brasileira e precisa ser evitada e combatida a todo custo.

André Lajst é doutorando em Ciências Políticas pela Universidade de Córdoba e diretor-executivo da StandWithUs Brasil.

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