O indiciamento de 72 parlamentares no escândalo dos sanguessugas é um daqueles poucos acontecimentos que realmente merecem o adjetivo de histórico. Em menos de dois meses, um grupo obstinado, maduro politicamente e tecnicamente bem preparado, agindo em conjunto com outros grupos obstinados e tecnicamente bem preparados do Ministério Público e da Polícia Federal, produziu uma investigação devastadora e irrespondível. Agora é a vez dos outros, dos outros parlamentares, dos outros membros do Ministério Público, dos outros policiais e da magistratura superior não deixarem que esse momento belíssimo da história política nacional se perca por força de filigranas do "juridiquês" (apud Albino Freire), do formalismo ritualista de boa parte da justiça e de acordões de cocheira.

O país fica devendo mais essa a Fernando Gabeira, protagonista de outro momento histórico no Congresso, a espinafração pública que passou em Severino Cavalcanti, o símbolo mais conspícuo de um Congresso que não queremos, dominado pelo baixo clero e também discretamente pela alta hierarquia de uma seita maligna de corruptos, corruptores e sibaritas instalados em altos postos da república. Gabeira é também autor de um dos livros mais bem escritos da literatura política brasileira, "Que é isso companheiro?" em que narra seu envolvimento com a guerrilha urbana e revela seu desencanto com a esquerda "soi disant" revolucionária com algumas passagens inesquecíveis. Uma delas merece ser lembrada: um grupelho político de São Paulo, com o qual ele se envolveu, conseguiu se aproximar de um trabalhador do ABC. Encantados com a oportunidade de entender como vivia um trabalhador de verdade, de carne e osso, de macacão, que batia cartão na fábrica e tinha as unhas sujas de graxa, começam a freqüentar a casa do operário e conviver com sua família. No início, quando surgia uma discussão política no grupo, alguém sugeria: "Que tal ouvirmos a opinião do fulano?" e eles corriam para a casa do fulano. Depois de algum tempo, a sugestão era mais pomposa: "Devemos consultar as bases operárias!"; ou ainda: "Como reagirá a isso o proletariado?", o que, em português claro, continuava a significar conversar com o mesmo sujeito...

Ficamos devendo também mais uma a Antônio Carlos Biscaia que já havia desnudado a estrutura do crime glamourizado dos bicheiros cariocas, trabalho que a juíza Denise Frossard completou brilhantemente mandando para a Ilha Grande personagens antes intocáveis nos gabinetes palacianos e nos camarotes das escolas de samba. Conheci Biscaia quando sua família mudou para o Rio de Janeiro em 1960, ficamos amigos e estudamos juntos para o vestibular de Direito. Passamos nas duas faculdades que disputamos, ele preferiu ir para a PUC e eu para a Faculdade do Catete que, junto com a Faculdade Nacional de Direito, formavam a trilogia sagrada do ensino jurídico carioca naquele tempo.

Quanto a Amir Lando, acredito que ficamos devendo sua aparente conversão no caminho de Damasco. Lando era um protagonista improvável de qualquer tarefa purificadora no Congresso, especialmente depois do papelão que fez na CPI do mensalão que acabou sem relatório por uma mistura de procrastinação consentida com ineficiência explícita dos investigadores. Como dizem os espanhóis, as mulheres da noite se dividem em dois grupos: as "mujeres viejas" e as "mujeres muy viejas". Amir Lando fez parte do último grupo, mas, como Saulo de Tarso, parece ter sido ofuscado e derrubado de seu corcel, engajando-se na campanha purificadora.

Para culminar uma semana de bons presságios, o casal William Bonner e Fátima Bernardes estreou no jornalismo inquisitivo. Digo que estreou embora saiba que Bonner é o editor do Jornal Nacional, mas, depois que ele declarou que edita um jornal para ser visto pelo Homer Simpson, eu insisto em me recusar a fazer parte de seu público-alvo. Na ânsia de ser duros, Bonner e sua companheira cometeram alguns excessos como "acusar" Cristovam Buarque de haver perdido a eleição para Joaquim Roriz e de haver sido demitido por Lula. Ora, o fato de um político perder a eleição para um dos reis do clientelismo explícito ou um ministro da Educação ser demitido por um presidente que se gaba publicamente de sua ignorância, deveria ser considerado um galardão, nunca uma prova de incompetência. A inquirição de Fátima Bernardes rendeu ainda uma outra frase inesquecível. Já que Buarque martela no ouvido dos eleitores o mantra da absoluta prioridade da educação, pergunta a bela: "candidato, qual seria a sua segunda prioridade?". Ao que responde o pernambucano impávido: "Todas as outras!"

Depois dizem que Deus não é brasileiro. Se não é, andou passeando por aqui nos últimos tempos.

Belmiro Valverde Jobim Castor é membro da Academia Paranaense de Letras e, com muito orgulho, paranaense honorário.

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